Lê isso aí, ô! - Ricardo Polinesio


Bagunça

Depois de quase 20 anos de casada e cansada daquela bagunça em que sua casa havia se transformado, decidiu arrumar as coisas do marido. Tirou o dia de folga no serviço, colocou um lenço na cabeça, um avental na cintura e teve o seu dia de princesa ao contrário.

Mais tarde, cansado do dia estafante de trabalho, o marido chegou em casa e se deparou com a esposa ainda com trajes de doméstica e uma fisionomia nada excitante.

- Que porra é essa, Camila? O que você tá fazendo vestida assim?

- Tô terminando de arrumar a casa, Danilo…

- Que eu me lembre, é pra isso que a gente paga aquela faxineira…

- Você gostaria que ela mexesse nas suas coisas do quartinho?

- Não…peraí, você não mexeu no quartinho…

- Claro que mexi…aquilo lá tava uma zona…limpei tudo!

- Camila, aquilo lá são as MINHAS coisas!

- As suas coisas na NOSSA casa, Danilo!

- Mas você nunca entrou ali…

- Claro, era tanta bagunça que eu não tinha espaço nem para pisar lá dentro…

- Você não tá querendo dizer que…

- Isso mesmo, joguei todo o lixo fora!

Sem ouvir mais nada do que a esposa tinha para dizer, Danilo foi correndo até o quartinho onde ele guardava todas as suas recordações. Durante os poucos passos que separavam a sala do quartinho, sua vida inteira passou pela cabeça. Ao abrir a porta, Danilo se deparou com uma cena jamais imaginada: o quartinho estava em perfeita organização. Nada no chão, tudo limpo e todas as portas dos armários fechadas.

- Eu não tô acreditando no que eu tô vendo…

- Não ficou o máximo, amor?

- O máximo?? Cadê minha coleção de tampinhas, Camila?

- Coleção? Você chamava aquilo de coleção?

- Como assim, “chamava”?

- Era ferrugem pura, amor…imagina se você se corta com aquilo!

- Aquilo era a minha história! Era uma parte da minha vida, que você fez o favor de destruir…

- Não fala assim…fiz isso pensando no seu bem…

- Peraí…não tô vendo minhas revistas de carro…não vai me dizer que você também…

- Doei para aquele mendigo que passa aqui recolhendo o jornal!

- Não pode ser! Minha juventude toda estava ali!

- Você nem lia aquele monte de notícia velha…e o mendigo ainda vai ganhar uma boa grana com aquele monte de papel…

- Você não entende, Camila…

- Não mesmo…aliás, aquela bagunça que era isso aqui realmente não dá pra entender…

- Não é possível…

- Eu tive um trabalhão, viu! Até lavei suas camisas de futebol…sabia que tinha uma toda rabiscada?

- Não! A camisa com o autógrafo da seleção de 70, não!!

- Que?

- Cadê, Camila? Cadê minha camisa?

- Aqui nesse armário, ó! Novinha em folha!

- Os autógrafos sumiram…

- Não ficou linda, amor? Sente o cheirinho do alvejante…

- Eu suei tanto para conseguir esses autógrafos…

- Ah, deve ter suado mesmo, porque ela tava com um cheiro horrível…

- Não é possivel…não é possível!

- Pára com isso, amor…parece até vitrola quebrada…

- Falando nisso, não tô vendo os meus discos…

- E nem vai ver mesmo…joguei tudo fora pra você…

- Eram as minhas músicas, Camila!

- Eu gravo um CD pra você, com as músicas que você quiser…escrevo uma dedicatória e tudo!

- E meus carrinhos?

- Doei tudo pro orfanato! Você precisava ver o sorriso daquelas crianças…

- Você jogou minha vida no lixo, Camila!

- Não, não, não…eu arrumei e limpei tudo, é bem diferente.

- Não é possível…

- Ah, fala a verdade, vai…o quartinho não ficou um brinco? Peraí amor…onde você vai?

- Preciso de uma cerveja.

- Mas você não bebe, Danilo!

- Vou começar agora!

A porta bateu e lá foi ele em direção ao boteco. Sem entender direito aquela reação, Camila preparou o jantar, colocou a mesa e até acendeu velas para tentar animar um pouco o que sobrava do marido. Mas apesar de todo aquele cuidado, a mulher ficou a ver navios. Danilo nunca mais voltou. Tinha saído para recomeçar a sua vida.


Escrito por Ricardo Polinesio às 16h40
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Inseparáveis

Desde pequenas as duas estavam sempre juntas. Onde a Marcela ia, lá estava a Mariana. No carrossel dava briga para saber quem ia sentar no cavalinho rosa e quem ficaria com o azul. No escorregador, a briga era pra saber quem descia na frente. E no jogo das argolas, pra saber quem lançaria a argola primeiro. Mas apesar das brigas, as duas eram inseparáveis.

- Marcela, vai pro banho!

Lá iam as duas pro banheiro.

- Mariana, arruma sua cama, menina!

E lá estava a Marcela ajudando com o trabalho pesado. Não havia o que separasse as duas. Eram como unha e carne.

Na escola a professora tinha dificuldades para não deixar as duas colarem. Na fila da cantina sempre tinha alguém reclamando que uma das duas estavam furando fila. E nas aulas de educação física, o time delas sempre jogava com uma atleta a mais.

O tempo passou, Marcela e Mariana cresceram e veio a primeira menstruação. Claro, no mesmo dia. Começaram a crescer os peitinhos e o corpo das meninas começava a ganhar formas do corpo de uma mulher. E que mulher.

Como todos os alunos do colégio, as duas também fizeram cursinho para entrar na faculdade. Escolheram o mesmo curso e estudaram muito, sempre juntas. Quando saíram as primeiras listas de aprovados, os gritos vindo da casa delas eram muito mais altos. Afinal, de tanto estudar as mesmas matérias incansavelmente, as duas fizeram a mesma pontuação na prova do vestibular. Foram aprovadas com louvor, em primeiro lugar.

Dona Adriana, a mãe das meninas, quase teve um treco quando ficou sabendo que a faculdade era em outra cidade. Refeita do susto, não teve dúvidas: alugou um apartamento perto do campus para que as filhas dividissem.

Passada a fase dos trotes, veio a primeira festa universitária que elas participariam. Seria na casa do Albertinho, aquele veterano que as duas morriam de amores. Marcela e Mariana se produziram, passaram batom, fizeram maquiagem, colocaram um vestido provocante e foram para a festa.

Experiente, o rapaz aproveitou o descuido de Mariana, que dormia no sofá ao lado da irmã depois de beber mais que o devido, e deu logo um beijo na outra. No meio de todo aquele romantismo, mão aqui, mão ali, a menina que parecia desmaiada acordou. Aquilo não poderia ser verdade. A irmã não poderia ser tão insensível com o seu pobre coração apaixonada. Mariana então não teve dúvidas: partiu para a ignorância.

Aí foi soco, chute, tapa e pontapé para tudo quanto é lado. Puxa cabelo daqui, morde dali e quando se viu, as duas estavam praticamente nuas. O Albertinho até tentou separar, mas viu que seria impossível. E depois de tanto apanhar no meio daquela terrível briga das duas irmãs, ele teve a certeza de que nunca mais tentaria namorar uma gêmea siamesa.


Escrito por Ricardo Polinesio às 16h54
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Karaokê

O trabalho aqui na agência tá grande e tô meio sem tempo de parar e pensar em algum texto novo. Pra isso aqui não ficar totalmente morto, vou republicar um texto antigo. Se você ja leu, deixa de ser preguiçoso e releia. Se ainda não leu, divirta-se. Espero que na semana que vem possa ter novidades por aqui. Lá vai.




