Lê isso aí, ô! - Ricardo Polinesio


Fim de Jogo

Quando o homem de preto olhou para o relógio, botou o apito na boca, puxou todo ar que pode apitou com toda a força, o mundo pareceu parar. Jogadores se cumprimentaram, torcedores respiraram aliviados e comentaristas esportivos puderam soltar suas milhares de frases feitas tentando analisar o espetáculo que todos tinham acabado de assistir.

Mas o que passou batido, é que dessa vez, o homem de preto não era o árbitro e sim o juiz. Juiz mesmo, de toga com babados em branco e penteado à lá Luís XV.

O jogo foi bom. Emoção o tempo todo, chances para os dois lados, reviravoltas no placar, reclamações de ambas as partes e aquela coisa toda que o amante do esporte estava acostumado. E é “estava”, no passado, pois pior do que ninguém ter notado um juiz de direito fazendo as vezes de árbitro, foi o fato de aquele apito final não ter representado o fim do jogo em si, mas sim, o fim do futebol. A partir daquele domingo às 17h53, o futebol estava proibido na cidade. E ai de quem pensasse em desrespeitar.

Policiais foram instruídos a usar a força bruta em casos de desrespeito às novas regras e os poucos que tentaram infringi-las sentiram na pele do que estava se falando.

Alguns tentaram se arriscar em outros esportes, mas a altura média da população não era suficiente para a bola ao cesto, as ruas eram esburacadas demais para o atletismo, ninguém quis se arriscar a nadar no riacho infestado de piranhas e o povo era conservador ao extremo para aceitar quem resolvesse sair do armário para jogar vôlei.

O apito daquele domingo foi como um sopro que apagou a chama da população. A cidade parecia morta. Acabaram as discussões nos bares, acabou a gritaria de crianças nas ruas e a das velhinhas reclamando das vidraças quebradas. Acabou até o mau humor de segunda feira – o que seria bom, se não tivesse virado o mau humor da semana inteira.

As pessoas andavam nas ruas como zumbis, tristes, cabisbaixas. Os mais afetados começavam a pular na frente dos trens. Tudo ia de mal a pior quando um coco se desprendeu de um galho, caiu no chão e chegou rolando até os pés de um menino inocente que andava sem rumo por ali.

Do bar mais próximo, os homens viram a cena com brilho de esperança nos olhos, enquanto um policial correu para cima do menino que, com medo da surra que estava por vir, chutou o coco de lado, e correu para o outro. No bar os homens vibraram e o medo do menino rapidamente se transformou em entusiasmo. Empolgado, ele pisou no coco e chamou o policial para cima que, atordoado com a petulância do garoto nem percebeu o coco rolando por entre as suas pernas, enquanto o menino corria para controlar a fruta. No bar, os homens urravam de felicidade.

Logo chegaram outros policiais, que foram para cima do menino sem dó. Mas o jovenzinho não se intimidou e passou a driblar cada um deles, correndo de um lado para o outro sem nunca perder o controle do coco. Nesse momento não havia mais ninguém sentado no bar. Todos seguiam os policiais que, revoltados, seguiam o menino que os humilhava, também sem dó.

A empolgação do menino com a sequência de dribles desconcertantes foi tanta, que em um certo momento ele não se aguentou e chutou o coco com toda sua força. Segundos depois, ouviu-se o barulho do vitral da igreja se quebrando, um grito de dor do menino e o grito de gol dos homens do bar.

E enquanto comemorava o golaço e ao mesmo tempo sofria com a dor no pé, o menino finalmente foi pego por um dos policiais. Logo chegaram os outros que, cheios de raiva, começaram a espanca-lo ali mesmo. Os homens, ainda entusiasmados com o espetáculo que tinham acabado de assistir, nem ameaçaram intervir.

O menino foi levado para a delegacia e nunca mais se ouviu notícias a seu respeito. Alguns dizem que foi espancado até a morte enquanto a população inteira ainda comemorava o gol.

Morreu o menino, mas a cidade voltou a viver.



Escrito por Ricardo Polinesio às 17h23
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Encontros e Desencontros

Foram feitos um para o outro. Nunca souberam, mas sempre desconfiaram. Tentaram ficar juntos de todas as formas, mas quando ela podia, era ele quem estava enrolado. Namorados, namoradas, maridos e esposas não conseguiram diminuir a paixão que sempre permaneceu, as vezes guardada, as vezes escondida, no coração de cada um.

Paixão que nasceu no primeiro abraço apertado, no primeiro beijo, na primeira transa e nunca teve tempo para acabar, talvez pelo fato de sempre ter havido tantos encontros e desencontros entre os dois.

Ao longo dos anos, ambos passaram por arrependimentos, desilusões, raivas, ciúmes e muitos outros sentimentos, mas a paixão esteve sempre ali, sem nunca diminuir. Pelo contrário. A cada troca de mensagem, a cada conversa ela só fazia aumentar, assim como a vontade de um dia estarem juntos.

Poucos souberam dessa paixão secreta, talvez ninguém. Mas, por uma dessas coincidências da vida, eles finalmente conseguiram e hoje estão exatamente um ao lado do outro: Cemitério do Araçá, Lote 52, Quadra 38.

 



Escrito por Ricardo Polinesio às 18h24
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Tempos Modernos

- Qual é o seu nome?

- Roberta e seu?

- Daniel...

- Bonito nome!

- Obrigado...homenagem ao meu avô!

- Meu pai também chamava Daniel...

- Lamento...

- Tudo bem, já faz muito tempo...

- Quando eu tiver um filho, vai chamar Daniel também...coisa de família, sabe?

- Ah, que lindo!

- Quero muito ser pai...

- Eu sonho em ser mãe...

A partir daí, o papo rolou. Conversaram um pouco sobre família, filmes, músicas e trabalho. Descobriram um ou outro amigo em comum e até que moravam na mesma região da cidade. Trocaram telefones e continuaram se falando.

Ela, que tinha o costume de acordar tarde, passou a acordar cedo, só para mandar mensagens de bom dia. Ele, que era mau humorado pela manhã, passou a esbanjar um bom humor irritante desde o momento que saia da cama.

Os dias passavam voando para os dois. Depois de uma semana de intensa trocas de mensagens, decidiram também trocar fotos. Ela gostou do que viu, ele então, nem se fala. Naquele instante, tiveram a sensação de que haviam sido feitos um para o outro.

Se falavam o dia inteiro e não faltava assunto. Ela contava tudo sobre seu trabalho e sua família. Ele não ficava para trás e falava dos seus amigos, dos seus planos para o futuro, suas ideias e seus ideais.

Nitidamente, estavam apaixonados. Ela não parava de pensar nele. Ele não parava de pensar nela. Nua.

Dia após dia, o tesão crescia dentro dos dois. E crescia tanto, que ela não via a hora de se entregar para o seu amado, enquanto ele percebia que estava ficando louco com todos aqueles pensamentos. Sem sombra de dúvidas, os dois precisavam se agarrar desesperadamente.

