Lê isso aí, ô! - Ricardo Polinesio


Lanterninha

Amante do cinema. Era assim que os amigos descreviam o Wanderley. Apreciador fanático da sétima arte, Wandeco, como era conhecido, tinha na memória a sinopse de todos os filmes que já tinha assistido. Mais do que isso, o rapaz sabia exatamente quem eram os atores, os diretores e em que país foi produzida cada obra tanto do cinema hollywoodiano, como do cinema europeu, brasileiro e até do asiático.

Quando entrava em uma sala de cinema, parecia que o rapaz entrava também em uma espécie de transe. Wandeco não desgrudava os olhos da tela, prestava atenção em cada detalhe, se irritava se ouvia alguma conversa paralela, e detestava o barulho das pessoas comendo pipoca. Celular tocando então, era um crime. Dizia-se na cidade, inclusive, que certa vez Wandeco havia chegado às vias de fato com uma mulher que insistia em deixar o aparelho ligado.

Bem apessoado, Wanderley era o sonho das menininhas da cidade. Seus namoricos até que começavam bem, mas nunca engatavam. Bastava a garota tentar uma aproximação durante a primeira sessão de cinema que iam juntos, que Wandeco já soltava os cachorros. Para ele, ir ao cinema significava entrar na sala, acomodar-se na poltrona, apreciar toda aquela magia, prestar atenção em todos os detalhes do filme e claro, aplaudir no final. Abraços, carícias e beijos na boca estavam fora de cogitação. E cada vez que ele percebia um casal mais assanhado dentro da sala, tratava logo de chamar o lanterninha.

Mas apesar de sua paixão cinematográfica estar a todo vapor, Wandeco estava cansado de conquistar as mocinhas da cidade e colocar tudo a perder na primeira vez que iam ao cinema. Tratou então de procurar ajuda profissional e começou uma análise com um psicólogo que dizia ter a solução para os seus problemas.

Algumas sessões depois, Wanderley sentia-se muito mais confiante. Foi liberado pelo doutor para ir ao cinema. Entrou na sala, acomodou-se na poltrona, apreciou toda aquela magia, prestou atenção em todos os detalhes do filme e, claro, aplaudiu no final. Mas dessa vez, Wandeco não se importou com o barulho das pessoas comendo pipoca, não reclamou de conversas paralelas, ignorou o telefone que insistia em tocar e, principalmente, não chamou o lanterninha quando os casais apaixonados começaram a se beijar. Ele parecia estar curado.

O segundo passo do tratamento consistia em levar alguma namoradinha ao cinema. Wandeco cumpriu sua meta com louvor. Até beijo na boca ele deu. De olhos fechados e tudo. Finalmente uma relação do rapaz passava do primeiro estágio. E ele estava animadíssimo com isso. Aos 33 anos, sentia-se como um adolescente.

Empolgado com o namoro que estava indo pra frente, e pelos problemas solucionados, Wandeco passou em uma locadora de vídeo e alugou um filme. Escolheu um que já havia assistido, para não ter erro. Pela primeira vez, ele iria assistir um filme fora do cinema. Mas o rapaz estava feliz. Era também a primeira vez que ele levava a mulher que amava para sua própria casa.

Wadeco deixou tudo preparado. Escolheu um vinho, acendeu as velas, ajeitou as caixas acústicas e até mandou lavar o sofá. Vestiu sua roupa mais bonita, passou perfume e lá foi ele, buscar a sua amada. Chegando em casa, o casal trocou alguns beijos, bebericaram o delicioso vinho escolhido por Wanderley e conversaram um pouco até chegar o momento mais aguardado: a sessão particular de cinema.

Sentaram no sofá juntinhos. Lá pela metade do filme que o rapaz já havia assistido umas 6 ou 7 vezes, Wandeco começou a se engraçar para o lado da namorada.