Ele era um cara estranho. E como todo cara estranho, ninguém entendia muito bem o que ele queria da vida. Fazia faculdade, natação e corria no parque. Até alguns amigos ele tinha. Ninguém muito próximo, mas alguns colegas de sala, que faziam trabalhos em grupo. Sempre negava os convites para as festas da faculdade, mas para os pais, dizia que era o cara mais popular da sala. Por isso vivia saindo, todas as noites.

Ela era uma japonesinha típica. Pequenina, tímida, discreta e de poucas palavras. Chegava até a ser estranha, de tão pouco que falava. Morava com os pais, os irmãos e os avós em uma casa que fazia fundos para uma loja de bugigangas, o ganha pão da família. Seu pai, muito rígido, não gostava que ela saísse a noite. Mas ela, sorrateiramente, conseguia escapar todas as noites, sem deixar vestígios.

Mesmo sem se conhecer, os dois tinham uma paixão em comum: a música. Mais do que isso, os dois sonhavam em ser cantores. E, estranhos que eram, frequentavam todos os karaokês da Liberdade. Um a cada noite. Mas ficavam ali, observando, aplaudindo e criando coragem para um dia, quem sabe, soltar a voz. Mas apesar dessa coincidência de gostos (e claro, devido à grande quantidade de karaokês na Liberdade), eles nunca haviam se encontrado.

Até que uma noite ambos entraram no mesmo karaokê. Ele inteiro de preto, com uma mochila nas costas e, como sempre, apreensivo. Ela de calça jeans e uma blusa larga, bolsa debaixo do braço e cara de assustada, por ter mais uma vez saído fugida de casa. Sentaram em mesas distantes, uma de cada lado do palco.

Ele nem reparou, mas ela não conseguia tirar os olhos daquele cara misterioso e sozinho, que cantava todas as músicas como se fosse o compositor de cada uma delas. Ela decidiu que precisaria chamar atenção do rapaz, mas não sabia como. Resolveu cantar, mas não tinha coragem de enfrentar os olhares do público e, principalmente, do rapaz misterioso. Chamou o garçom, pediu uma caipirinha. Com um pouco de bebida na cabeça, talvez criasse coragem. Pediu mais uma caipirinha. E mais outra.

Já no final da noite, escolheu a música, criou coragem e foi até o palco. Sem medo de nada, ofereceu a música ao rapaz de preto e começou a cantar. Até que começou bem, mas aos poucos foi esquecendo a letra, errando as notas e começando a gaguejar. As poucas pessoas que acompanhavam o espetaculo, começaram então, a vaiar. Quando ela já estava morrendo de vergonha, as vaias foram interrompidas pelo barulho de um tiro, que acertou em cheio a cabeça da moça.

Antes de ser levado ao camburão, ainda escutaram ele dizer: “Se o grande Tim Maia era obrigado a ouvir aqulio se revirando no túmulo, ela também era obrigada a ir até ele e pedir desculpas”.


Escrito por Ricardo Polinesio às 10h49
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Notícia

É com grande orgulho que escrevo esta notícia. Acabo de saber que os contos "Muito Prazer" e "Pé de Coelho, Saravá, Bate na Madeira 3 Vezes" foram selecionados no XXIV Concurso Internacional Literário e serão publicados no livro "Horizonte Noturno".

Se vc quer mais informações sobre este concurso, acesse o site www.giraldo.org e leia. Se você está boiando em relação a esta notícia, faça uma busca aqui no blog e leia os contos vencedores. E se você é o Chang ou o Juan, chupa.

Escrito por Ricardo Polinesio às 18h29
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Amante

Quando ele mais uma vez resolveu ir ao banheiro, a namorada começou a desconfiar. De duas, uma: ou seu namorado estava com a bexiga solta ou tinha outra garota na jogada. Aquilo não era possível. Eles estavam na festa a menos de duas horas e esta era a sexta vez que o Jorge precisava se dirigir ao toilette.

- De novo, Jorge?

- Estou apertado, Márcia!

- Mas já é a sexta vez!

- Agora você vai ficar controlando até quantas vezes eu vou ao banheiro?

- É que…

- Não perturba, Márcia…dá licença!

- Mas Jorge, meu amor…

E lá foi ele, resolver o seu problema. A namorada, espantada com tamanha grosseria, mais parecia uma estátua. Mas quando seus lábios começaram a tremer, prevendo um choro cada vez mais iminente, ela ouviu uma voz.

- Não deixa isso ficar assim, Márcia…vai atrás dele.

Atordoada com a situação e sem saber se aquilo era coisa da sua cabeça ou a se era a voz da sua melhor amiga dando mais um conselho estúpido, Márcia voltou a se mover e foi em direção da escadaria que levava ao banheiro localizado no piso superior daquela casa.

Ao chegar lá em cima, foi logo colando o ouvido na porta do banheiro. E depois de alguns minutos de silência absoluto, ela escutou uma movimentação ali dentro. Mais um período de silêncio veio seguido do barulho de três chutes no vaso sanitário. Em seguida, ainda ouviu a descarga sendo puxada por três vezes.

Márcia deu risada, imaginando a situação. O namorado com uma tremenda dor de barriga e nervoso com a privada que resolveu entupir bem nesta situação. Até com remorso por ter desconfiado do namorado ela ficou.

Mas quando Márcia voltou a colar o ouvido na porta, reconheceu a voz do namorado vindo lá de dentro. Ele parecia conversar com uma garota. Novamente tomada pelo ciúme, ela arrombou a porta com um só chute e deu de cara com Jorge aos beijos com uma mulher.

Márcia gritou e assustou o casal. O beijo foi interrompido. Jorge ainda teve tempo de rezar para que aquilo não fosse verdade, mas era tarde demais. As duas já haviam trocado os olhares fatais.

Depois de ter visto aqueles algodões no nariz daquela loira lindíssima, Márcia, pálida como um fantasma, ainda tentou sair correndo. Ela, que nunca levou a sério nenhum tipo de lenda urbana, só conseguiu dar três passos antes de ter a cabeça arrancada do próprio corpo e cair dura no chão.

Bobinha, não sabia que não se deve tentar fugir da loira do banheiro.


Escrito por Ricardo Polinesio às 12h02
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Carnificina

O sangue não parava de jorrar quando ele entrou naquela sala sem janelas. As paredes, antes completamente brancas, agora estavam pintadas de vermelho. Gritos ensurdecedores vinham de todos os lados. Tentou correr, mas a porta, fechada pela força do vento, estava trancada.

Aurélio ficou ali, imobilizado, observando aquela cena brutal. Nunca tinha visto tamanha crueldade. Tentou desviar o olhar, mas só conseguia focar naquele imenso corte na jugular. Tentou gritar, mas a voz não vinha. E a única coisa que conseguiu ao abrir a boca na tentativa desesperada de conseguir ajuda foi sentir o gosto daquele sangue que continuava jorrando para todos os lados.

Sentiu a roupa pesada. Uma mistura de sangue com suor. O cheiro havia se tornado insuportável. Os gritos ensurdecedores continuavam. Aurélio não sabia mais o que fazer quando fechou os olhos e tentou se lembrar de coisas boas da sua vida. Foi nesse momento que mais um jato de sangue foi de encontro ao seu rosto. Ele não aguentou e vomitou ali mesmo.