Já se conheciam há meses quando finalmente decidiram se encontrar. Marcaram em um bar e não precisaram nem dar a descrição de suas roupas, pois de tanto ver fotos e mais fotos, já sabiam cada detalhe dos seus rostos e até dos seus corpos. A cor dos olhos de um, a covinha na bochecha da outra, a marquinha de nascença na bunda dele, a cicatriz de quando ela caiu da árvore e precisou levar 12 pontos na coxa, aos três anos de idade.

Roberta chegou primeiro e pediu uma mesa para dois. Nem bem havia sentado, quando viu Daniel entrando pela porta do bar e seu coração disparou. Ele a viu de longe e logo foi até a mesa. Cumprimentaram-se meio sem graça, tímidos.

- E ai!

- Tudo bem?

- Tudo ótimo...e você?

- Também...

- Finalmente, hein!

- Achei que esse dia nunca iria chegar...

- Eu também...

- Você é mais bonita pessoalmente...

- Obrigada! Você também...

- Obrigado...

- Então, esse é o Daniel!

- E essa é a Roberta!

- É...

- É...

Um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente. Ela não sabia o que fazer com as mãos, ele não sabia para onde olhar. Rezaram pera o garçom chegar e nada. Evitavam cruzar olhares. Ele até tentou falar do tempo, mas não colou. Ela começou a se lamentar, pensando que haviam conversado tanto por mensagens, que não tinham mais assunto. Ele começou a ter dores de barriga até que um barulho de mensagem no celular quebrou o silêncio.

Aliviado, Daniel pegou o celular do bolso e, para sua surpresa, viu que a mensagem era dela. Beberam um pouco entre um sorriso e outro até a hora de ir embora. Nunca mais se encontraram, mas transam todos os dias. E, mesmo sem camisinha, ela nunca engravidou.

 



Escrito por Ricardo Polinesio às 18h24
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Cheiro da Morte

A notícia de que um serial killer estava agindo livremente na cidade logo se espalhou e chegou aos ouvidos dos moradores que, em estado de choque, mal conseguiam sair de casa com medo de ser a próxima vítima. O pânico tomava conta das conversas entre os que se arriscavam a passar um tempo em qualquer boteco da região.

Percebendo que a cidade estava à beira de um colapso, mas com uma pulga atrás da orelha dizendo para continuar levando sua vida mansa, o delegado da cidade, já quase aposentado, sabia que precisaria fazer alguma coisa. Dr. Alaor, como gostava de ser chamado mesmo tendo sido registrado como Augusto, convocou a imprensa e, demonstrando muita estupidez, disse que a história do tal serial killer não passava de um boato. Invencionices da oposição, que queria derrubá-lo do cargo.

Os mais inocentes chegaram a acreditar na história, mas logo perceberam que foram enganados, quando na mesma noite, correu a notícia de que mais uma vítima havia sido encontrada. E dessa vez não era um cidadão qualquer, já que se tratava do dono da padaria. Da mesma forma que ocorrera com as outras vítimas, o padeiro foi encontrado nu, amarrado à cadeira da cozinha.

E logo que ficaram sabendo do novo crime os primeiros protestantes começaram a se amontoar na frente da delegacia. Além de ofender o Dr. Alaor, eles pediam também para que um novo delegado fosse colocado no cargo. Acreditavam que só assim a onde de crimes poderia acabar.

Temendo mais protestos na frente da delegacia e, principalmente, querendo mostrar para a oposição que não havia perdido o faro para solucionar os crimes mais misteriosos, Dr. Alaor anunciou para quem quisesse ouvir que iria resolver o caso. E, mais do que isso, iria expor o tal serial killer em praça pública para ser apedrejado por quem quisesse se vingar.

Logo pela manhã os trabalhos começaram com uma visita à casa do padeiro. A cena era horrível e um forte cheiro tomava conta do lugar. Mas, para desespero do Dr. Alaor, depois de uma minuciosa inspeção pela casa, nada foi encontrado. Nenhum fio de cabelo, nenhuma impressão digital, nenhum sinal de arrombamento. Só mesmo o cheiro forte, já misturado com o cheiro da morte.

As investigações continuavam enquanto novos crimes iam surgindo. Depois do padeiro, foi a vez do leiteiro, o carteiro e até o açougueiro. E a cena que o delegado encontrava era sempre a mesma: as vítimas nuas, amarradas à cadeira da cozinha, nenhum fio de cabelo, nenhuma impressão digital ou sinal de arrombamento. Só o cheiro forte, misturado com o cheiro da morte.

Intrigado, todas as noites o Dr. Alaor ia para casa pensando nos crimes. Quem poderia estar cometendo essas atrocidades? Como ele, que conhecia todos os moradores da cidade, não conseguia apontar um mísero suspeito? O que sua mulher iria pensar dele, caso não conseguisse resolver os crimes?

As dúvidas na cabeça do delegado só aumentavam quando chegou a notícia de que dessa vez quem tinha se dado mal havia sido o tintureiro. E depois de mais um dia inteiro de investigações sem encontrar nada além do cheiro forte misturado com o cheiro da morte, Dr. Alaor entrou em casa e percebeu algo familiar no ar. Pensou, cheirou, inspirou e notou um cheiro forte. Não tão forte como o cheiro forte misturado com o cheiro da morte, mas também forte.

O que poderia ser um bom sinal, um indício para a solução dos crimes, se tornou motivo de desespero quando ele percebeu que o primeiro e único suspeito das barbaridades que estavam ocorrendo na cidade não era um suspeito, e sim uma suspeita.

Com tristeza no coração e em silêncio, Dr. Alaor passou a seguir aquele cheiro forte e a investigar sua própria mulher. E antes que ela pudesse cometer mais um assassinato, foi surpreendida pelo marido, que além de salvar a pele do bombeiro e acabar com a série de crimes que aterrorizava a cidade, descobriu também que a esposa não passava de uma vadia.

Como prometido, expôs a mulher em praça pública. E foi o primeiro a jogar uma pedra, para mostrar que não estava para brincadeira.

Agora, se por um lado a cidade toda estava aos pés do Dr. Alaor, um verdadeiro herói, como diziam os mais entusiasmados, por outro lado o delegado estava humilhado e desolado com o fato de todo mundo saber que, além de herói, ele era também o maior corno da história da cidade.

Depois de muitas noites em claro, sem conseguir colocar a cabeça no travesseiro, talvez por medo de se machucar com os chifres, Dr. Alaor decidiu deixar de ser doutor e também Alaor. Com o orgulho ferido, colocou o rabo entre as pernas, voltou a ser Augusto e deixou a cidade. O Dr. Alaor estava acabado, mas havia aprendido uma lição: não se deve meter o nariz onde não tenha sido chamado.



Escrito por Ricardo Polinesio às 17h56
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Final Feliz

Já nasceu fazendo cagada: a mãe morreu no parto. Não conheceu o pai. Fruto do relacionamento de sua mãe com um cliente, na escola era chamado de filho da puta e não podia reclamar. Escola? Que escola? Aquilo não poderia ser chamado de escola. Sua escola, foi a da vida. Vida de merda, diga-se de passagem. Só aprendeu coisa errada.

Cresceu mal sabendo assinar o próprio nome. Conjugar um verbo, então, era praticamente impossível. Podia ter entrado para o mundo do crime, mas tinha boa índole, o infeliz. Podia ter pedido esmola, mas era orgulhoso que só ele. Podia ter arrumado um emprego, mas era estúpido demais para isso.

