Bagunça
Depois de quase 20 anos de casada e cansada daquela bagunça em que sua casa havia se transformado, decidiu arrumar as coisas do marido. Tirou o dia de folga no serviço, colocou um lenço na cabeça, um avental na cintura e teve o seu dia de princesa ao contrário.
Mais tarde, cansado do dia estafante de trabalho, o marido chegou em casa e se deparou com a esposa ainda com trajes de doméstica e uma fisionomia nada excitante.
- Que porra é essa, Camila? O que você tá fazendo vestida assim?
- Tô terminando de arrumar a casa, Danilo…
- Que eu me lembre, é pra isso que a gente paga aquela faxineira…
- Você gostaria que ela mexesse nas suas coisas do quartinho?
- Não…peraí, você não mexeu no quartinho…
- Claro que mexi…aquilo lá tava uma zona…limpei tudo!
- Camila, aquilo lá são as MINHAS coisas!
- As suas coisas na NOSSA casa, Danilo!
- Mas você nunca entrou ali…
- Claro, era tanta bagunça que eu não tinha espaço nem para pisar lá dentro…
- Você não tá querendo dizer que…
- Isso mesmo, joguei todo o lixo fora!
Sem ouvir mais nada do que a esposa tinha para dizer, Danilo foi correndo até o quartinho onde ele guardava todas as suas recordações. Durante os poucos passos que separavam a sala do quartinho, sua vida inteira passou pela cabeça. Ao abrir a porta, Danilo se deparou com uma cena jamais imaginada: o quartinho estava em perfeita organização. Nada no chão, tudo limpo e todas as portas dos armários fechadas.
- Eu não tô acreditando no que eu tô vendo…
- Não ficou o máximo, amor?
- O máximo?? Cadê minha coleção de tampinhas, Camila?
- Coleção? Você chamava aquilo de coleção?
- Como assim, “chamava”?
- Era ferrugem pura, amor…imagina se você se corta com aquilo!
- Aquilo era a minha história! Era uma parte da minha vida, que você fez o favor de destruir…
- Não fala assim…fiz isso pensando no seu bem…
- Peraí…não tô vendo minhas revistas de carro…não vai me dizer que você também…
- Doei para aquele mendigo que passa aqui recolhendo o jornal!
- Não pode ser! Minha juventude toda estava ali!
- Você nem lia aquele monte de notícia velha…e o mendigo ainda vai ganhar uma boa grana com aquele monte de papel…
- Você não entende, Camila…
- Não mesmo…aliás, aquela bagunça que era isso aqui realmente não dá pra entender…
- Não é possível…
- Eu tive um trabalhão, viu! Até lavei suas camisas de futebol…sabia que tinha uma toda rabiscada?
- Não! A camisa com o autógrafo da seleção de 70, não!!
- Que?
- Cadê, Camila? Cadê minha camisa?
- Aqui nesse armário, ó! Novinha em folha!
- Os autógrafos sumiram…
- Não ficou linda, amor? Sente o cheirinho do alvejante…
- Eu suei tanto para conseguir esses autógrafos…
- Ah, deve ter suado mesmo, porque ela tava com um cheiro horrível…
- Não é possivel…não é possível!
- Pára com isso, amor…parece até vitrola quebrada…
- Falando nisso, não tô vendo os meus discos…
- E nem vai ver mesmo…joguei tudo fora pra você…
- Eram as minhas músicas, Camila!
- Eu gravo um CD pra você, com as músicas que você quiser…escrevo uma dedicatória e tudo!
- E meus carrinhos?
- Doei tudo pro orfanato! Você precisava ver o sorriso daquelas crianças…
- Você jogou minha vida no lixo, Camila!
- Não, não, não…eu arrumei e limpei tudo, é bem diferente.
- Não é possível…
- Ah, fala a verdade, vai…o quartinho não ficou um brinco? Peraí amor…onde você vai?
- Preciso de uma cerveja.
- Mas você não bebe, Danilo!
- Vou começar agora!
A porta bateu e lá foi ele em direção ao boteco. Sem entender direito aquela reação, Camila preparou o jantar, colocou a mesa e até acendeu velas para tentar animar um pouco o que sobrava do marido. Mas apesar de todo aquele cuidado, a mulher ficou a ver navios. Danilo nunca mais voltou. Tinha saído para recomeçar a sua vida.
Escrito por Ricardo Polinesio às 16h40
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Inseparáveis
Desde pequenas as duas estavam sempre juntas. Onde a Marcela ia, lá estava a Mariana. No carrossel dava briga para saber quem ia sentar no cavalinho rosa e quem ficaria com o azul. No escorregador, a briga era pra saber quem descia na frente. E no jogo das argolas, pra saber quem lançaria a argola primeiro. Mas apesar das brigas, as duas eram inseparáveis.