Nunca tinha visto tamanha carnificina. Seis corpos pendurados, um ao lado do outro, todos com o mesmo corte na jugular. E o sangue continuava jorrando sem cessar. Ele não conseguiu mais resistir e, mais pálido que um fantasma de desenho animado, caiu ali mesmo.

Foi retirado quase sem vida quando os donos do local chegaram para acompanhar o andamento dos trabalhos. Ainda no hospital, Aurélio, agora um vegetariano convicto, falou para si mesmo: “visita ao matadouro da cidade, nunca mais”.


Escrito por Ricardo Polinesio às 11h41
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João e Maria

Maria acordava cedo, tomava um belo banho, se arrumava inteira, devorava o café da manhã reforçado com ovos e bacon e ia trabalhar. João acordava tarde, engolia rapidamente uma xícara de café, tomava uma ducha rápida, se arrumava inteiro e ia trabalhar.

Maria era vaiodosa e recalcada. Tinha jeito de moça de família, não falava palavrões e nem fazia cara feia. Usava um vestido longo e gostava de deixar seus cabelos bem compridos e soltos. Trabalhava como faxineira na residência da Dona Lurdes. João era desleixado. Metaleiro e mal encarado, gostava de exibir suas longas madeixas e soltava palavrões a torto e à direita. Mas para trabalhar como segurança na residência da Dona Lurdes, escondia os cabelos embaixo do boné. Exigência da patroa.

Nos finais de semana, Maria gostava de acordar cedo para lavar a roupa, arrumar a casa e assistir os meninos jogando bola no campinho de terra. Ela dizia para quem quisesse ouvir, que ainda seria a técnica daquele time. Já João, acordava tarde, comia qualquer coisa nos botecos da região, tomava um trago com os amigos e aproveitava as festas mais animadas do bairro.

Os dois moravam juntos. Não eram casados, namorados e muito menos um casal. Eram apenas colegas de quarto. Ou de barraco, como gostavam de deixar claro para a patroa e os vizinhos. O relacionamento deles era ótimo, apesar de se encontrarem apenas na parte da tarde, enquanto João se arrumava na frente do espelho. Invariavelmente, costumavam se cumprimentar de forma simples e metódica.

- Boa tarde, João.

- Bom dia, Maria.

E era assim há anos. Vinte e três, para ser mais exato. Vez ou outra, trocavam algumas palavras a mais.

- Boa tarde, João.

- Bom dia, Maria.

- Se apressa aí, que a mulher tá uma fera hoje.

- Pode deixar comigo.

- Bom trabalho, João.

- Boa noite, Maria.

E lá ia João pegar no batente enquanto Maria descansava em paz depois de uma dura manhã de trabalho na casa da Dona Lurdes.

Certa vez, numa tarde chuvosa, uma tragédia aconteceu. Depois de um temporal típico de verão, com chuva de granizo e tudo, o barraco de Maria e João desabou. Os dois nunca mais apareceram para trabalhar na casa da Dona Lurdes.

Os corpos nunca foram encontrados. Mesmo assim, os vizinhos organizaram um velório simbólico para homenagear os amigos de longa data. Mas o que tinha tudo para ser uma cerimônia triste e cheia de lágrimas, terminou em uma grande festa. Todo mundo de mãos dadas, formando um círculo, rodando e cantando.

“Maria sapatão,
sapatão,
sapatão.

De dia é Maria,
de noite é João”.




Escrito por Ricardo Polinesio às 11h24
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Velório

Morreu o Aníbal. A família, em prantos, aos poucos foi chegando para o velório. Um tio do interior de São Paulo, um primo do norte do Paraná, as filhas do Rio de Janeiro e até aquele sobrinho de Brasília. Todo mundo apareceu. Nem no Natal a família estivera tão reunida.

Alguns não sabiam direito nem o porque estavam ali. O fato é que a notícia da morte repentina do Aníbal se espalhou e todos os parentes resolveram aparecer para prestar as condolências. Tinha gente que não se encotrava há anos.

- Quanto tempo, Juvenal!

- Pois é…acho que já faz uns 7 anos.

- Tudo isso?

- Opa! Daí pra mais…

- Não é possível…

- Faça as contas, Alberto…quando morreu o Elias, o Lula ainda não era o presidente…

- Ah, o Elias…que sujeito, hein!

- Um homem bom…não merecia uma morte como aquela…

- Não queria dizer isso, mas só não foi pior que a do Aníbal…

- Não brinca…

- Vai dizer que você não…

- Não faço a menor idéia…morreu de que o Aníbal, hein?

- Assassinato. Parece que a amante encontrou o Aníbal nos braços da esposa, bem no dia do aniversário dela…

- Da esposa?

- Não, da amante.

- Xiiii

- Pois é…

- Com amante não se brinca, Alberto!

- Pobre Aníbal…não merecia morrer assim…

- Foi feio o negócio então?

- Ô! Dá uma olhada lá…caixão fechado e tudo!

- Pobre Aníbal!

- Mas me diga, Juvenal, como estão as coisas lá no Paraná?

- Você soube que eu me separei da Gilda, né?

- Tá brincando!?!?

- Com coisa dessas não se brinca, Alberto!

- E as crianças?

- Ficaram com a mãe…estão morando nos Estados Unidos!

- Não é possível…

- Pois é…já não vejo eles há 3 anos…

- Isso é um crime!

- Nem me fala…mas e você, Alberto, o que conta?

- Soube que me casei novamente?

- Não brinca!

- Verdade…te mandei um convite até…

- Deve ter ficado na casa da mãe da Gilda…

- Pena você não ter ido…foi um festão!

- A parentada toda foi?

- Pra falar a verdade, só os mais íntimos…

- Casamento é assim mesmo…

- É por isso que eu prefiro velório…vêm sempre a família toda!

- Você viu que até a tia Ermenengarda tá aí?

- Vi…ela e a tia Ruth…

- Bons tempos aqueles na casa da tia Ruth…

- Bota bom nisso, Juvenal!

- Aquela sobrinha dela…

- Era sua meia-prima, Juvenal!

- Vai dizer que você não olhava pra ela?

- Olhava, né…ninguém é de ferro…

- Até o pobre Aníbal se aproveitou da Juju…

- Pobre Aníbal!

- Morreu cedo!

- Não merecia isso…

- É, mas se não fosse a morte do Aníbal, a gente não se encontrava…

- Grande Aníbal!

- Pô, Alberto, muito bom te ver…quando será que a gente se encontra novamente?

- Pelo jeito, só no próximo velório…

- Então será logo mais…o tio Alaor já está com 97!

- Aquele safado…

- Deixa disso, Juvenal…quem sabe no velório dele não vem até a sobrinha da Dona Lurdes…

- Grande tio Alaor!


Escrito por Ricardo Polinesio às 12h49
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Lanterninha

Amante do cinema. Era assim que os amigos descreviam o Wanderley. Apreciador fanático da sétima arte, Wandeco, como era conhecido, tinha na memória a sinopse de todos os filmes que já tinha assistido. Mais do que isso, o rapaz sabia exatamente quem eram os atores, os diretores e em que país foi produzida cada obra tanto do cinema hollywoodiano, como do cinema europeu, brasileiro e até do asiático.

Quando entrava em uma sala de cinema, parecia que o rapaz entrava também em uma espécie de transe. Wandeco não desgrudava os olhos da tela, prestava atenção em cada detalhe, se irritava se ouvia alguma conversa paralela, e detestava o barulho das pessoas comendo pipoca. Celular tocando então, era um crime. Dizia-se na cidade, inclusive, que certa vez Wandeco havia chegado às vias de fato com uma mulher que insistia em deixar o aparelho ligado.