Decidiu virar andarilho. Não por convicção, visto que ele jamais poderia imaginar o que vem a ser convicção, mas por não ter mais o que fazer da vida mesmo.

Por onde passou, só trouxe desgraça. Estava lá quando Santa Catarina alagou e também quando a terra tremeu no Chile. Viu o prédio desmoronar e os bueiros explodirem no Rio de Janeiro. Dizem até que estava andando pelo Japão na época do Tsunami.

Ganhou fama e foi mal quisto por onde passou. Desiludido, decidiu parar. Arrumou uma sombra, se encostou e por lá ficou. Não por muito tempo, visto que o outono chegou, as folhas caíram e a sombra acabou.

Queria botar um fim em tamanha desgraça, mas nem para se matar o imprestável servia. Sem saber mais o que fazer resolveu tentar mudar a sua vida de merda. Estava certo que precisava se divertir. Tentou shows de humor, mas não conseguiu entrar em nenhum. Cinema, então, nem pensar.

Mas foi quando decidiu que não havia mais o que fazer, que o inusitado aconteceu. Presenciou uma cena hilária de uma velhinha com seu cachorro no meio da rua e esboçou um sorriso. A confusão aumentou e o sorriso virou gargalhada, que logo virou um ataque de riso. E o infeliz riu tanto, que acabou engasgando, sufocou e morreu.

Morreu de rir, o que é um final trágico, mas não deixa de ser feliz.

 



Escrito por Ricardo Polinesio às 12h03
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Fala, Garoto

Nasceu de 7 meses. Não por má formação ou algum problema na gravidez da mãe. Simplesmente nasceu de 7 meses.

Ótimo ouvinte, logo aprendeu a falar. Mais do que isso, aprendeu a completar as frases de quem conversava com ele. Como uma adivinhação, mesmo. Era a pessoa começar uma frase, que ele completava, entendendo do assunto ou não.

Alguns diziam que era um dom. Os mais místicos, que se tratava de uma criança agraciada. Mas em uma coisa todos concordavam: o menino era diferente.

Enquanto ainda era uma criança, achavam fofinho, uma graça. Já quando ele começou a se tornar um homenzinho, as coisas tomaram um novo rumo.

Na escola, era só a professora começar a explicar uma matéria nova, que ele logo se intrometia e teimava em terminar a frase. Não importava se era História, Geografia, Matemática, Química ou Biologia. O menino, agora já um garoto, dava sequência a qualquer explicação. E o mais assustador: ele fazia isso com a maestria que só quem entendia do assunto poderia fazer.

Tamanha astúcia fez com que o garoto se tornasse um símbolo da escola e até da cidade. Chegou a virar ídolo. Até o prefeito chegou a tirar fotos com ele – o que não se faz por uma reeleição, não?

Virou símbolo sexual, tinha filas de garotas querendo conhecer melhor o tal garoto que sabia de tudo. Parecia que a vida estava ganha para ele, até que, à boca pequena, invejosos começaram a dizer que se tratava de um sujeito extremamente inconveniente.

Revoltado, resolveu tirar proveito da fama alcançada ainda na escola. Como sabia que todos na cidade confiavam em qualquer complemento de frase que ele falasse, decidiu então criar novos finais para as histórias que as pessoas tinham para contar. Era só um sujeito começar a sua, que ele logo mudava o contexto das palavras – e também o final. Criava verdades. Transformava padres em pecadores, esposas fiéis em infiéis, bandidos em mocinhos e mocinhos em bandidos. Não adiantava o sujeito espernear, todos na cidade acreditavam nos finais que o garoto inventava.

A cidade, antes tranquila, virou uma confusão. Excomungações, divórcios, prisões indevidas. Parecia que todo mundo tinha o rabo preso, ninguém mais tinha coragem de falar nada. E o garoto ali, rindo sozinho.

Esperto, quando começaram a não mais falar perto dele, ele parou de inventar finais e voltou a completar histórias só com verdades. Mas o mal já estava feito, a cidade já estava de ponta cabeça, de pernas para o ar. E ninguém mais tinha coragem de abrir a boca em sua presença.

A fama de desagradável se alastrou pela região rapidamente e em pouco tempo ele já não tinha com quem conversar, até que decidiu desaparecer para não mais voltar.

A cidade nunca mais voltou ao normal. Ninguém confia no passado de ninguém e até hoje se comenta sobre o inconveniente garoto diferente que, na verdade, de inconveniente não tinha nada. Ele apenas ouvia depressa demais. 

 



Escrito por Ricardo Polinesio às 18h13
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A Menina que Dançava Frevo

Nessa vida todo mundo tem um dom, o difícil é descobrir qual é o seu. Dificuldade essa, que para a Julieta, nunca existiu. Logo que começou a dar os seus primeiros passos, já estava claro para toda a família: a menina sabia dançar.

Sabia e gostava, tanto é que assim que aprendeu a falar, já pediu para fazer aulas de dança. A academia era linda, e por ser a céu aberto, era um dos principais pontos turísticos da cidade. Julieta dançou de tudo. Ballet, salsa, tango, jazz, axé e até dança de salão, mas a dança que realmente fez os olhos da menina brilharem, foi o frevo.

Com o guarda-chuva nas mãos, Julieta ia bem. Com os pés então, era uma maravilha. Em poucas aulas, ela já era o destaque da academia de dança e alguns meses depois de ter sido matriculada, já foi convidada para fazer uma apresentação de dança. E não seria uma apresentação qualquer. O convite veio da prefeitura, para que Julieta dançasse no salão de festas da casa do prefeito, onde aconteceria a primeira festa das comemorações do aniversário da cidade.

Ela ficou lisonjeada com o convite mas, ao saber que iria dançar na casa do prefeito, Julieta recusou imediatamente. Não se sabe se foi o pouco tempo de ensaios ou a grande timidez da menina de 13 anos, mas o fato é que a apresentação não aconteceu.

A notícia vazou, a cidade toda ficou sabendo da recusa e Julieta ficou falada, o que fez a sua timidez aumentar ainda mais. Como forma de fugir dos problemas e dos dedos da população que insistia em apontar para ela por onde quer que a menina andasse, Julieta passou a ficar cada vez mais tempo na academia de dança.

Com o curso intensivo, a menina logo superou a professora. Era um espanto o que a Julieta dançava, o que ela fazia com o guarda-chuva e com os pés, que não paravam por nem um segundo sequer.

A mãe, orgulhosa, insistia para que ela se apresentasse e Julieta negava, enquanto dançava sem parar, cada vez melhor. Ela era convidada para diversas apresentações em teatros, clubes, escolas, mas a resposta era sempre a mesma: um sonoro não.

Cansados da timidez da menina, os organizadores dos eventos pararam de convidá-la para apresentações, o que fez com que a mãe de Julieta entrasse em desespero. Inconformada com aquele desperdício de talento, ela passou a insistir para que a filha dançasse em casa, em uma apresentação pequena, só para os familiares e os amigos mais próximos. Julieta negava, negava e negava, mas a insistência foi tanta, que a menina acabou aceitando.