- Ô amor…até que assistir filme em casa é bom, né…

- Te falei Wanderley, é uma delícia…

- É que no cinema tem aquela magia…

- Isso é verdade…

- Mas aqui também tem…

- Tem mesmo…

- Aqui a gente pode tomar este vinho delicioso, pode ficar juntinho, abraçadinho…

- É…

- Aqui não tem ninguém pra atrapalhar…a gente pode se beijar à vontade, pode se agarrar…

- Calma, Wandeco…

- Aqui a gente pode fazer o que quiser, meu amor…vem pra cá, chega mais perto de mim…

- Olha o filme, Wandeco…

- Eu adoro essa cena…só me dá mais vontade de te agarrar…

- Sossega, meu amor…

- Vem aqui…eu esperei tanto por esse momento…

- Sai pra lá, Wanderley…vou chamar o lanterninha, hein!




Escrito por Ricardo Polinesio às 10h28
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Depois dos 90

Encontraram-se na saída de emergência. Tudo planejado para que nenhum enfermeiro sentisse falta de um dos dois no asilo. Pareciam dois adolescentes apaixonados.

- Eu não sabia que isso era tão bom.

- O que? Você também nunca tinha feito isso antes?

- Nunca.

- E porque?

- Não sei…simplesmente ainda nunca tinha acontecido…e você?

- Eu nunca fui de chamar muito a atenção dos rapazes…

- Mas chamou a minha.

- São seus olhos…

- Você também vai acabar tendo catarata, Edna.

- Acho que 8 graus de miopia já são suficientes.

- Você também não enxerga direito?

- Nem um palmo à minha frente.

- Então foi por isso…

- O que?

- Por isso que você teve coragem de me dar esse beijo…

- Não estou entendendo, Artur.

- O que?

- O que, o que?

- Não entendi o que você falou…

- Surdez?

- Parcial…meu ouvido esquerdo ainda funciona relativamente bem.

- Desculpe.

- Não tem problema, mas fala desse lado aqui.

- Tudo bem…mas continuo sem entender.

- Sem entender o que?

- Qual o problema de eu te dar um beijo?

- É que minha boca…meus dentes…

- O que que tem?

- Ai que tá…não tem…é dentadura!

- Você também usa dentadura?

- Há 13 anos, e você?

- Há 11…mas essa é novinha, troquei faz 6 meses.

- A minha já está amarelada.

- Não se preocupe, eu não consigo notar a diferença…

- Me dá mais um beijo?

- Vamos tentar sem dentaduras?

- Vamos…

- Que mão boba é essa aí, Artur?

- Gozado, pensei que toda mulher tivesse dois seios.

- E tem!

- Mas…

- Precisei tirar há 2 anos…

- Desculpe…

- Não tem problema…já estou recuperada…

- Nossa, Artur, mas que braço gelado…

- É titânio!

- Você não tem um braço?

- Tenho sim…e de titânio, muito mais resistente…

- Nunca tinha visto um assim…

- Gostou?

- Gostei…é tão…duro!

- Pelo menos alguma parte do corpo…

- Não vai me dizer que…

- Pois é…

- Faz tempo?

- Uns 15 anos, no mínimo.

- Tem remédio para isso…

- No meu caso não.

- Não?

- Não.

- Como não? Ouvi falar de um remédio chamado Viagra…

- Isso é para quem ainda tem…

- Você tá querendo dizer que não tem nada ai?

- Nadinha. Nem as bolas…

- Desculpa…deve ser difícil para você…

- Na verdade, foi culpa minha…

- Próstata?

- É…eu dizia que no meu cu, médico nenhum enfia o dedo!

- Dizia?

- Eu estava sedado, não tinha como me defender.

- Ah, se tivesse sido comigo…

- Você nunca teve um orgasmo?

- Nunca.

- Desculpa não poder te ajduar…

- Você ainda tem seus dedos…

- Artrite.

- Me deu um aperto no coração agora, Artur…

- É o amor, eu já tive isso uma vez…

- Não sei…

- Edna, você está bem?

A velha caiu ali mesmo. Quando os enfermeiros chegaram, já não havia mais o que fazer. Paixão depois dos noventa é mesmo um perigo.




Escrito por Ricardo Polinesio às 16h11
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Amor Eterno?

Namoravam há 3 meses. Formavam um casal tão apaixonado, que faria inveja até nos casais mais apaixonados de Hollywood. Pareciam ter sido feitos um para o outro. Mas havia um porém: ele ainda não havia sido apresentado aos pais da sua amada.