Bem apessoado, Wanderley era o sonho das menininhas da cidade. Seus namoricos até que começavam bem, mas nunca engatavam. Bastava a garota tentar uma aproximação durante a primeira sessão de cinema que iam juntos, que Wandeco já soltava os cachorros. Para ele, ir ao cinema significava entrar na sala, acomodar-se na poltrona, apreciar toda aquela magia, prestar atenção em todos os detalhes do filme e claro, aplaudir no final. Abraços, carícias e beijos na boca estavam fora de cogitação. E cada vez que ele percebia um casal mais assanhado dentro da sala, tratava logo de chamar o lanterninha.

Mas apesar de sua paixão cinematográfica estar a todo vapor, Wandeco estava cansado de conquistar as mocinhas da cidade e colocar tudo a perder na primeira vez que iam ao cinema. Tratou então de procurar ajuda profissional e começou uma análise com um psicólogo que dizia ter a solução para os seus problemas.

Algumas sessões depois, Wanderley sentia-se muito mais confiante. Foi liberado pelo doutor para ir ao cinema. Entrou na sala, acomodou-se na poltrona, apreciou toda aquela magia, prestou atenção em todos os detalhes do filme e, claro, aplaudiu no final. Mas dessa vez, Wandeco não se importou com o barulho das pessoas comendo pipoca, não reclamou de conversas paralelas, ignorou o telefone que insistia em tocar e, principalmente, não chamou o lanterninha quando os casais apaixonados começaram a se beijar. Ele parecia estar curado.

O segundo passo do tratamento consistia em levar alguma namoradinha ao cinema. Wandeco cumpriu sua meta com louvor. Até beijo na boca ele deu. De olhos fechados e tudo. Finalmente uma relação do rapaz passava do primeiro estágio. E ele estava animadíssimo com isso. Aos 33 anos, sentia-se como um adolescente.

Empolgado com o namoro que estava indo pra frente, e pelos problemas solucionados, Wandeco passou em uma locadora de vídeo e alugou um filme. Escolheu um que já havia assistido, para não ter erro. Pela primeira vez, ele iria assistir um filme fora do cinema. Mas o rapaz estava feliz. Era também a primeira vez que ele levava a mulher que amava para sua própria casa.

Wadeco deixou tudo preparado. Escolheu um vinho, acendeu as velas, ajeitou as caixas acústicas e até mandou lavar o sofá. Vestiu sua roupa mais bonita, passou perfume e lá foi ele, buscar a sua amada. Chegando em casa, o casal trocou alguns beijos, bebericaram o delicioso vinho escolhido por Wanderley e conversaram um pouco até chegar o momento mais aguardado: a sessão particular de cinema.

Sentaram no sofá juntinhos. Lá pela metade do filme que o rapaz já havia assistido umas 6 ou 7 vezes, Wandeco começou a se engraçar para o lado da namorada.

- Ô amor…até que assistir filme em casa é bom, né…

- Te falei Wanderley, é uma delícia…

- É que no cinema tem aquela magia…

- Isso é verdade…

- Mas aqui também tem…

- Tem mesmo…

- Aqui a gente pode tomar este vinho delicioso, pode ficar juntinho, abraçadinho…

- É…

- Aqui não tem ninguém pra atrapalhar…a gente pode se beijar à vontade, pode se agarrar…

- Calma, Wandeco…

- Aqui a gente pode fazer o que quiser, meu amor…vem pra cá, chega mais perto de mim…

- Olha o filme, Wandeco…

- Eu adoro essa cena…só me dá mais vontade de te agarrar…

- Sossega, meu amor…

- Vem aqui…eu esperei tanto por esse momento…

- Sai pra lá, Wanderley…vou chamar o lanterninha, hein!




Escrito por Ricardo Polinesio às 10h28
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Depois dos 90

Encontraram-se na saída de emergência. Tudo planejado para que nenhum enfermeiro sentisse falta de um dos dois no asilo. Pareciam dois adolescentes apaixonados.

- Eu não sabia que isso era tão bom.

- O que? Você também nunca tinha feito isso antes?

- Nunca.

- E porque?

- Não sei…simplesmente ainda nunca tinha acontecido…e você?

- Eu nunca fui de chamar muito a atenção dos rapazes…

- Mas chamou a minha.

- São seus olhos…

- Você também vai acabar tendo catarata, Edna.

- Acho que 8 graus de miopia já são suficientes.

- Você também não enxerga direito?

- Nem um palmo à minha frente.

- Então foi por isso…

- O que?

- Por isso que você teve coragem de me dar esse beijo…

- Não estou entendendo, Artur.

- O que?

- O que, o que?

- Não entendi o que você falou…

- Surdez?

- Parcial…meu ouvido esquerdo ainda funciona relativamente bem.

- Desculpe.

- Não tem problema, mas fala desse lado aqui.

- Tudo bem…mas continuo sem entender.

- Sem entender o que?

- Qual o problema de eu te dar um beijo?

- É que minha boca…meus dentes…

- O que que tem?

- Ai que tá…não tem…é dentadura!

- Você também usa dentadura?

- Há 13 anos, e você?

- Há 11…mas essa é novinha, troquei faz 6 meses.

- A minha já está amarelada.

- Não se preocupe, eu não consigo notar a diferença…

- Me dá mais um beijo?

- Vamos tentar sem dentaduras?

- Vamos…

- Que mão boba é essa aí, Artur?

- Gozado, pensei que toda mulher tivesse dois seios.

- E tem!

- Mas…

- Precisei tirar há 2 anos…

- Desculpe…

- Não tem problema…já estou recuperada…

- Nossa, Artur, mas que braço gelado…

- É titânio!

- Você não tem um braço?

- Tenho sim…e de titânio, muito mais resistente…

- Nunca tinha visto um assim…

- Gostou?

- Gostei…é tão…duro!

- Pelo menos alguma parte do corpo…

- Não vai me dizer que…

- Pois é…

- Faz tempo?

- Uns 15 anos, no mínimo.

- Tem remédio para isso…

- No meu caso não.

- Não?

- Não.

- Como não? Ouvi falar de um remédio chamado Viagra…

- Isso é para quem ainda tem…

- Você tá querendo dizer que não tem nada ai?

- Nadinha. Nem as bolas…

- Desculpa…deve ser difícil para você…

- Na verdade, foi culpa minha…

- Próstata?

- É…eu dizia que no meu cu, médico nenhum enfia o dedo!

- Dizia?

- Eu estava sedado, não tinha como me defender.

- Ah, se tivesse sido comigo…

- Você nunca teve um orgasmo?

- Nunca.

- Desculpa não poder te ajduar…

- Você ainda tem seus dedos…

- Artrite.

- Me deu um aperto no coração agora, Artur…

- É o amor, eu já tive isso uma vez…

- Não sei…

- Edna, você está bem?

A velha caiu ali mesmo. Quando os enfermeiros chegaram, já não havia mais o que fazer. Paixão depois dos noventa é mesmo um perigo.




Escrito por Ricardo Polinesio às 16h11
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Amor Eterno?

Namoravam há 3 meses. Formavam um casal tão apaixonado, que faria inveja até nos casais mais apaixonados de Hollywood. Pareciam ter sido feitos um para o outro. Mas havia um porém: ele ainda não havia sido apresentado aos pais da sua amada.