Na noite da apresentação, ela ainda tentou recuar, mas com a casa lotada e o olhar firme de sua mãe, ela finalmente entrou na sala. Agradeceu os aplausos, pediu desculpas pela demora para aparecer e disse que seria uma apresentação rápida, pois estava com uma leve inflamação no pé esquerdo.

A música começou a tocar e Julieta deus os primeiros passos antes de abrir o lindo guarda-chuva colorido para encantar a plateia. Boquiabertos com o talento da menina, ninguém acreditou quando o guarda-chuva finalmente pôde mostrar todas as suas cores. Mas todos ficaram realmente espantados quando, alguns minutos depois, Julieta caiu no chão chorando e se contorcendo de dor. Desesperada, a mãe da menina colocou os convidados para fora enquanto a jovem dançarina só pensava em uma coisa: abrir guarda-chuva dentro de casa é foda.

 

 



Escrito por Ricardo Polinesio às 16h52
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Feliz Ano Novo

As últimas horas do ano se aproximavam e ninguém conseguia mais esconder a ansiedade. Os mais inquietos já se concentravam em frente à televisão para acompanhar os primeiros minutos do ano que estava por chegar do outro lado do mundo, enquanto as crianças jogavam bola no meio da rua.

11h59 aqui, 23h59 lá. A contagem regressiva começou, os fogos estouraram no ar e as pessoas de lá comemoraram o momento tão aguardado sem perceber algo de estranho no ar. Os fogos que deveriam enfeitar a festa e indicar a chegada de um novo ano, na verdade davam o sinal para buracos se abrirem no céu. Não se sabe se foi a quantidade de pólvora utilizada ou se foi o número absurdo de rojões, mas o fato é que a cada estouro, um novo buraco de escuridão se abria no céu.

Em poucos segundos, os abraços de feliz ano novo viraram abraços de despedida. Uma por uma, as pessoas iam sendo engolidas pelos buracos, cada vez maiores. E em cada fuso horário, a situação era a mesma: contagem regressiva, fogos, festa, abraços de comemoração, buracos, abraços de despedida.

Do outro lado do mundo, o desespero tomava conta da população que assistia boquiaberta toda aquela catástrofe transmitida ao vivo pela televisão, enquanto as crianças jogavam bola no meio da rua.

O corre-corre foi inevitável. Era gente para tudo que é lado, se desdobrando para desmontar a festa, destruir os fogos de artifício e tentar acabar com aquela tragédia anunciada. O tempo começava a passar mais rápido e o desespero só aumentava quando finalmente o último rojão foi destruído e as crianças foram recolhidas para suas casas.

Com um certo alívio, toda a população se reuniu na praça da cidade, para esperar o ano novo chegar. A contagem regressiva foi bem menos animada que o normal e o nervosismo tomava conta do lugar. Quando finalmente os relógios marcaram meia-noite, todos se entreolharam esperando o pior. Nada aconteceu. Meia-noite e um. Nada. Meia-noite e dez, nada. Sem fogos, sem gritos, sem champagne estourando, sem festa, sem abraços, sem buracos no céu.

Em silêncio e ainda assustadas, as pessoas começaram a retornar para suas casas. A noite passou e logo pela manhã o Sol começou a brilhar. Com medo, os primeiros a acordar abriam suas janelas e olhavam para o céu, procurando pelos buracos que acabaram com o resto do mundo, mas só viam uma imensidão azul.

Querendo retomar o ritmo normal de vida depois de todo pavor da noite anterior, as pessoas começaram a sair de casa. Até as crianças foram liberadas para jogar bola na rua. Um jogo tão significativo, que a cidade inteira resolveu assistir. E depois de tanta tensão, era até natural que o jogo fosse mais animado. Não demorou para sair o primeiro gol, que devido à emoção do momento, foi extremamente comemorado. As crianças gritaram, pularam, se abraçaram e o povo todo se animou com o momento.  

Durante a festa do gol, dizem que até um rojão explodiu. E foi nesse momento que um grande buraco se abriu no céu e começou a engolir rapidamente a cidade em festa. Demorou, mas finalmente o ano novo percebeu que já era hora de chegar.


 



Escrito por Ricardo Polinesio às 15h24
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O Cheiro do Éter

Ao abrir os olhos não teve nem tempo de se arrepender pela bebedeira da noite anterior. Ainda sentindo um gosto amargo na boca, foi surpreendido pelo cheiro forte de éter a nenhum centímetro de seu nariz. Apagou.

Acordou atordoado. Abriu os olhos novamente e só o que conseguiu enxergar foi a escuridão. Não sabia onde estava. Quis gritar, mas a voz não veio. Tentou se levantar, mas percebeu que estava acorrentado. Apagou de novo.

Ao acordar pela terceira vez, finalmente conseguiu perceber uma certa claridade. Seus olhos ainda embaçados não permitiam distinguir as cores, mas já podiam diferenciar o claro do escuro. Ouviu um barulho. Um ronco, quase um grito. Ficaria ainda mais assustado, não fosse o fato deste som ter vindo do seu estômago. Fome, muita fome.

Quando a sua vista se acostumou com o ambiente, olhou para o lado e encontrou um prato de comida que devorou em segundos, com uma fome de quem não come há dois dias, afinal, mesmo sem saber, esse era o tempo que já estava por ali.

Mas o que parecia ser um alivio, virou um tormento. A comida um tanto quanto apimentada gerou uma sede ainda maior que a fome de outrora. A saliva sumiu, a boca secou e o desespero aumentou. De repente, uma porta se abriu.

Sentindo calafrios, pôde enxergar apenas a silhueta de um homem. Tremia tanto que as correntes que o prendiam começaram a fazer um barulho ainda mais assustador que tudo aquilo.

No momento em que aquele vulto entrou na sala, percebeu uma faca em suas mãos. O pavor estava no ar. A tremedeira era incontrolável e o barulho aterrorizante. Os olhos brilhantes mostravam que se tratava de um sádico. A faca com manchas de sangue sugeria que talvez fosse um serial killer. A roupa branca não menos ensangüentada, proporcionava um aspecto de açougueiro àquele sujeito misterioso. A luz se apagou.

- Chega, pára com isso.

- Como assim??

- Isso mesmo...pode parar com essa merda!

- Mas...

- Já falei...não quero ouvir mais nada...

- Essa é uma das minhas melhores histórias...

- Porra Arnaldo, tá assustando a menina!!! Vem cá, filha...

- Mas querida, ela já tem 5 anos!

- Já passou, meu amor...puta merda, Arnaldo, é sempre a mesma coisa...

A mãe saiu do quarto batendo a porta e carregando a filha para dormir abraçada com ela.  Ao pai, restou o velho sofá da sala.



Escrito por Ricardo Polinesio às 15h28
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Fotos do Lançamento

Aqui as fotos do lançamento.

Obrigado a quem foi e a quem torceu para que fosse o sucesso que foi. Obrigado mesmo.

Você foi lá? Então salva essa foto no seu computador e abra em tamanho grande. Quero ver você se achar.



Escrito por Ricardo Polinesio às 21h01
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O livro

E não é que o blog virou livro? E o melhor: com lançamento e tudo.

Esteja convidado. Compareça, o coquetel é por minha conta, mesmo. Saca só o convitinho ai.

