Lê isso aí, ô! - Ricardo Polinesio


Carnificina

O sangue não parava de jorrar quando ele entrou naquela sala sem janelas. As paredes, antes completamente brancas, agora estavam pintadas de vermelho. Gritos ensurdecedores vinham de todos os lados. Tentou correr, mas a porta, fechada pela força do vento, estava trancada.

Aurélio ficou ali, imobilizado, observando aquela cena brutal. Nunca tinha visto tamanha crueldade. Tentou desviar o olhar, mas só conseguia focar naquele imenso corte na jugular. Tentou gritar, mas a voz não vinha. E a única coisa que conseguiu ao abrir a boca na tentativa desesperada de conseguir ajuda foi sentir o gosto daquele sangue que continuava jorrando para todos os lados.

Sentiu a roupa pesada. Uma mistura de sangue com suor. O cheiro havia se tornado insuportável. Os gritos ensurdecedores continuavam. Aurélio não sabia mais o que fazer quando fechou os olhos e tentou se lembrar de coisas boas da sua vida. Foi nesse momento que mais um jato de sangue foi de encontro ao seu rosto. Ele não aguentou e vomitou ali mesmo.

Nunca tinha visto tamanha carnificina. Seis corpos pendurados, um ao lado do outro, todos com o mesmo corte na jugular. E o sangue continuava jorrando sem cessar. Ele não conseguiu mais resistir e, mais pálido que um fantasma de desenho animado, caiu ali mesmo.

Foi retirado quase sem vida quando os donos do local chegaram para acompanhar o andamento dos trabalhos. Ainda no hospital, Aurélio, agora um vegetariano convicto, falou para si mesmo: “visita ao matadouro da cidade, nunca mais”.


Escrito por Ricardo Polinesio às 11h41
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João e Maria

Maria acordava cedo, tomava um belo banho, se arrumava inteira, devorava o café da manhã reforçado com ovos e bacon e ia trabalhar. João acordava tarde, engolia rapidamente uma xícara de café, tomava uma ducha rápida, se arrumava inteiro e ia trabalhar.

Maria era vaiodosa e recalcada. Tinha jeito de moça de família, não falava palavrões e nem fazia cara feia. Usava um vestido longo e gostava de deixar seus cabelos bem compridos e soltos. Trabalhava como faxineira na residência da Dona Lurdes. João era desleixado. Metaleiro e mal encarado, gostava de exibir suas longas madeixas e soltava palavrões a torto e à direita. Mas para trabalhar como segurança na residência da Dona Lurdes, escondia os cabelos embaixo do boné. Exigência da patroa.

Nos finais de semana, Maria gostava de acordar cedo para lavar a roupa, arrumar a casa e assistir os meninos jogando bola no campinho de terra. Ela dizia para quem quisesse ouvir, que ainda seria a técnica daquele time. Já João, acordava tarde, comia qualquer coisa nos botecos da região, tomava um trago com os amigos e aproveitava as festas mais animadas do bairro.

Os dois moravam juntos. Não eram casados, namorados e muito menos um casal. Eram apenas colegas de quarto. Ou de barraco, como gostavam de deixar claro para a patroa e os vizinhos. O relacionamento deles era ótimo, apesar de se encontrarem apenas na parte da tarde, enquanto João se arrumava na frente do espelho. Invariavelmente, costumavam se cumprimentar de forma simples e metódica.

- Boa tarde, João.

- Bom dia, Maria.

E era assim há anos. Vinte e três, para ser mais exato. Vez ou outra, trocavam algumas palavras a mais.

- Boa tarde, João.

- Bom dia, Maria.

- Se apressa aí, que a mulher tá uma fera hoje.

- Pode deixar comigo.

- Bom trabalho, João.

- Boa noite, Maria.

E lá ia João pegar no batente enquanto Maria descansava em paz depois de uma dura manhã de trabalho na casa da Dona Lurdes.

Certa vez, numa tarde chuvosa, uma tragédia aconteceu. Depois de um temporal típico de verão, com chuva de granizo e tudo, o barraco de Maria e João desabou. Os dois nunca mais apareceram para trabalhar na casa da Dona Lurdes.