Não que tivesse faltado oportunidades, mas a Clarinha morria de medo de apresentar o Eduardo para sua mãe e, principalmente, para o seu pai. Como é que aquele ex-general do exército, que havia sido peça importante do governo durante a ditadura militar iria reagir ao conhecer o genro, um sujeito que apesar de ser um ótimo ser humano, andava para cima e para baixo com roupas rasgadas e cheio de piercings e tatuagens?

- Clarinha, eu te amo tanto…acho que já está na hora de conhecer seus pais!

- Deixa disso, Edu…um dia você acaba conhecendo…

- O problema é que esse dia nunca chega, né…

- Relaxa, meu amor…não se preocupe com isso…

- Você acha que seu pai não vai me aceitar, é isso?

- Larga de bobeira, vai…

- Eu posso tirar esses piercings…

- Nem pense nisso, eu gosto de você assim!

- E sua mãe? Quero saber como é a minha sogra!

- Ela é tranquila…meio antiquada, mas boazinha…

- Já sei, são as tatuagens, né? Eu escondo as tatuagens só para conhecer seus pais!

- Ai, mas que insistência a sua, Edu!

- É que você já conhece meus pais, minha irmã….minha família toda…

- Eu adoro eles, por sinal!

- Tá vendo, também quero ter essa possibilidade…

- No momento certo você vai ter…

- Fala a verdade, Clarinha, você acha que seus pais não vão gostar de mim!

- Edu, pára com isso, vai!

- Isso é importante para mim…

- Importante é a gente estar bem!

- Importante é eu conhecer seus pais…

- Tá bom, Edu, é isso mesmo…não te apresentei para eles ainda, porque eles não vão te aceitar! Eles são muito antiquados!

- Agora que eu faço questão de conhecê-los.

- Não vai dar certo…é melhor não!

- Por favor, Clarinha…pelo nosso amor!

- Sei não…

- Por favor…

- Acho arrisacado, Edu…

- Não vai ter problema nenhum, eu prometo!

- Tá bom…sexta-feira então…você janta em casa?

- Está mais do que combinado…você vai ver, minha sogra vai me adorar!

Jantar marcado, o rapaz ficou empolgadíssimo com aquele evento. Pensou mesmo em tirar todos os piercings do corpo, esconder as tatuagens, mas achou melhor não. Ele deveria se apresentar do jeito que sempre foi.

No grande dia, Edu tomou um banho demorado, colocou sua camiseta menos rasgada, penteou o cabelo e até passou perfume. Naquela noite, ele deveria estar impecável. Nada poderia dar errado. Ele queria impressionar a todos.

O jantar foi uma delícia. Todos comeram muito bem, beberam vinho, conversaram bastante e o Edu até conseguiu lembrar de todas as regras de etiqueta que sua mãe o ensinara na noite anterior por conta deste evento.

O sogro, general aposentado, não foi muito simpático, é verdade. Não gostou das tatuagens e achou um tanto quanto estranho aquele monte de metal pendurado nas orelhas, sombrancelhas, nariz, língua e até no mamilo esquerdo do rapaz, mas do seu jeito, acabou aprovando o relacionamento da filha.

Como o Edu havia previsto, a sogra realmente adorou o novo genro. E adorou tanto que, 3 dias depois daquele jantar, acabou fugindo com o rapaz sem nem mesmo deixar pistas. Deixou o chato de galochas do marido resmungando naquela velha poltrona marrom e o pobre do cachorro sem ter o que comer.

Já a Clarinha, bem, essa aí, depois de chorar por 3 dias e 3 noites sem parar, tentar cortar os pulsos sem sucesso, acabar com todos os chocolates do armário e destruir a academia que ela mesma havia montado em casa, descobriu que mãe gostosa deveria continuar mesmo sendo só coisa de novela.


Escrito por Ricardo Polinesio às 16h48
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Separados no Nascimento

Tá, isso não é um texto. Aliás, está longe de ser.
Mas é foda, eles são muito parecidos.
Um é o João, dono do ZG. O outro é o Riberpeixe.
Só resta mesmo é saber quem é quem.





Escrito por Ricardo Polinesio às 15h26
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O Terror das Empregadas

Sempre foi o terror das empregadas. Desde que entrou na puberdade, Alessandro vivia atormentando as domésticas da sua casa. Não deixava nenhuma passar em branco. Era assobio pra cá, beliscão na bunda pra lá e, invariavelmente, um tabefe na cara como resposta de tais galanteios. Mas isso estava longe de ser um problema para o menino. Alessandro era tarado pelos tabefes bem dados em sua face.

- Alessaaaandro

- Que foi, Natinha?

- O que você vai querer comer no almoço?

- Quero comer você, ué.

- Cataplaft! – Mais um tapa na cara para a coleção do garoto.

Não tinha empregada que aguentasse 2 meses na casa de Alessandro. E não adiantava sua mãe contratar senhoras de idade, desdentadas ou qualquer tipo diferente. Por mais caricata que a doméstica fosse, lá estava ele aprontando das suas.

Em pouco tempo a fama do menino se espalhou pela região. Sua mãe já não conseguia mais contratar ninguém para trabalhar em casa. Foi aí que o “Terror das Empregadas” começou a atacar até no meio da rua. As domésticas já não tinham mais sossego nem na hora de ir à feira.

Alessandro até conseguia levar algumas delas para a cama, é verdade, mas o fato é que o garoto tinha muito mais fama do que conquistas em sua curta carreira de terror das empregadas. Mesmo porque, ele gostava mesmo é de tapa na cara.

- Mas que bundinha, hein!

- Sai pra lá, menino!

- Vai…rebola assim, que eu gosto!

- Vou te dar um tapa, hein, moleque!

- Isso, bate na cara!!

- Cataplaft! – Pode colocar mais um tabefe na conta.

O “Terror das Empregadas” se deliciava com sua fama. Contava para os amigos, mostrava as marcas dos dedos que viviam estampados em sua cara e fazia até um ranking de quantos tabefes já tinha levado de cada doméstica que conhecia.

Cansado da rotina, Alessandro resolveu atacar de uma nova maneira. Diferentemente das outras vezes, quando abordava as domésticas pela frente e em plena luz do dia, decidiu que agora faria um ataque noturno, e pior, pelas costas. Na sua cabeça, se o susto da empregada fosse maior, a violência do tabefe também seria.

O garoto preparou a tocaia. Escondeu-se no beco mais escuro da região, e ficou ali, só preparando o bote. Até que lá pela meia-noite, uma desavisada passou pelo local. E o susto foi tão grande, que a moça teve um infarte fulminante e bateu as botas. Abotoou o paletó de madeira. Partiu dessa para a melhor. Caiu preta e dura no chão. Morreu.

Alessandro não conseguiu o super-tabefe que tanto queria. Mas o apelido de terror das empregadas, agora fazia mais sentido do que nunca.



Escrito por Ricardo Polinesio às 14h38
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Mundo Animal

Amigos há tempos, os dois se encontraram no mesmo bar de sempre. E, entre uma cerveja e outra, entraram em uma conversa um tanto quanto estranha sobre as mulheres que eles conheciam. Ou seria sobre o mundo animal?

- Cara, você lembra da Aninha?

- Qual, aquela que tinha pescoço de girafa?

- Não, sua mula, aquela que trabalhava comigo…

- Ah sim…aquela vaca que me chifrou!

- Te chifrou?? Eu bem que tava te achando com uma cara de touro mesmo…

- Se eu pego aquela égua, eu mato.

