Jingle Bell, Jingle Bell, Jingle Bell?
Era a noite de 23 de Dezembro, antevéspera do Natal. Arrumar uma vaga no estacionamento do shopping seria um martírio mesmo para quem tivesse um carro pequeno, ele sabia. Mesmo assim, pegou seu Landau velho, enfrentou o trânsito caótico da cidade e tomou o rumo daquele estabelecimento comercial, que naquela noite em especial, mais parecia um formigueiro.
O espírito de Natal passava bem longe dali. Ao invés de amor, carinho e compreensão, as pessoas distribuiam socos, cotoveladas e empurrões, na tentativa de levar a última boneca da prateleira para a filha ou então o último carrinho da vitrine para o filho.
Desesperado, Adriano percorreu todos aqueles corredores apertados, mas nada de encontrar o boneco azul que andava sozinho, jogava bola, falava e ainda por cima, piscava uma luz muito doida, que o Adrianinho tanto queria. Quer dizer, achar, ele até achou. Mas tentar tomar das mãos daquele homem que mais parecia um gorila, definitivamente não tinha sido uma boa idéia. Aquele olho roxo não o deixava esquecer disso.
Pior que isso foi lembrar-se da cara de desgosto do filho no Natal passado, quando ao abrir a embalagem do presente mais esperado, o menininho se deparou com um presente completamente diferente do que ele havia pedido.
Adriano entrou em parafuso. Não sabia mais o que fazer. Já estava com um olho roxo e, definitivamente, não poderia ver aquela carinha tirste novamente. Ele então começou a andar em círculos e sem rumo, rezando para que o tempo pudesse voltar. Transtornado, quase caiu no chão, quando teve uma visão. Aquele senhor barbudo certamente poderia lhe ajudar.
- Estou desesperado! Não encontro o presente do meu filho. O que o senhor comprou para o seu? Aliás, o senhor tem filhos? Netos? O que tem aí nesta sacola? Deixa eu ver…O boneco! Ele tem que estar aí dentro! Será que é aquele pacote alí? O senhor me parece tão bondoso…me ajudaaaaaa!!!
- Desculpe, mas além de assustar as crianças, o senhor está me machucando…levante-se agora mesmo do meu colo, ou eu chamo o segurança!
Fora de si, Adriano relutou em sair dalí. Esperneando, foi levado pelos seguranças do shopping para uma sala reservada. E o que era apenas um olho roxo, em pouco tempo se transformou em duas costelas fraturadas e um hematoma imenso nas costas.
Ele chegou em casa acabado e sem conseguir comprar o boneco que o filho tanto queria, é verdade. Mas naquele Natal, Adriano podia se orgulhar de saber que seu filho tinha saído na frente dos colegas: aos 5 anos de idade, mesmo que por linhas tortas, o menino já sabia que Papai Noel não passava de uma farsa.
Escrito por Ricardo Polinesio às 18h48
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De Vilão a Herói a Vilão
Ao pisar na sala de aula, Robson não resistiu e corou. Tímido que era, baixou a cabeça e foi procurar uma carteira para sentar-se. Ao perceber que a classe inteira olhava diretamente em sua direção, o menino arrumou uma maneira de se esconder mesmo sem sair do lugar. E foi ali, quase embaixo da mesa, que escutou o professor de História chamando pelo seu nome. Teve vontade de correr, é verdade, mas resistiu bravamente àquele impulso e resolveu responder ao chamado. Seus colegas de classe caíram na gargalhada ao escutar aquela voz fanha saindo de dentro de uma boca camuflada por um aparelho dental de dimensões gigantescas. O professor tentou repreender os alunos, mas nem ele conseguiu resistir e também caiu na gargalhada.
Depois daquela algazarra foi inevitável Robson passar a ser o centro de todas as gozações da sala. Em pouco tempo, sua fama se espalhou por toda escola e o garoto passou a ser o rosto mais conhecido do colégio. Mas tamanha fama, que poderia ser a glória para qualquer menino de 17 anos, obviamente foi um tormento para ele.
Com poucos amigos, Robson se isolava cada vez mais em seu mundo particular. A diretoria e os professores estranhavam aquele comportamento, mas a verdade é que todos sabiam que se tratava de um cavalão de 17 anos e, portanto, se ele quisesse ser assim e continuasse tirando boas notas, para eles estava tudo certo. Afinal, era ótimo para a imagem do colégio um aluno ter a chance de passar no vestibular com tamanha facilidade.