Não que tivesse faltado oportunidades, mas a Clarinha morria de medo de apresentar o Eduardo para sua mãe e, principalmente, para o seu pai. Como é que aquele ex-general do exército, que havia sido peça importante do governo durante a ditadura militar iria reagir ao conhecer o genro, um sujeito que apesar de ser um ótimo ser humano, andava para cima e para baixo com roupas rasgadas e cheio de piercings e tatuagens?

- Clarinha, eu te amo tanto…acho que já está na hora de conhecer seus pais!

- Deixa disso, Edu…um dia você acaba conhecendo…

- O problema é que esse dia nunca chega, né…

- Relaxa, meu amor…não se preocupe com isso…

- Você acha que seu pai não vai me aceitar, é isso?

- Larga de bobeira, vai…

- Eu posso tirar esses piercings…

- Nem pense nisso, eu gosto de você assim!

- E sua mãe? Quero saber como é a minha sogra!

- Ela é tranquila…meio antiquada, mas boazinha…

- Já sei, são as tatuagens, né? Eu escondo as tatuagens só para conhecer seus pais!

- Ai, mas que insistência a sua, Edu!

- É que você já conhece meus pais, minha irmã….minha família toda…

- Eu adoro eles, por sinal!

- Tá vendo, também quero ter essa possibilidade…

- No momento certo você vai ter…

- Fala a verdade, Clarinha, você acha que seus pais não vão gostar de mim!

- Edu, pára com isso, vai!

- Isso é importante para mim…

- Importante é a gente estar bem!

- Importante é eu conhecer seus pais…

- Tá bom, Edu, é isso mesmo…não te apresentei para eles ainda, porque eles não vão te aceitar! Eles são muito antiquados!

- Agora que eu faço questão de conhecê-los.

- Não vai dar certo…é melhor não!

- Por favor, Clarinha…pelo nosso amor!

- Sei não…

- Por favor…

- Acho arrisacado, Edu…

- Não vai ter problema nenhum, eu prometo!

- Tá bom…sexta-feira então…você janta em casa?

- Está mais do que combinado…você vai ver, minha sogra vai me adorar!

Jantar marcado, o rapaz ficou empolgadíssimo com aquele evento. Pensou mesmo em tirar todos os piercings do corpo, esconder as tatuagens, mas achou melhor não. Ele deveria se apresentar do jeito que sempre foi.

No grande dia, Edu tomou um banho demorado, colocou sua camiseta menos rasgada, penteou o cabelo e até passou perfume. Naquela noite, ele deveria estar impecável. Nada poderia dar errado. Ele queria impressionar a todos.

O jantar foi uma delícia. Todos comeram muito bem, beberam vinho, conversaram bastante e o Edu até conseguiu lembrar de todas as regras de etiqueta que sua mãe o ensinara na noite anterior por conta deste evento.

O sogro, general aposentado, não foi muito simpático, é verdade. Não gostou das tatuagens e achou um tanto quanto estranho aquele monte de metal pendurado nas orelhas, sombrancelhas, nariz, língua e até no mamilo esquerdo do rapaz, mas do seu jeito, acabou aprovando o relacionamento da filha.

Como o Edu havia previsto, a sogra realmente adorou o novo genro. E adorou tanto que, 3 dias depois daquele jantar, acabou fugindo com o rapaz sem nem mesmo deixar pistas. Deixou o chato de galochas do marido resmungando naquela velha poltrona marrom e o pobre do cachorro sem ter o que comer.

Já a Clarinha, bem, essa aí, depois de chorar por 3 dias e 3 noites sem parar, tentar cortar os pulsos sem sucesso, acabar com todos os chocolates do armário e destruir a academia que ela mesma havia montado em casa, descobriu que mãe gostosa deveria continuar mesmo sendo só coisa de novela.


Escrito por Ricardo Polinesio às 16h48
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
Meu perfil


BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, ITAIM BIBI, Homem, de 26 a 35 anos



Histórico


    Votação
    Dê uma nota para
    meu blog



    Outros sites
     Café e Cigarros na Terra do Nunca
     Coletivo sem Papas
     Coluna Fantasma
     Contos do Intervalo
     Cosme Livros
     Malvados
     Mundo Canibal
     Pa-pum
     SPNet