- Bom, nesse caso, eu faria o mesmo…mas mudando de assunto…é verdade que você saiu com a Teresa?

- Faça-me o favor, né, seu jumento….aquela lá, é mais gorda que uma porca.

- Você é um animal mesmo…

- Animal? Pô, você sairia com aquela elefoa?

- Eu namoro, cara.

- Verdade…e é com aquela galinha da Janaína, né?

- Que isso, rapaz? Virou rato agora?

- Brincadeira…

- Mas e a Joana?

- Aquilo lá é uma cobra!

- E a Judite?

- Já sentiu o bafo-de-onça dela?

- E a Fernanda?

- Com aquele nariz de tamanduá? Tô fora!

- Marcela?

- Aquela cachorra não quer nada comigo!

- Também, com essa barbicha de bode…

- É estilo!

- Sei…mas e a Mariana?

- Não curto macaca.

- Olha o preconceito…hoje em dia dá cadeia, hein!

- É jeito de dizer…

- Tatiana?

- Tem dente de esquilo.

- Jéssica?

- Parece uma pata quando anda, já reparou?

- E a Flávia?

- Com aquele cérebro de formiga dela?

- Tá certo….agora, da Juliana você não tem o que dizer…

- Tem bigode de foca.

- E a Heloísa?

- É tão corcunda, que mais parece um camelo!

- Andréia?

- Grita mais que uma cabrita, aquela porra!

- Já sei…a Sandrinha!

- Não é ela que tem olho de coruja?

- Escuta cara, tô achando que você é meio veado!

- Que nada rapaz, é que eu só tenho olhos para a Manuela….aquela sim é uma gata!


NOTA DO AUTOR: Como é que pode o gato, um animal escroto, interesseiro, arisco, sacana, imundo, mau caráter, nojento, filhote do demo, neto do cruz credo e bisneto do coisa ruim, ser o único bicho do mundo animal que sirva como um elogio???



Escrito por Ricardo Polinesio às 14h49
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Dia de Feira

Entre a barraca de peixes e a barraca do pastel, lá estava uma senhora, toda toda, de óculos escuros e tudo, se achando a dona do pedaço. Odete se aproximou, assim como quem não quer nada. Ficou um tempão só observando de canto de olho até concluir que, 30 anos depois, lá estavam as duas, frente a frente novamente.

- Você por aqui?

- Desculpa, eu te conheço?

- Eliane, não é?

- Acho que a senhora está me confundindo…

- Confundindo? Eu tenho memória fotográfica, Eliane!

- Meu nome não é Eliane!

- Mas que cara de pau….mudou de nome, é?

- Sai daqui…por favor!!

- Quem diria, hein, Eliane….30 anos depois…

- Eu já falei que não me chamo Eliane!

- Vai, tira esses óculos escuros, que eu quero ver!

- Eu não posso com o Sol.

- Que foi, tá com medo? Tira os óculos…

- Me larga!

- Eu esperei 30 anos por este encontro…

- Isso não é um encontro!

- Você continua com aquele traste?

- Não sei do que você está falando…

- Não se faça de sonsa, Eliane…

- Eliane é a puta que te pariu!

- Aposto que você aprendeu a falar assim com o seu marido…

- Mas eu nem sou casada…

- E essa aliança aí no dedo?

- Sou viúva…

- O Aguinaldo bateu as botas?

- Como é que eu vou saber??? Não sei quem é Aguinaldo….aliás, nem sei quem é você!

- Ora…não me venha com essa, Eliane…tira essa máscara antes que eu arranque…

- Já falei que eu não chamo Eliane!

- Me deixa ver sua identidade!

- Me larga, me larga!

- Só quero ver a foto…

- Vai pra lá!!! Me largaaaa!!!

Odete tinha certeza de que finalmente tinha encontrado Eliane e partiu para a briga com toda sua força. Ela só não sabia que de Eliane, aquela senhora não tinha nada.

Assustada, a mulher não sabia mais o que fazer. Pensou em pegar a peixeira do peixeiro e enfiar na jugular daquela doida varrida. Pensou em jogar Odete contra a frigideira de óleo quente do pasteleiro para desfigurar ainda mais aquela cara feia. Pensou até, vejam só, em aceitar aquela loucura e dizer que realmente era ela a tal Eliane.

Mas de tanto pensar, a mulher acabou caindo do cavalo. Quando a polícia chegou para colocar ordem na baderna em que a feira havia se transformado, ninguém quis saber quem começou a briga. Foi cacetete para tudo quanto é lado e as duas acabaram dentro do mesmo camburão, algemadas, rumo ao hospício mais próximo. E enquanto uma gritava “Meu nome é Teresa! Meu nome é Teresa!”, a outra retrucava “Impostora! Impostora!”.


Escrito por Ricardo Polinesio às 17h53
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Jingle Bell, Jingle Bell, Jingle Bell?

Era a noite de 23 de Dezembro, antevéspera do Natal. Arrumar uma vaga no estacionamento do shopping seria um martírio mesmo para quem tivesse um carro pequeno, ele sabia. Mesmo assim, pegou seu Landau velho, enfrentou o trânsito caótico da cidade e tomou o rumo daquele estabelecimento comercial, que naquela noite em especial, mais parecia um formigueiro.

O espírito de Natal passava bem longe dali. Ao invés de amor, carinho e compreensão, as pessoas distribuiam socos, cotoveladas e empurrões, na tentativa de levar a última boneca da prateleira para a filha ou então o último carrinho da vitrine para o filho.

Desesperado, Adriano percorreu todos aqueles corredores apertados, mas nada de encontrar o boneco azul que andava sozinho, jogava bola, falava e ainda por cima, piscava uma luz muito doida, que o Adrianinho tanto queria. Quer dizer, achar, ele até achou. Mas tentar tomar das mãos daquele homem que mais parecia um gorila, definitivamente não tinha sido uma boa idéia. Aquele olho roxo não o deixava esquecer disso.

Pior que isso foi lembrar-se da cara de desgosto do filho no Natal passado, quando ao abrir a embalagem do presente mais esperado, o menininho se deparou com um presente completamente diferente do que ele havia pedido.

Adriano entrou em parafuso. Não sabia mais o que fazer. Já estava com um olho roxo e, definitivamente, não poderia ver aquela carinha tirste novamente. Ele então começou a andar em círculos e sem rumo, rezando para que o tempo pudesse voltar. Transtornado, quase caiu no chão, quando teve uma visão. Aquele senhor barbudo certamente poderia lhe ajudar.

- Estou desesperado! Não encontro o presente do meu filho. O que o senhor comprou para o seu? Aliás, o senhor tem filhos? Netos? O que tem aí nesta sacola? Deixa eu ver…O boneco! Ele tem que estar aí dentro! Será que é aquele pacote alí? O senhor me parece tão bondoso…me ajudaaaaaa!!!

- Desculpe, mas além de assustar as crianças, o senhor está me machucando…levante-se agora mesmo do meu colo, ou eu chamo o segurança!

Fora de si, Adriano relutou em sair dalí. Esperneando, foi levado pelos seguranças do shopping para uma sala reservada. E o que era apenas um olho roxo, em pouco tempo se transformou em duas costelas fraturadas e um hematoma imenso nas costas.

Ele chegou em casa acabado e sem conseguir comprar o boneco que o filho tanto queria, é verdade. Mas naquele Natal, Adriano podia se orgulhar de saber que seu filho tinha saído na frente dos colegas: aos 5 anos de idade, mesmo que por linhas tortas, o menino já sabia que Papai Noel não passava de uma farsa.