O tempo passou e a turma decidiu por uma viagem ao invés da tradicional festa de formatura. Iriam todos para Porto Seguro, na Bahia. Inclusive Robson, que foi convencido por seus poucos amigos de que aquela seria a chance de mudar a sua imagem. Mas para que isso pudesse acontecer, sua missão não seria nada fácil: Robson precisaria começar a beber, fumar, frequentar a noite e principalmente, conseguir um beijo de Ana. Loira, dona de um par de olhos verdes e um corpo escultural, a menina era, de longe, a mais desejada da classe.
Robson criou coragem e convenceu seus pais a pagarem sua viagem. Ainda no aeroporto, o garoto abriu a primeira cerveja de sua vida. Achou o gosto amargo, mas seus amigos não o deixaram desistir. No avião, foram mais três ou quatro e, chegando em Porto Seguro, ele já estava completamente bêbado. Seu primeiro porre.
Aos poucos o meninocomeçou a se enturmar com os colegas de sala e aceitou o convite para ir à primeira festa da viagem. Festa particular, no quarto 502. Foi lá que Robson acendeu o seu primeiro cigarro. Tossiu feito um cachorro, mas em pouco tempo já estava parecendo um legítimo garoto propaganda de comerciais do produto. Mudado e cheio de novos amigos, o menino não parava de beber. E foi assim que ele finalmente chegou ao seu primeiro vômito provocado pelo excesso de álcool.
Durante a semana foi sempre a mesma coisa. Robson era convidado para as festas, bebia, fumava e vez ou outra vomitava. O garoto estava radiante com sua nova vida, mas mesmo assim sabia que para ser verdadeiramente aceito naquela pequena sociedade, ele ainda não havia feito tudo o que precisava. Beijar na boca continuava sendo um tabu.
Talvez Ana se achasse bonita demais para os garotos do colégio ou então ninguém tivesse tido papo o suficiente para convencê-la do contrário, mas o fato é que a menina continuava sendo apenas um sonho para todos eles.
Cheio de confiança, agora que fazia parte da turma, Robson usou toda a sua inteligência para convencer a menina a dar um gole de seu “capeta”. Maravilhada com o sabor daquela bebida de nome estranho, Ana bebeu tanto que estava completamente fora de si quando finalmente foi convencida por Robson de que para agradecê-lo por apresentá-la às delícias da noite de Porto Seguro, ela deveria dar um beijo em sua boca.
É verdade que no dia seguinte Ana não fazia a menor idéia do que pudesse ter acontecido na noite anterior, mas com uma câmera fotográfica em mãos, Robson tinha as provas de seu feito e, para os meninos, nada mais importava: aquele menino tímido, fanho e da boca de ferro acabava de ser alçado à condição de herói da turma. E quanto à Ana? Bem, depois daquela noite, a menina perdeu o encanto e já não era mais tudo aquilo.
Escrito por Ricardo Polinesio às 16h50
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Abrem-se as cortinas. Começa o espetáculo.
Ao entrar no palco, os dois perceberam que aquela não seria uma apresentação como as outras. Não que houvesse algo estranho no ar, pelo contrário. Na verdade, o problema estava na platéia. Ao invés de casais e turmas de amigos, naquela noite as poltronas do teatro estavam repletas de velhinhas com cara de bonecos de cera. Bonecas, no caso.
Devidamente fantasiados de portugueses e, profissionais que eram, começaram o espetáculo. Foi piada atrás de piada. Diversos quadros. Uns engraçados, outros, nem tanto. Mesmo assim, ao terminar o número, a platéia simplesmente não se moveu. Nem uma palma, nem uma risada. Para não dizer que um silêncio total se instaurou no teatro, os atores só conseguiram escutar alguns cochichos. Certamente críticas das mais pesadas, pensaram os dois.
Foram para trás das cortinas. Um pensando em desistir, pedir desculpas e ir embora. O outro, insistente, tratou de fazer o colega mudar de idéia. Talvez a platéia não gostasse de piadas de portugueses.
Voltaram. Dessa vez, vestidos de judeus. Deram o máximo de si. Mas novamente, a platéia não apresentou nenhuma reação. Apenas uma velhinha, judia, que ficou revoltada com uma piada de mau gosto e foi embora, não sem antes xingar os atores e prometer colocar um processo pesado em cima deles.
Os dois estavam desolados. Já não sabiam mais o que fazer. Ficaram se olhando por um tempo, andando de um lado para o outro. Mas de repente, o silêncio foi interrompido.
- Eu acho que a gente deveria desistir.