Conseguiu ler direitinho? Não? Então anota aí:

Data: 18/11

Horário: a partir das 20h00

Local: Bar Martins (R. Henrique Martins, 483)



Escrito por Ricardo Polinesio às 16h06
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Vida

A gente acordava e bebia cerveja barata. De vez em quando vodka nacional, só pra não cair na rotina. Trocava o dia pela noite e as poucas horas de sono eram longe de uma cama com lençol, cobertor e travesseiro. Isso era artigo de luxo. Qualquer canto para cair deitado era ótimo, mesmo porque, a gente só deitava quando não tinha mais forças pra ficar de pé.

Nosso carro era um ônibus. As vezes, quando sobravam uns trocados, um táxi. Nossos amigos eram alcoólatras, irresponsáveis, imaturos e indecentes. Só nos davam apoio quando era pra gente inventar uma desculpa e faltar no trabalho. Éramos fortes, saudáveis e imortais. E apesar disso, uma gripe ainda mais forte  e poderosa que a gente insistia em atacar sempre às segundas ou às sextas.

Já acordamos na sarjeta, já acordamos no ponto final do ônibus, já acordamos sem saber onde estávamos. Já não acordamos, justamente por não termos dormido.

A gente vivia com olheiras enormes e a ressaca era pior que o inferno. A luz do dia fazia com que nos sentíssemos verdadeiros vampiros. Doía os olhos, doía a cabeça, doía o corpo. Só não doía a consciência porque isso a gente não tinha mesmo. Era merda atrás de merda. Tivemos amigos que foram presos, amigos que apanharam, amigos que bateram o carro e amigos que perderam o emprego. Tivemos até amigos que não se lembram de porra nenhuma disso. A gente só se fodia.

Mas chegou um dia que finalmente a gente cresceu. A gente começou a levar o trabalho a sério, começou a ganhar dinheiro, a comprar cerveja da melhor qualidade, vodka importada e até uma cama nova. A gente começou a se dar bem na vida. A gente finalmente criou responsabilidade, nunca mais foi preso e agora chega em casa em horários de gente, não falta no trabalho, não arruma confusão e se beber, não dirige. É, a gente finalmente amadureceu. Que merda!



Escrito por Ricardo Polinesio às 14h15
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Medo

Medo de morrer todo mundo tem. Mas com o Almeida era diferente. Ele tinha é pavor. Não podia passar em frente a um cemitério que ficava tremendo feito vara verde. Coroa de flores, loja de caixão, mulheres vestidas de preto. Tudo isso era tremedeira na certa. O negócio do Almeida era evitar a morte. A sua morte. Talvez por isso desde pequeno tenha sonhado ser médico.

- O que você quer ser quando crescer, Almeidinha? – perguntou a professora.

- Médico.

- Que lindo...quer salvar vidas?

- Vidas não. Vida. E a minha.

O tempo passou e, apavorado com a hipótese de algum dia contrair uma doença sem cura, Almeida se dedicou a estudar. Queria saber tudo o que poderia acontecer em seu corpo, as causas, os efeitos. Entrou na faculdade e levou a medicina a sério. Tão a sério que em 6 anos se formou como melhor aluno da classe.

Não reclamava de dar plantões intermináveis. Pelo contrário, adorava.  Dizia que era a melhor forma de estar protegido. Caso acontecesse alguma coisa, já estaria ali, no melhor hospital da cidade.

Não bebia. Apesar da possibilidade do álcool esterilizar seus órgãos, a possibilidade de sofrer um acidente causado pela bebedeira era muito maior. Não fazia esportes, que apesar de ser uma forma de se manter saudável, também era uma forma de quebrar uma perna, um braço ou até sofrer uma parada cardíaca. Obviamente nao fumava. Drogas então, nem pensar. Só uma macoinha vez ou outra, é verdade, mas nesse caso ele dizia ser por motivos médicos.

Atravessar a rua, só na faixa de pedestres. Comida, só a feita por ele mesmo. Bicicleta, nem pensar. Televisão, só numa distância segura. Sexo, só com camisinha e olhe lá. Sol, só das 7h00 as 9h30 e das 16h00 as 18h00. Banho de mar, só em sonho. De piscina, só com bóia. Água, só fervida.

O Almeida passava mais tempo cuidando da vida do que vivendo, o que, no mínimo já era um contra-senso. Mas o Almeida era assim, fazer o que?

Mas o que ele gostava mesmo era de ficar no hospital. Era ali que o Almeida se sentia bem, se sentia em casa. Era no hospital que estavam seus amigos. Era onde ele conhecia todo mundo, do porteiro ao médico principal. O Almeida passava tanto tempo no hospital, que acabou contraindo uma infecção hospitalar.

Logo ele que sempre se cuidou, sempre se preocupou com a sua saúde, sempre olhou para os dois lados antes de atravessar a rua. Como essa vida era injusta.

A notícia correu os corredores do hospital, pegou de surpresa todos os enfermeiros e num piscar de olhos o médico principal já estava sabendo. Mais do que isso, estava comovido. Decidiu cuidar do Almeida, sem cobrar nada.

- Ô Almeida, como é que isso foi acontecer com você?

- São as ironias da vida, né doutor!

- Eu vou te livrar dessa, Almeida...confia em mim.

- Ô doutor...

- Você vai ver, Almeida...logo mais você já vai estar por ai, bebendo com os amigos...

- Eu não bebo, doutor.

- Nem uma gota?

- Nem uma gota.

- Então daqui a pouco você tá ai, correndo, jogando bola...

- ...

- Não joga bola, né?

- Não...

- Não tem problema...nada como uma bela feijoada!

- Não sou muito fã de feijoada, doutor...

- Já entendi, já entendi... você não vê a hora de levantar dessa cama, dar aquela transada com a sua esposa...

- Eu não sou casado...

- Ô Almeida, então vai comer uma puta, sei lá...

- Só faço sexo seguro, doutor...e olhe lá...

- Mas que merda de vida, hein Almeida!

- Doutor...doutor!! Onde você vai, dout....

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii



Escrito por Ricardo Polinesio às 11h57
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Fim do Mundo

Presa dentro de um carro sem rádio, sem ar-condicionado e atrasada para a reunião. O congestionamento, o calor e o barulho das buzinas eram tanto, que acreditava ser o fim do mundo. Tudo estava fora da ordem. O trânsito não fluía, o telefone não dava linha e os segundos corriam cada vez mais depressa. Definitivamente, a casa caia.

Decidiu ir a pé, que caminhando chegaria mais rápido ao final desta tormenta. O chão, que parecia abrir sob seus pés, fez o favor de quebrar seu salto, enquanto a forte ventania que atingia a cidade levantava sua saia para delírio da multidão. Buzinas soavam como trombetas do inferno. O forte calor, que ajudava a dar um clima infernal para a situação, foi interrompido por uma chuva daquelas que só o verão pode proporcionar.

Era mesmo o fim do mundo. A reunião já era. O projeto de meses de trabalho ia para o lixo. Daquele dia ela não passaria. Sua demissão não era mais uma hipótese. Descalça e ensopada, pensou na vida. Pensou em tudo o que tinha e não tinha realizado nos seus 35 anos e percebeu a falta de emoção que existia em sua história.