Escrito por Ricardo Polinesio às 18h48
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De Vilão a Herói a Vilão

Ao pisar na sala de aula, Robson não resistiu e corou. Tímido que era, baixou a cabeça e foi procurar uma carteira para sentar-se. Ao perceber que a classe inteira olhava diretamente em sua direção, o menino arrumou uma maneira de se esconder mesmo sem sair do lugar. E foi ali, quase embaixo da mesa, que escutou o professor de História chamando pelo seu nome. Teve vontade de correr, é verdade, mas resistiu bravamente àquele impulso e resolveu responder ao chamado. Seus colegas de classe caíram na gargalhada ao escutar aquela voz fanha saindo de dentro de uma boca camuflada por um aparelho dental de dimensões gigantescas. O professor tentou repreender os alunos, mas nem ele conseguiu resistir e também caiu na gargalhada.

Depois daquela algazarra foi inevitável Robson passar a ser o centro de todas as gozações da sala. Em pouco tempo, sua fama se espalhou por toda escola e o garoto passou a ser o rosto mais conhecido do colégio. Mas tamanha fama, que poderia ser a glória para qualquer menino de 17 anos, obviamente foi um tormento para ele.

Com poucos amigos, Robson se isolava cada vez mais em seu mundo particular. A diretoria e os professores estranhavam aquele comportamento, mas a verdade é que todos sabiam que se tratava de um cavalão de 17 anos e, portanto, se ele quisesse ser assim e continuasse tirando boas notas, para eles estava tudo certo. Afinal, era ótimo para a imagem do colégio um aluno ter a chance de passar no vestibular com tamanha facilidade.

O tempo passou e a turma decidiu por uma viagem ao invés da tradicional festa de formatura. Iriam todos para Porto Seguro, na Bahia. Inclusive Robson, que foi convencido por seus poucos amigos de que aquela seria a chance de mudar a sua imagem. Mas para que isso pudesse acontecer, sua missão não seria nada fácil: Robson precisaria começar a beber, fumar, frequentar a noite e principalmente, conseguir um beijo de Ana. Loira, dona de um par de olhos verdes e um corpo escultural, a menina era, de longe, a mais desejada da classe.

Robson criou coragem e convenceu seus pais a pagarem sua viagem. Ainda no aeroporto, o garoto abriu a primeira cerveja de sua vida. Achou o gosto amargo, mas seus amigos não o deixaram desistir. No avião, foram mais três ou quatro e, chegando em Porto Seguro, ele já estava completamente bêbado. Seu primeiro porre.

Aos poucos o meninocomeçou a se enturmar com os colegas de sala e aceitou o convite para ir à primeira festa da viagem. Festa particular, no quarto 502. Foi lá que Robson acendeu o seu primeiro cigarro. Tossiu feito um cachorro, mas em pouco tempo já estava parecendo um legítimo garoto propaganda de comerciais do produto. Mudado e cheio de novos amigos, o menino não parava de beber. E foi assim que ele finalmente chegou ao seu primeiro vômito provocado pelo excesso de álcool.

Durante a semana foi sempre a mesma coisa. Robson era convidado para as festas, bebia, fumava e vez ou outra vomitava. O garoto estava radiante com sua nova vida, mas mesmo assim sabia que para ser verdadeiramente aceito naquela pequena sociedade, ele ainda não havia feito tudo o que precisava. Beijar na boca continuava sendo um tabu.

Talvez Ana se achasse bonita demais para os garotos do colégio ou então ninguém tivesse tido papo o suficiente para convencê-la do contrário, mas o fato é que a menina continuava sendo apenas um sonho para todos eles.

Cheio de confiança, agora que fazia parte da turma, Robson usou toda a sua inteligência para convencer a menina a dar um gole de seu “capeta”. Maravilhada com o sabor daquela bebida de nome estranho, Ana bebeu tanto que estava completamente fora de si quando finalmente foi convencida por Robson de que para agradecê-lo por apresentá-la às delícias da noite de Porto Seguro, ela deveria dar um beijo em sua boca.

É verdade que no dia seguinte Ana não fazia a menor idéia do que pudesse ter acontecido na noite anterior, mas com uma câmera fotográfica em mãos, Robson tinha as provas de seu feito e, para os meninos, nada mais importava: aquele menino tímido, fanho e da boca de ferro acabava de ser alçado à condição de herói da turma. E quanto à Ana? Bem, depois daquela noite, a menina perdeu o encanto e já não era mais tudo aquilo.


Escrito por Ricardo Polinesio às 16h50
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Abrem-se as cortinas. Começa o espetáculo.

Ao entrar no palco, os dois perceberam que aquela não seria uma apresentação como as outras. Não que houvesse algo estranho no ar, pelo contrário. Na verdade, o problema estava na platéia. Ao invés de casais e turmas de amigos, naquela noite as poltronas do teatro estavam repletas de velhinhas com cara de bonecos de cera. Bonecas, no caso.

Devidamente fantasiados de portugueses e, profissionais que eram, começaram o espetáculo. Foi piada atrás de piada. Diversos quadros. Uns engraçados, outros, nem tanto. Mesmo assim, ao terminar o número, a platéia simplesmente não se moveu. Nem uma palma, nem uma risada. Para não dizer que um silêncio total se instaurou no teatro, os atores só conseguiram escutar alguns cochichos. Certamente críticas das mais pesadas, pensaram os dois.

Foram para trás das cortinas. Um pensando em desistir, pedir desculpas e ir embora. O outro, insistente, tratou de fazer o colega mudar de idéia. Talvez a platéia não gostasse de piadas de portugueses.

Voltaram. Dessa vez, vestidos de judeus. Deram o máximo de si. Mas novamente, a platéia não apresentou nenhuma reação. Apenas uma velhinha, judia, que ficou revoltada com uma piada de mau gosto e foi embora, não sem antes xingar os atores e prometer colocar um processo pesado em cima deles.

Os dois estavam desolados. Já não sabiam mais o que fazer. Ficaram se olhando por um tempo, andando de um lado para o outro. Mas de repente, o silêncio foi interrompido.

- Eu acho que a gente deveria desistir.

- Desistir porque, esta temporada está sendo um sucesso!

- Sucesso? Você chama isso de sucesso? Olha só para esta platéia…ninguém se mexe…ninguém deu pelo menos uma risadinha de canto de boca…

- Mas ontem o negócio diferente…

- Ontem, ontem…você vive do passado! Sabe o que é…acho que deveríamos mudar o nome do espetáculo, isso sim!

- Mudar o nome? Você só pode estar de brincadeira!

- Brincadeira ou não, o fato é que nosso espetáculo está uma tragédia!

- Tragédia?

- Sim, tragédia…nehuma risada, nenhuma palma…uma verdadeira tragédia!

- Não estou gostando do rumo dessa conversa…

- Não é questão de gostar ou não….eu não aguento mais…não nasci para o fracasso…

- Não diga isso nem por brincadeira!

- Digo sim….e quer saber? Está decidido…vou me retirar dos palcos para sempre!

Cabisbaixo, o ator caminhou em direção às cortinas. O colega ficou ali parado, sem saber o que fazer. Sentou-se em um banquinho e ficou admirando aquela platéia, que mesmo depois daquela grande discussão, continuava imóvel.

Ao observar seu ex-companheiro de palco já de banho tomado e mala na mão descendo do palco, não aguentou e deixou escorrer uma lágrima. A platéia foi ao delírio. As velhinhas agora aplaudiam entusiasmadas. As mais fortes até ficaram de pé. Não há velhinha que resista a um bom drama.