- Desistir porque, esta temporada está sendo um sucesso!
- Sucesso? Você chama isso de sucesso? Olha só para esta platéia…ninguém se mexe…ninguém deu pelo menos uma risadinha de canto de boca…
- Mas ontem o negócio diferente…
- Ontem, ontem…você vive do passado! Sabe o que é…acho que deveríamos mudar o nome do espetáculo, isso sim!
- Mudar o nome? Você só pode estar de brincadeira!
- Brincadeira ou não, o fato é que nosso espetáculo está uma tragédia!
- Tragédia?
- Sim, tragédia…nehuma risada, nenhuma palma…uma verdadeira tragédia!
- Não estou gostando do rumo dessa conversa…
- Não é questão de gostar ou não….eu não aguento mais…não nasci para o fracasso…
- Não diga isso nem por brincadeira!
- Digo sim….e quer saber? Está decidido…vou me retirar dos palcos para sempre!
Cabisbaixo, o ator caminhou em direção às cortinas. O colega ficou ali parado, sem saber o que fazer. Sentou-se em um banquinho e ficou admirando aquela platéia, que mesmo depois daquela grande discussão, continuava imóvel.
Ao observar seu ex-companheiro de palco já de banho tomado e mala na mão descendo do palco, não aguentou e deixou escorrer uma lágrima. A platéia foi ao delírio. As velhinhas agora aplaudiam entusiasmadas. As mais fortes até ficaram de pé. Não há velhinha que resista a um bom drama.
ESTE TEXTO FOI LIGEIRAMENTE ALTERADO PARA MELHOR ATENDÊ-LOS. SERVIMOS BEM, PARA SERVIR SEMPRE.
Escrito por Ricardo Polinesio às 14h28
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Os Medos de Ulisses
Medo de alguma coisa, todo mundo tem. Mas com ele, era diferente. O pequeno Ulisses tinha medo até de formiga. Era só ver um pontinho preto se mexendo no chão, que o menino já corria para a saia da mãe. E se esse pontinho fosse um pontão, então a família já podia preparar o ouvido, porque o berreiro de Ulisses estava garantido.
Com o passar do tempo, claro, o garoto cresceu. Mas o medo não diminuiu. Pelo contrário, só aumentou. No colégio ele era zuado pelos amiguinhos, entre outras coisas, porque tinha medo de sentar no fundo da sala ou porque morria de medo de ficar em último na fila da cantina. Coisas de criança, pensava o pai. Quando ele crescer, todo esse medo passa, dizia a mãe. Isso é coisa do Demo, gritava a avó.
O negócio ainda piorou para Ulisses quando ele adquiriu o costume de mijar nas calças em situações de pavor. Foi aí que, aos 15 anos de idade, o menino passou a usar fraldas. E para quem já era o centro das gozações no colégio, aquilo foi a gota d’água.
Somente ao abandonar a escola para ter aulas com um professor particular, em casa, é que ele pôde finalmente dar atenção aos estudos. E foi aí que Ulisses aprendeu a história de outro Ulisses, um dos mais ardilosos guerreiros de toda a epopéia grega em Tróia.
Mas aquilo que poderia dar forças para o garoto superar todos os seus medos, fez efeito contrário naquela cabeça assustada e Ulisses passou a ter medo inclusive de sair de casa. Ele acreditava, vejam só, que seus inimigos históricos fictícios estariam armando uma tocaia para matá-lo.
Os pais já não sabiam o que fazer quando, aos 20 anos de idade, o problemático garoto já não saia mais de casa. Foi convencido de que ninguém estava planejando a sua morte, é verdade, mas o problema agora era outro. Ulisses tinha medo de carros, cachorros, pessoas e até árvores.
Ulisses passou a viver isolado dentro de seu próprio quarto. Aquele era o seu mundo particular. Visitas, só do psicólogo. No começo, o garoto até assistia televisão, alugava DVDs pelo telefone e abria a porta do quarto para receber comida, mas com o passar do tempo, passou a ter medo de ligar a TV, de falar com estranhos e até de abrir a porta. Comida agora, só por baixo da porta.
Àquela altura do campeonato, ninguém mais aguentava aquilo. A mãe estava cansada de fazer tudo pelo filho, a avó, cansada de rezar pela melhora do neto e o pai, cansado de gastar os tubos com psicólogos incompetentes. Nem o próprio Ulisses aguentava mais.