- Marcela, vai pro banho!
Lá iam as duas pro banheiro.
- Mariana, arruma sua cama, menina!
E lá estava a Marcela ajudando com o trabalho pesado. Não havia o que separasse as duas. Eram como unha e carne.
Na escola a professora tinha dificuldades para não deixar as duas colarem. Na fila da cantina sempre tinha alguém reclamando que uma das duas estavam furando fila. E nas aulas de educação física, o time delas sempre jogava com uma atleta a mais.
O tempo passou, Marcela e Mariana cresceram e veio a primeira menstruação. Claro, no mesmo dia. Começaram a crescer os peitinhos e o corpo das meninas começava a ganhar formas do corpo de uma mulher. E que mulher.
Como todos os alunos do colégio, as duas também fizeram cursinho para entrar na faculdade. Escolheram o mesmo curso e estudaram muito, sempre juntas. Quando saíram as primeiras listas de aprovados, os gritos vindo da casa delas eram muito mais altos. Afinal, de tanto estudar as mesmas matérias incansavelmente, as duas fizeram a mesma pontuação na prova do vestibular. Foram aprovadas com louvor, em primeiro lugar.
Dona Adriana, a mãe das meninas, quase teve um treco quando ficou sabendo que a faculdade era em outra cidade. Refeita do susto, não teve dúvidas: alugou um apartamento perto do campus para que as filhas dividissem.
Passada a fase dos trotes, veio a primeira festa universitária que elas participariam. Seria na casa do Albertinho, aquele veterano que as duas morriam de amores. Marcela e Mariana se produziram, passaram batom, fizeram maquiagem, colocaram um vestido provocante e foram para a festa.
Experiente, o rapaz aproveitou o descuido de Mariana, que dormia no sofá ao lado da irmã depois de beber mais que o devido, e deu logo um beijo na outra. No meio de todo aquele romantismo, mão aqui, mão ali, a menina que parecia desmaiada acordou. Aquilo não poderia ser verdade. A irmã não poderia ser tão insensível com o seu pobre coração apaixonada. Mariana então não teve dúvidas: partiu para a ignorância.
Aí foi soco, chute, tapa e pontapé para tudo quanto é lado. Puxa cabelo daqui, morde dali e quando se viu, as duas estavam praticamente nuas. O Albertinho até tentou separar, mas viu que seria impossível. E depois de tanto apanhar no meio daquela terrível briga das duas irmãs, ele teve a certeza de que nunca mais tentaria namorar uma gêmea siamesa.
Escrito por Ricardo Polinesio às 16h54
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Karaokê
O trabalho aqui na agência tá grande e tô meio sem tempo de parar e pensar em algum texto novo. Pra isso aqui não ficar totalmente morto, vou republicar um texto antigo. Se você ja leu, deixa de ser preguiçoso e releia. Se ainda não leu, divirta-se. Espero que na semana que vem possa ter novidades por aqui. Lá vai.
Ele era um cara estranho. E como todo cara estranho, ninguém entendia muito bem o que ele queria da vida. Fazia faculdade, natação e corria no parque. Até alguns amigos ele tinha. Ninguém muito próximo, mas alguns colegas de sala, que faziam trabalhos em grupo. Sempre negava os convites para as festas da faculdade, mas para os pais, dizia que era o cara mais popular da sala. Por isso vivia saindo, todas as noites.
Ela era uma japonesinha típica. Pequenina, tímida, discreta e de poucas palavras. Chegava até a ser estranha, de tão pouco que falava. Morava com os pais, os irmãos e os avós em uma casa que fazia fundos para uma loja de bugigangas, o ganha pão da família. Seu pai, muito rígido, não gostava que ela saísse a noite. Mas ela, sorrateiramente, conseguia escapar todas as noites, sem deixar vestígios.
Mesmo sem se conhecer, os dois tinham uma paixão em comum: a música. Mais do que isso, os dois sonhavam em ser cantores. E, estranhos que eram, frequentavam todos os karaokês da Liberdade. Um a cada noite. Mas ficavam ali, observando, aplaudindo e criando coragem para um dia, quem sabe, soltar a voz. Mas apesar dessa coincidência de gostos (e claro, devido à grande quantidade de karaokês na Liberdade), eles nunca haviam se encontrado.
Até que uma noite ambos entraram no mesmo karaokê. Ele inteiro de preto, com uma mochila nas costas e, como sempre, apreensivo. Ela de calça jeans e uma blusa larga, bolsa debaixo do braço e cara de assustada, por ter mais uma vez saído fugida de casa. Sentaram em mesas distantes, uma de cada lado do palco.