ESTE TEXTO FOI LIGEIRAMENTE ALTERADO PARA MELHOR ATENDÊ-LOS. SERVIMOS BEM, PARA SERVIR SEMPRE.

Escrito por Ricardo Polinesio às 14h28
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Os Medos de Ulisses

Medo de alguma coisa, todo mundo tem. Mas com ele, era diferente. O pequeno Ulisses tinha medo até de formiga. Era só ver um pontinho preto se mexendo no chão, que o menino já corria para a saia da mãe. E se esse pontinho fosse um pontão, então a família já podia preparar o ouvido, porque o berreiro de Ulisses estava garantido.

Com o passar do tempo, claro, o garoto cresceu. Mas o medo não diminuiu. Pelo contrário, só aumentou. No colégio ele era zuado pelos amiguinhos, entre outras coisas, porque tinha medo de sentar no fundo da sala ou porque morria de medo de ficar em último na fila da cantina. Coisas de criança, pensava o pai. Quando ele crescer, todo esse medo passa, dizia a mãe. Isso é coisa do Demo, gritava a avó.

O negócio ainda piorou para Ulisses quando ele adquiriu o costume de mijar nas calças em situações de pavor. Foi aí que, aos 15 anos de idade, o menino passou a usar fraldas. E para quem já era o centro das gozações no colégio, aquilo foi a gota d’água.

Somente ao abandonar a escola para ter aulas com um professor particular, em casa, é que ele pôde finalmente dar atenção aos estudos. E foi aí que Ulisses aprendeu a história de outro Ulisses, um dos mais ardilosos guerreiros de toda a epopéia grega em Tróia.

Mas aquilo que poderia dar forças para o garoto superar todos os seus medos, fez efeito contrário naquela cabeça assustada e Ulisses passou a ter medo inclusive de sair de casa. Ele acreditava, vejam só, que seus inimigos históricos fictícios estariam armando uma tocaia para matá-lo.

Os pais já não sabiam o que fazer quando, aos 20 anos de idade, o problemático garoto já não saia mais de casa. Foi convencido de que ninguém estava planejando a sua morte, é verdade, mas o problema agora era outro. Ulisses tinha medo de carros, cachorros, pessoas e até árvores.

Ulisses passou a viver isolado dentro de seu próprio quarto. Aquele era o seu mundo particular. Visitas, só do psicólogo. No começo, o garoto até assistia televisão, alugava DVDs pelo telefone e abria a porta do quarto para receber comida, mas com o passar do tempo, passou a ter medo de ligar a TV, de falar com estranhos e até de abrir a porta. Comida agora, só por baixo da porta.

Àquela altura do campeonato, ninguém mais aguentava aquilo. A mãe estava cansada de fazer tudo pelo filho, a avó, cansada de rezar pela melhora do neto e o pai, cansado de gastar os tubos com psicólogos incompetentes. Nem o próprio Ulisses aguentava mais.

Foi aí que um dia, num surto de ousadia, Ulisses levantou da cama, abriu a porta do quarto e foi até o armário de seu pai. Lá encontrou uma pistola automática e, com medo de ser descoberto, voltou correndo para o seu quarto. Ulisses tinha percebido que na verdade, o que ele tinha mais medo, era de viver. O garoto então não teve dúvidas: juntou toda a coragem que estava escondida em algum lugar do seu corpo e deu fim àquela vida maldita.

Ao escutar tamanho estrondo vindo do quarto do filho, a mãe prontamente se pôs a chorar. A avó, mesmo sabendo que aquele sofrimento havia acabado, também chorou. Já o pai, apenas pensou secretamente que finalmente teria dinheiro para que o projeto de seu escritório em casa pudesse sair do papel.

Escrito por Ricardo Polinesio às 17h18
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Trio de Ferro

Desde pequena, Roseli sempre chamou atenção no bairro. Ainda com 10 anos, já ouvia os primeiros assobios de pedreiros mais assanhados. E ao passo que a menina crescia, a quantidade de assobios também aumentava. Bagunceira como poucas, a menina conseguiu ser reprovada na quinta e na sexta séries. Mas o que parecia ser o início de um tormento na vida da garota arteira, foi na verdade, a melhor obra de seu destino.

Quando foi cursar a sexta série pela segunda vez, Roseli caiu na classe dos amigos Bruno e Bernardo. A princípio, a amizade não engatou. Roseli achava os dois palhaços da sala, duas crianças. Já os dois, achavam aquela menina com corpo de mulher, muita areia para os seus caminhõezinhos.

A amizade só nasceu pra valer naquela aula de Biologia, quando a professora decidiu passar um trabalho em grupo para a sala. Excluídos pelo resto da turma, os três foram obrigados a formar um grupo. Não é preciso dizer que o trabalho, claro, foi um fracasso total. Mas isso não importava: naquela aula nascia uma grande amizade.

Os três eram amigos daqueles inseparáveis. A menina, linda. Já os dois meninos, podemos dizer que a mãe natureza não foi tão simpática com eles. O trio andava junto para cima e para baixo. Como se dizia na época, a amizade deles era como unha e carne. E cutícula.

Mas o tempo passou e os meninos viraram homens. A menina, que já tinha corpo de mulher, virou ainda mais mulher. Os hormônios começavam a ferver em seus corpos. Roseli não queria mais apenas uma simples amizade. Bruno e Bernardo, tampouco.

O primeiro a se deitar com Roseli foi o Bruno. Mas na noite seguinte, assanhada que era, Roseli resolveu se deitar também com Bernardo. E ela conseguiu, em apenas duas noites, não só iniciar a vida sexual dos dois rapazes, como também deixar ambos completamente apaixonados.

Temendo o final daquela tripla amizade, Roseli pediu que os dois jurassem segredo. Deveriam fingir, os três, que aquelas noites jamais haviam acontecido.

Nos primeiros meses, tudo correu bem. Claro que os dois estavam secretamente apaixonados, mas a promessa feita para Roseli era sagrada e a amizade continuava dura feito rocha.

Quando Roseli apareceu grávida naquela tarde de domingo, tanto Bruno quanto Bernardo ficaram em estado de choque. E a surpresa só não foi maior quando, além de não revelar para os amigos quem era o pai da criança, a menina pediu para que, durante a gravidez, os dois não a procurassem mais. Ambos relutaram, mas acabaram aceitando aquele estranho pedido de sua amada. Mas intimamente, Bruno tinha certeza de que em poucos meses, ele seria pai. E com Bernardo, claro, não era diferente.

Essa história toda fez ruir aquela amizade que até então, parecia inabalável. Além de se afastar de Roseli, aos poucos, Bruno e Bernardo também deixaram de se encontrar.

Mas o destino dos três já estava traçado e quando Roseli deu a luz, Bruno foi até a maternidade visitar aquele que ele acreditava ser seu filho. Lá chegando, deu de cara com Bernardo, babando em frente à vitrine de bebês rescém-nascidos, esperando a enfermeira mostrar aquele que ele acreditava ser seu filho.

Os dois entenderam o que estava se passando naquela maternidade e, imediatamente, se atracaram numa briga violenta que só foi separada quando a enfermeira finalmente chegou com o bebê. E para o espanto geral dos que estavam ali presente e, principalmente, dos dois rapazes briguentos, não restava mais dúvidas sobre quem era o pai: misteriosamente, a criança era a cara de um e o focinho do outro.


Escrito por Ricardo Polinesio às 12h25
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