Ao seu redor, a situação só piorava. A chuva apertava, as ruas alagavam. O dia virava noite. A certeza de um fim iminente era tanta, que mudou os planos. Foda-se a reunião. Ligou para o chefe e usou todos os palavrões que conhecia. Um por um. Jogou a aliança para um lado e as chaves do carro para o outro. Bebeu whisky no gargalo. Começou a fumar. Brigou na rua. Bicou o cachorro. Correu pelada.

Cansada, decidiu dar para o primeiro que passasse. Deu para um, para dois, para três. Voltou para casa e ligou para a sogra. Com gosto, mandou a velha pastar. Deixou o marido para fora de casa, bebeu mais whisky no gargalo e, realizada, deitou-se esperando a morte. Morreria, mas morreria feliz.

Acordou sangrando. O mundo não acabou. Mas pelo menos a TPM passou.



Escrito por Ricardo Polinesio às 17h31
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Na Cozinha

Carlos andava preocupado. Depois de passar a vida toda exercendo o papel de homem-macho-dominante e escolhendo ele mesmo quem seria a cozinheira da família, sua esposa havia decidido botar ordem na casa. E a primeira providência a ser tomada seria a demissão da Dona Ana, uma crioula linda, de corpo perfeito e sorriso maroto.

O velho ainda tentou argumentar, dizendo que a moça cozinhava como ninguém, que era de confiança, mas a desculpa não colou. Nem ele mesmo conseguia comer as receitas preparadas pela Dona Ana.

- Cansei, Carlos, cansei!

- Que foi, Rosana, endoidou?

- Não aguento mais essa cozinheira aqui!

- Essa cozinheira tem nome. É Ana.

- Não importa se tem nome ou não. O fato é que chega! Basta!

- Mas eu não to entendendo...

- Não se faça de sonso...eu aguentei essa palhaçada por anos, mas agora chega!

- Mas...

- Não tem mais, nem menos...essa gororoba eu não como mais!

- Não fale assim, Rosana! Você está ofendendo a Ana!

- Não tem conversa...amanhã ela está fora! E tem mais: a partir de agora, quem contrata cozinheira nessa casa, sou eu!

- Mas a Ana...

- Carlos! Ou ela, ou eu!

Carlos ficou desconcertado. Não sabia se a esposa tinha descoberto as puladas de cerca que ele havia dado durante todos esses anos ou se o problema era só a comida mesmo. Ele não sabia o que fazer. Não queria perder sua boquinha de tantos anos, mas também não aceitava a idéia de perder a esposa que tanto amava. Engoliu aquelas palavras e foi para o escritório. Disse que precisava trabalhar. Ele que se orgulhava de ter as melhores cozinheiras do bairro – não que cozinhassem bem, é verdade – agora estaria sujeito a conviver com qualquer uma que a Rosana contratasse.

Duas semanas se passaram e os dois não tocaram mais no assunto. Aquela conversa parecia ter virado tabu, até o dia em que a mulher chegou com a notícia de que finalmente havia contratado uma nova cozinheira.

- Mariana!

- Que foi, Rosana?

- A nova cozinheira. Chama Mariana! Começa amanhã! E olha só: cozinheira de mão cheia, viu.

- Mariana?

- É, Mariana.

O velho escutou aquelas palavras e ficou quieto novamente. Mariana era um belo nome. Se ele tivesse sorte, seria uma moça de meia-idade, charmosa e discreta ao mesmo tempo. Um pitelzinho. Não conseguiu dormir. Parecia uma criança na véspera de uma viagem.

Na manhã seguinte, Carlos se levantou mais cedo que o habitual, preparou o café e ficou ali na cozinha, só esperando a campainha. Ao abrir a porta, o velho ficou em estado de choque. Seus olhos não podiam acreditar no que estava vendo. Uma morena de 35 anos, 1,75m de altura, coxas torneadas, seios fartos e ar pueril.

Ele não conseguiu dizer uma palavra sequer. Deixou a moça entrar e foi para o escritório. Estava radiante. Além da esposa não ter descoberto suas aventuras passadas, ainda tinha contratado a melhor cozinheira que ele já havia visto.

O tempo passou e a moça mostrava-se uma excelente cozinheira. Temperava a carne como ninguém, deixava o arroz soltinho, o frango sequinho e até o chuchu saboroso. O casal comia como nunca havia comido antes.

Tudo perfeito, não fosse o velho, num surto inexplicável, ter tentado se engraçar com a cozinheira numa tarde de quarta-feira. Entrou na cozinha sorrateiramente, chegou perto da moça e encheu as mãos. A surpresa com a descoberta de que Mariana, a cozinheira, era na verdade o cozinheiro, assim mesmo, com “o” no final, foi tão grande que Carlos bateu as botas. Seu coração não aguentou. Morreu.

Rosana não esboçou reação. Depois de anos e anos, finalmente estava livre das traições do marido, e principalmente, satisfeita.



Escrito por Ricardo Polinesio às 17h00
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Arsênico

Teresa andava desconfiada do marido. Depois de muitos anos casados, era a primeira vez que Miguel não procurava por sexo durante um período tão longo. A dúvida da traição e, principalmente, a abstinência pela qual a moça vinha passando estavam acabando com a sua vida.

Depois de muito conversar com as amigas mais próximas, Teresa finalmente tomou coragem e resolveu investigar a vida do maridão. Aprendeu técnicas de espionagem e, sem que o sacana desconfiasse, passou a segui-lo para cima e para baixo.

Não demorou muito para Teresa chegar a conclusão de que ela era a mais nova corna da cidade. Aquela pulguinha atrás da orelha finalmente havia resolvido aparecer e se mostrava ser muito mais real do que ela mesma poderia imaginar. Ela tirou fotos do casal, registrou entradas e saídas em motéis, gravou ligações e guardou camisas manchadas de batom. Tudo como mandam as cartilhas dos melhores espiões.

Fria como poucas mulheres, a chifruda manteve a calma e decidiu pensar muito bem antes de agir. Ela queria vingança, é verdade, mas ainda não sabia o que fazer. Pensou em sair dando para qualquer homem que passasse em sua frente, mas ela não seria tão baixa assim. Pensou em pegar o marido no pulo, pedir o divorcio e arrancar todas as suas economias, mas o safado não tinha onde cair morto. Pensou em deixar tudo como estava, desde que Miguel acabasse com aquela abstinência sexual. Pensou em se matar, mas ela não daria esse gostinho para ele.

Teresa já não agüentava mais aquela situação quando finalmente teve uma idéia brilhante: arsênico. Ela envenenaria o safado e faria com que tudo parecesse um acidente. Radiante com a solução encontrada, foi até a farmácia comprar o produto.

- Boa tarde, eu queria um vidro de arsênico, por favor.

- Minha senhora, este é um produto muito perigoso...posso saber o motivo?

- Claro...é que vou matar meu marido.

- O que é isso???? Que absurdo!!! Eu não posso participar de um crime...vou chamar a polícia...

- Calma meu senhor...vou matar também a amante dele...

- Ah não, um duplo homicídio...eu não posso concordar com isso!!!

- Mas meu senhor...