Foi aí que um dia, num surto de ousadia, Ulisses levantou da cama, abriu a porta do quarto e foi até o armário de seu pai. Lá encontrou uma pistola automática e, com medo de ser descoberto, voltou correndo para o seu quarto. Ulisses tinha percebido que na verdade, o que ele tinha mais medo, era de viver. O garoto então não teve dúvidas: juntou toda a coragem que estava escondida em algum lugar do seu corpo e deu fim àquela vida maldita.
Ao escutar tamanho estrondo vindo do quarto do filho, a mãe prontamente se pôs a chorar. A avó, mesmo sabendo que aquele sofrimento havia acabado, também chorou. Já o pai, apenas pensou secretamente que finalmente teria dinheiro para que o projeto de seu escritório em casa pudesse sair do papel.
Escrito por Ricardo Polinesio às 17h18
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Trio de Ferro
Desde pequena, Roseli sempre chamou atenção no bairro. Ainda com 10 anos, já ouvia os primeiros assobios de pedreiros mais assanhados. E ao passo que a menina crescia, a quantidade de assobios também aumentava. Bagunceira como poucas, a menina conseguiu ser reprovada na quinta e na sexta séries. Mas o que parecia ser o início de um tormento na vida da garota arteira, foi na verdade, a melhor obra de seu destino.
Quando foi cursar a sexta série pela segunda vez, Roseli caiu na classe dos amigos Bruno e Bernardo. A princípio, a amizade não engatou. Roseli achava os dois palhaços da sala, duas crianças. Já os dois, achavam aquela menina com corpo de mulher, muita areia para os seus caminhõezinhos.
A amizade só nasceu pra valer naquela aula de Biologia, quando a professora decidiu passar um trabalho em grupo para a sala. Excluídos pelo resto da turma, os três foram obrigados a formar um grupo. Não é preciso dizer que o trabalho, claro, foi um fracasso total. Mas isso não importava: naquela aula nascia uma grande amizade.
Os três eram amigos daqueles inseparáveis. A menina, linda. Já os dois meninos, podemos dizer que a mãe natureza não foi tão simpática com eles. O trio andava junto para cima e para baixo. Como se dizia na época, a amizade deles era como unha e carne. E cutícula.
Mas o tempo passou e os meninos viraram homens. A menina, que já tinha corpo de mulher, virou ainda mais mulher. Os hormônios começavam a ferver em seus corpos. Roseli não queria mais apenas uma simples amizade. Bruno e Bernardo, tampouco.
O primeiro a se deitar com Roseli foi o Bruno. Mas na noite seguinte, assanhada que era, Roseli resolveu se deitar também com Bernardo. E ela conseguiu, em apenas duas noites, não só iniciar a vida sexual dos dois rapazes, como também deixar ambos completamente apaixonados.
Temendo o final daquela tripla amizade, Roseli pediu que os dois jurassem segredo. Deveriam fingir, os três, que aquelas noites jamais haviam acontecido.
Nos primeiros meses, tudo correu bem. Claro que os dois estavam secretamente apaixonados, mas a promessa feita para Roseli era sagrada e a amizade continuava dura feito rocha.
Quando Roseli apareceu grávida naquela tarde de domingo, tanto Bruno quanto Bernardo ficaram em estado de choque. E a surpresa só não foi maior quando, além de não revelar para os amigos quem era o pai da criança, a menina pediu para que, durante a gravidez, os dois não a procurassem mais. Ambos relutaram, mas acabaram aceitando aquele estranho pedido de sua amada. Mas intimamente, Bruno tinha certeza de que em poucos meses, ele seria pai. E com Bernardo, claro, não era diferente.
Essa história toda fez ruir aquela amizade que até então, parecia inabalável. Além de se afastar de Roseli, aos poucos, Bruno e Bernardo também deixaram de se encontrar.
Mas o destino dos três já estava traçado e quando Roseli deu a luz, Bruno foi até a maternidade visitar aquele que ele acreditava ser seu filho. Lá chegando, deu de cara com Bernardo, babando em frente à vitrine de bebês rescém-nascidos, esperando a enfermeira mostrar aquele que ele acreditava ser seu filho.
Os dois entenderam o que estava se passando naquela maternidade e, imediatamente, se atracaram numa briga violenta que só foi separada quando a enfermeira finalmente chegou com o bebê. E para o espanto geral dos que estavam ali presente e, principalmente, dos dois rapazes briguentos, não restava mais dúvidas sobre quem era o pai: misteriosamente, a criança era a cara de um e o focinho do outro.
Escrito por Ricardo Polinesio às 12h25
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