Ele nem reparou, mas ela não conseguia tirar os olhos daquele cara misterioso e sozinho, que cantava todas as músicas como se fosse o compositor de cada uma delas. Ela decidiu que precisaria chamar atenção do rapaz, mas não sabia como. Resolveu cantar, mas não tinha coragem de enfrentar os olhares do público e, principalmente, do rapaz misterioso. Chamou o garçom, pediu uma caipirinha. Com um pouco de bebida na cabeça, talvez criasse coragem. Pediu mais uma caipirinha. E mais outra.
Já no final da noite, escolheu a música, criou coragem e foi até o palco. Sem medo de nada, ofereceu a música ao rapaz de preto e começou a cantar. Até que começou bem, mas aos poucos foi esquecendo a letra, errando as notas e começando a gaguejar. As poucas pessoas que acompanhavam o espetaculo, começaram então, a vaiar. Quando ela já estava morrendo de vergonha, as vaias foram interrompidas pelo barulho de um tiro, que acertou em cheio a cabeça da moça.
Antes de ser levado ao camburão, ainda escutaram ele dizer: “Se o grande Tim Maia era obrigado a ouvir aqulio se revirando no túmulo, ela também era obrigada a ir até ele e pedir desculpas”.
Escrito por Ricardo Polinesio às 10h49
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Notícia
É com grande orgulho que escrevo esta notícia. Acabo de saber que os contos "Muito Prazer" e "Pé de Coelho, Saravá, Bate na Madeira 3 Vezes" foram selecionados no XXIV Concurso Internacional Literário e serão publicados no livro "Horizonte Noturno".
Se vc quer mais informações sobre este concurso, acesse o site www.giraldo.org e leia. Se você está boiando em relação a esta notícia, faça uma busca aqui no blog e leia os contos vencedores. E se você é o Chang ou o Juan, chupa.
Escrito por Ricardo Polinesio às 18h29
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Amante
Quando ele mais uma vez resolveu ir ao banheiro, a namorada começou a desconfiar. De duas, uma: ou seu namorado estava com a bexiga solta ou tinha outra garota na jogada. Aquilo não era possível. Eles estavam na festa a menos de duas horas e esta era a sexta vez que o Jorge precisava se dirigir ao toilette.
- De novo, Jorge?
- Estou apertado, Márcia!
- Mas já é a sexta vez!
- Agora você vai ficar controlando até quantas vezes eu vou ao banheiro?
- É que…
- Não perturba, Márcia…dá licença!
- Mas Jorge, meu amor…
E lá foi ele, resolver o seu problema. A namorada, espantada com tamanha grosseria, mais parecia uma estátua. Mas quando seus lábios começaram a tremer, prevendo um choro cada vez mais iminente, ela ouviu uma voz.
- Não deixa isso ficar assim, Márcia…vai atrás dele.
Atordoada com a situação e sem saber se aquilo era coisa da sua cabeça ou a se era a voz da sua melhor amiga dando mais um conselho estúpido, Márcia voltou a se mover e foi em direção da escadaria que levava ao banheiro localizado no piso superior daquela casa.
Ao chegar lá em cima, foi logo colando o ouvido na porta do banheiro. E depois de alguns minutos de silência absoluto, ela escutou uma movimentação ali dentro. Mais um período de silêncio veio seguido do barulho de três chutes no vaso sanitário. Em seguida, ainda ouviu a descarga sendo puxada por três vezes.
Márcia deu risada, imaginando a situação. O namorado com uma tremenda dor de barriga e nervoso com a privada que resolveu entupir bem nesta situação. Até com remorso por ter desconfiado do namorado ela ficou.
Mas quando Márcia voltou a colar o ouvido na porta, reconheceu a voz do namorado vindo lá de dentro. Ele parecia conversar com uma garota. Novamente tomada pelo ciúme, ela arrombou a porta com um só chute e deu de cara com Jorge aos beijos com uma mulher.
Márcia gritou e assustou o casal. O beijo foi interrompido. Jorge ainda teve tempo de rezar para que aquilo não fosse verdade, mas era tarde demais. As duas já haviam trocado os olhares fatais.
Depois de ter visto aqueles algodões no nariz daquela loira lindíssima, Márcia, pálida como um fantasma, ainda tentou sair correndo. Ela, que nunca levou a sério nenhum tipo de lenda urbana, só conseguiu dar três passos antes de ter a cabeça arrancada do próprio corpo e cair dura no chão.
Bobinha, não sabia que não se deve tentar fugir da loira do banheiro.
Escrito por Ricardo Polinesio às 12h02
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