- Não tem essa de meu senhor, não...ponha-se daqui pra fora, ou eu chamo a polícia, hein!!!

Muito envergonhada, Teresa tirou uma foto da bolsa e mostrou ao farmacêutico, que ficou espantado ao ver a imagem de sua esposa pelada na cama com um outro homem.

- Mas porque você não me falou antes que tinha receita? Vou buscar o vidro de arsênico agora mesmo, minha senhora.



Escrito por Ricardo Polinesio às 19h53
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Conversa Fiada

João passou a vida toda andando descalço, sem se preocupar muito com a sua saúde, que era de ferro. Ainda menino, raramente pegava uma gripe. Alguma doença mais séria então, nem pensar. Mas idade chegou para ele.

Criado na praia, com jeito de bicho do mato, inteligência definitivamente não era o seu forte. E quando precisou enfrentar uma forte dor no peito, entrou em pânico. Não saia mais de casa e resolveu se esconder da vida. Cansada do marido o dia inteiro dentro de casa, a esposa tanto fez, que convenceu o caboclo a procurar um médico.

No dia da consulta João acordou apreensivo. E pela cara que o bicho voltou para casa, toda aquela apreensão tinha mesmo razão de ser. A mulher ainda tentou perguntar o que houve, mas nada nesse mundo fazia o cidadão abrir a boca e contar o diagnóstico.

João estava inconsolável. Sua cara estava péssima há dias. Até a vontade de comer o homem havia perdido. Preocupada com a situação do maridão, a esposa criou coragem e falou com o patrão de João, que aceitou dar uma força e conversar com o jagunço. Seria uma conversa de homem para homem.

- Ô João, que cara é essa?

- Nada não, dotô.

- Deixa disso, João…eu sei que você não tá legal…

- Ô patrão, não é nada não…só uns probleminhas lá em casa…

- João, João…antes de ser o seu patrão, sou seu amigo…

- Não se preocupa não, dotô…é só problema de pobre…

- Assim você me ofende…

- Ah, sabe como é, né…

- Olha, sua mulher conversou comigo…sei que você foi ao médico e depois ficou assim…o que aconteceu?

- Aquela viada falou com o sinhô???

- Ela quer o seu bem, João…

- Eu ainda mato aquela rapariga…

- Diz João, o que o médico falou?

- Ah dotô…é complicado…

- Complicado?

- Tô muito doente…mas na verdade, eu prefiro morrer…

- Ô rapaz, não fala assim não…

- Ah dotô, se fosse com o sinhô, o sinhô ia querer o mesmo viu…

- Anda João, desembucha!

- Tá bom, patrão, eu vou falar…é o seguinte, tive uma dores aqui no peito e já não sabia mais o que fazer…deu um medo danado…

- Sei…

- Ai a Cileide falou pra eu ir procurar um médico…a bichinha tanto me encheu a paciência, que eu fui…e agora tô assim, arrasado!

- Mas o que o médico disse, João? O que foi essa dor no peito?

- Ah, a dor no peito não era nada não…era gases…dei uns peidinhos e tudo se resolveu…

- Mas então?

- O problema foi depois, dotô…o sacana do médico disse que eu tava ficando velho, que eu tinha que fazer uns exames…

- Que exames?

- Tem uns que não tem problema não, dotô, mas tem um lá, que chama exame de próstata! Sabia que o médico quer enfiar o dedo no meu cu? E ainda disse que se não fizer isso, eu posso até morrer!!!

- É João, um dia essa hora chega para todos os homens… e é muito importante fazer esse exame.

- Aaaaahhh dotô…o sinhô sabe que eu não tenho frescura, não sou medroso nem nada, mas dedo no meu cu homem nenhum enfia não!!

- Deixa disso, João…esse exame todo homem tem que fazer…eu mesmo já fiz…

- O sinhô???

- É João…é normal…e super importante…isso pode salvar a vida de qualquer homem…

- Ah dotô, não sei não hein…não gosto dessas coisas…

- Você prefere correr o risco de deixar sua esposa ai, sozinha no mundo?

- Isso nunca, dotô!

- Então João…

- Tá bom dotô…o sinhô me convenceu…eu vou lá!

- Vai sem medo, João…todo homem faz isso um dia…

João agradeceu a conversa com o patrão, a preocupação e colocou na sua cabeça que fazer o exame seria mesmo fundamental para sua vida. Desistiu dos seus preconceitos e estava realmente decidido a procurar o médico para fazer o tal exame.

- Obrigado mesmo, viu dotô…não sei nem como agradecer…

- Que isso, João…ah, mas tem uma coisa, viu?

- Que foi, dotô?

- Só não pode gostar, hein!

João não foi visitar médico nenhum. Morreu de câncer na próstata seis meses depois daquela conversa.



Escrito por Ricardo Polinesio às 12h00
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Frio e Calculista

Sebastião era o rei dos assassinos. Um mestre na arte de matar. O demônio encarnado na figura humana. Um serial killer frio e calculista. Para ele, não tinha tempo ruim na hora de tirar a vida de alguém. Aquilo era uma necessidade física. Assim como respirar era necessário para os pobres mortais.

Ele não tinha dó nem piedade. Chegava para matar mesmo. Não queria nem saber quem era a vítima. Só importava saber onde deixaria o presunto.

Foi assim quando, a pauladas muito bem dadas, matou o Padre da cidade justificando que desta forma o velho pregador poderia ouvir mais de perto a palavra do Senhor. Ou então quando em uma noite chuvosa de verão resolveu acabar com uma família inteira sem nenhum motivo aparente. Matou o pai, a mãe e os dois filhos do casal, com requintes de crueldade nunca vistos antes.

Mas certa vez, em uma de suas carnificinas, Sebastião vacilou. Não matou como deveria. Pisou na bola e deixou provas. O vacilo custou caro e o psicopata acabou atrás da grades. Foi parar no xilindró.

E foi ali, ao lado de uma porção de malandros e bandidos das piores espécies, num lugar onde a sua índole assassina poderia piorar ainda mais, que Sebastião se encontrou na vida. Depois de algumas semanas de reclusão o safado participou do intercelas, um campeonato de futebol interno. E não só foi campeão, como também foi artilheiro e eleito o craque do torneio.

Depois do show de bola, a vida de Sebastião resolveu dar uma volta dessas que só ela sabe dar. Por obra do acaso o técnico do time da cidade esteve prestigiando a final do campeonato e ficou impressionado com a habilidade do serial killer. E através de muita conversa e táticas de suborno que todo policial rodoviário conhece, o sujeito conseguiu a liberação do craque para defender a equipe da cidade no torneio regional.

Em uma solenidade cheia de pompas no coreto de Santa Cruz do Oeste, Sebastião foi convocado para a seleção da cidade. Ganhou a camisa 10 e a faixa de capitão. Ele seria o técnico em campo.

A população se revoltou com a notícia do assassino solto por aí. Mas Sebastião logo tratou de calar a massa ao realizar, jogo após jogo, jogadas espetaculares, dribles desconcertantes, marcar golaços atrás de golaços e levar o time até a final do campeonato.