Os corpos nunca foram encontrados. Mesmo assim, os vizinhos organizaram um velório simbólico para homenagear os amigos de longa data. Mas o que tinha tudo para ser uma cerimônia triste e cheia de lágrimas, terminou em uma grande festa. Todo mundo de mãos dadas, formando um círculo, rodando e cantando.

“Maria sapatão,
sapatão,
sapatão.

De dia é Maria,
de noite é João”.




Escrito por Ricardo Polinesio às 11h24
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Velório

Morreu o Aníbal. A família, em prantos, aos poucos foi chegando para o velório. Um tio do interior de São Paulo, um primo do norte do Paraná, as filhas do Rio de Janeiro e até aquele sobrinho de Brasília. Todo mundo apareceu. Nem no Natal a família estivera tão reunida.

Alguns não sabiam direito nem o porque estavam ali. O fato é que a notícia da morte repentina do Aníbal se espalhou e todos os parentes resolveram aparecer para prestar as condolências. Tinha gente que não se encotrava há anos.

- Quanto tempo, Juvenal!

- Pois é…acho que já faz uns 7 anos.

- Tudo isso?

- Opa! Daí pra mais…

- Não é possível…

- Faça as contas, Alberto…quando morreu o Elias, o Lula ainda não era o presidente…

- Ah, o Elias…que sujeito, hein!

- Um homem bom…não merecia uma morte como aquela…

- Não queria dizer isso, mas só não foi pior que a do Aníbal…

- Não brinca…

- Vai dizer que você não…

- Não faço a menor idéia…morreu de que o Aníbal, hein?

- Assassinato. Parece que a amante encontrou o Aníbal nos braços da esposa, bem no dia do aniversário dela…

- Da esposa?

- Não, da amante.

- Xiiii

- Pois é…

- Com amante não se brinca, Alberto!

- Pobre Aníbal…não merecia morrer assim…

- Foi feio o negócio então?

- Ô! Dá uma olhada lá…caixão fechado e tudo!

- Pobre Aníbal!

- Mas me diga, Juvenal, como estão as coisas lá no Paraná?

- Você soube que eu me separei da Gilda, né?

- Tá brincando!?!?

- Com coisa dessas não se brinca, Alberto!

- E as crianças?

- Ficaram com a mãe…estão morando nos Estados Unidos!

- Não é possível…

- Pois é…já não vejo eles há 3 anos…

- Isso é um crime!

- Nem me fala…mas e você, Alberto, o que conta?

- Soube que me casei novamente?

- Não brinca!

- Verdade…te mandei um convite até…

- Deve ter ficado na casa da mãe da Gilda…

- Pena você não ter ido…foi um festão!

- A parentada toda foi?

- Pra falar a verdade, só os mais íntimos…

- Casamento é assim mesmo…

- É por isso que eu prefiro velório…vêm sempre a família toda!

- Você viu que até a tia Ermenengarda tá aí?

- Vi…ela e a tia Ruth…

- Bons tempos aqueles na casa da tia Ruth…

- Bota bom nisso, Juvenal!

- Aquela sobrinha dela…

- Era sua meia-prima, Juvenal!

- Vai dizer que você não olhava pra ela?

- Olhava, né…ninguém é de ferro…

- Até o pobre Aníbal se aproveitou da Juju…

- Pobre Aníbal!

- Morreu cedo!

- Não merecia isso…

- É, mas se não fosse a morte do Aníbal, a gente não se encontrava…

- Grande Aníbal!

- Pô, Alberto, muito bom te ver…quando será que a gente se encontra novamente?

- Pelo jeito, só no próximo velório…

- Então será logo mais…o tio Alaor já está com 97!

- Aquele safado…

- Deixa disso, Juvenal…quem sabe no velório dele não vem até a sobrinha da Dona Lurdes…

- Grande tio Alaor!


Escrito por Ricardo Polinesio às 12h49
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, ITAIM BIBI, Homem, de 26 a 35 anos



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