Para a alegria de Sebastião, o dia da redenção finalmente havia chegado. Aquele jogo era a chance do rei dos assassinos pagar todos os seus pecados. Mais do que isso, era a oportunidade de colocar Santa Cruz do Oeste no cenário estadual e, quem sabe, até no nacional.

Naquela tarde o estádio estava abarrotado. A cidade inteira estava ali só para ver Sebastião jogar. Até os coroinhas, ainda revoltados com a morte do Padre, torciam pelo craque. A torcida feminina exibia faixas com pedidos de casamento. A euforia de poder ver Santa Cruz do Oeste disputando o principal torneio de futebol do estado no ano seguinte era enorme.

Mas Sebastião sabia que não seria fácil. O time de São Bento das Araucárias era extremamente experiente. A equipe jogava pelo empate e os jogadores jogavam com o regulamento embaixo do braço. Sabiam o que fazer com a bola e, principalmente, sabiam que o 0x0 era um excelente resultado.

Sebastião dava tudo de si, mas o gol teimava em não sair. E quando o árbitro da partida se preparava para dar o sopro final em seu apito prateado, o ex-rei dos assassinos dominou a bola na entrada da área com a frieza que só um assassino pode ter. Com muita calma, ele driblou dois zagueiros e chutou encobrindo o goleiro. O tempo parecia andar em câmera lenta. A torcida prendeu a respiração. O grito de gol teimava em sair da garganta. Era o gol do título. O gol do acesso à divisão principal. Alguns torcedores choravam e já começavam a se abraçar.

Mas o futebol tem os seus caprichos e a bola explodiu no travessão. O árbitro imediatamente apitou o final de jogo. Ninguém acreditava no que estava vendo. Em segundos a euforia se transformou em tristeza. Na arquibancada, três torcedores morreram de infartos fulminantes. Um quarto não aguentou e também morreu, ainda na ambulância.

Sebastião, sozinho, dava um sorrisinho de canto de boca. Porque quem foi rei, nunca perde a majestade.


Escrito por Ricardo Polinesio às 16h35
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O bom e velho Andrade

Depois de muitos anos, encontraram-se no Bar de Irineu, lá no Júlio César. Foram amigos de infância, cresceram juntos, pularam muros, subiram em árvores e o escambau, mas a vida tinha tratado de separá-los por este tempo todo. E, não fossem as técnicas de reconhecimento facial aprendidas durante a passagem do Andrade pela polícia militar de Salvador, talvez esse reencontro nunca tivesse acontecido.

- Desculpa…

- Pois não?

- Eu tô te reconhecendo…Gerson?

- Sim, mas…

- Caceta, Gersão, quanto tempo…

- Desculpa…

- Ô Gersão…colé…não tá lembrado de mim?

- Andrade?

- Porra…pensei que você tinha esquecido…

- E eu ia me esquecer do velho Andrade Orelha de Abano?

- Velho?

- Ô Andrade…o tempo castigou você, hein…

- Que isso, tô inteirão…

- Inteiro careca, você quis dizer, né…

- Careca nada…ainda tem bastante cabelo por aqui…

- Só se for no sovaco.

- Não precisava dessa…

- Mas me diz, o que você tem feito? Por onde tem andado?

- Ah Gersão…depois que me casei com a Marieta…

- Peraí, você casou mesmo com a Marieta Bola de Meia?

- Claro que casei, até mandei o convite pra você…

- Pensei que era sacanagem…ninguém poderia casar com aquela sacana…

- Sacana?

- Deixa pra lá, Andrade…mas você ia dizendo…e depois do casamento? Teve filhos?

- Uma filha…uma gracinha, tem 18 anos já…olha só a foto dela…

- Uma graça mesmo…tem alguma de biquíni?

- Tô vendo que o seu senso de humor continua o mesmo, hein Gersão!

- Eu eu tô vendo que o seu senso estético também continua o mesmo…você tá uma gracinha com essa camisa rosa…

- Foi a Marieta que me deu…

- E se ela te desse um vibrador, você ia usar?

- Não gostou?

- Ô Andrade, o pessoal tá até olhando de lado…

- Desce mais uma aqui, Irineu!

- Boa Andrade…essa é por sua conta, hein!

- Como assim?

- Pelos velhos tempos, ué!

- Tá certo…

- Ô Irineu, então manda uma rodada pro pessoal na conta do Andrade!

- Que isso, Gersão?

- Ah, Andrade…são só 13 clientes…e você não vai me contrariar aqui na frente do Irineu, né?

- Tá certo…

- Andrade, Andrade…o mesmo mão de vaca de sempre

- Mas eu tô pagando!

- É, mas não queria, né…

- Não, mas…

- Porra, Andrade, a gente precisa se encontrar mais vezes, relembrar os velhos tempos…

- É só combinar…

- Lembra quando a gente ia na Fonte Nova ver o Bahia jogar?

- Ô se lembro…bons tempos aqueles! Que saudade!

- Bobô, Charles, Zé Carlos, Marquinhos, Paulo Rodrigues, Ronaldo…

- Era uma festa mesmo…estádio sempre lotado…era difícil alguém ganhar da gente lá…

- Porra, Andrade, tava pensando…porque a gente não combina de ir lá pra Feira, assistir o próximo jogo do Bahia, hein?

- Irineu, tá aqui a grana da conta. Pode ficar com o troco.

No mesmo instante Andrade levantou-se e foi embora sem nem mesmo falar tchau ou deixar pistas. Ele aturava de tudo. Menos piada de mau gosto.



P.S.: TEXTO PUBLICADO NO BLOG DO TORCEDOR DO BAHIA, DO GLOBOESPORTE.COM (http://colunas.globoesporte.com/josericardo/)


Escrito por Ricardo Polinesio às 10h04
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Amor de Mãe

Queria porque queria ser mãe. Pensava nisso o dia todo. Não conseguia dormir a noite. E quando conseguia, acordava de madrugada. Tinha desejos. E nem grávida estava. Aliás, nunca havia estado.

Mês sim, mês não, resolvia reformar o quarto do bebê. Na rua, tinha inveja daquelas mulheres que desfilavam com seus barrigões. E raiva das mães que passeavam com seus bebês. Aquele sonho de menina tinha virado obsessão.

Espantava namorados. Homem nenhum queria saber dela. A não ser os vasectomizados. Mas desses aí, era ela que não queria chegar perto. Sua vida girava em torno do bebê que não existia.

Resolveu dar para o primeiro que aparecesse. E para o segundo. E para o terceiro. E nada de engravidar. Pensou em adotar, mas não seria sangue do seu sangue. E deu para o quarto, para o quinto e para o sexto. E nenhum óvulo fecundado. Deu para o sétimo, para o oitavo, para o nono, para o décimo terceiro, para o vigésimo, para o vigésimo oitavo. E nada da barriga crescer. Pelo contrário. O exercício era tanto, que ela só emagrecia.

Catarina pegou gosto pela coisa. Passou a dar para qualquer um. Não importava se o cara era branco, negro, mulato, alto, baixo, anão, perneta ou banguela. Se era gordo, magro, vesgo, cego, surdo ou mudo. O que importava era dar.

Ser mãe deixou de ser uma obsessão. Catarina finalmente tinha descoberto que ser filha da mãe dava muito mais prazer.


Escrito por Ricardo Polinesio às 15h42
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