Lê isso aí, ô! - Ricardo Polinesio


Fim do Mundo

Presa dentro de um carro sem rádio, sem ar-condicionado e atrasada para a reunião. O congestionamento, o calor e o barulho das buzinas eram tanto, que acreditava ser o fim do mundo. Tudo estava fora da ordem. O trânsito não fluía, o telefone não dava linha e os segundos corriam cada vez mais depressa. Definitivamente, a casa caia.

Decidiu ir a pé, que caminhando chegaria mais rápido ao final desta tormenta. O chão, que parecia abrir sob seus pés, fez o favor de quebrar seu salto, enquanto a forte ventania que atingia a cidade levantava sua saia para delírio da multidão. Buzinas soavam como trombetas do inferno. O forte calor, que ajudava a dar um clima infernal para a situação, foi interrompido por uma chuva daquelas que só o verão pode proporcionar.

Era mesmo o fim do mundo. A reunião já era. O projeto de meses de trabalho ia para o lixo. Daquele dia ela não passaria. Sua demissão não era mais uma hipótese. Descalça e ensopada, pensou na vida. Pensou em tudo o que tinha e não tinha realizado nos seus 35 anos e percebeu a falta de emoção que existia em sua história.

Ao seu redor, a situação só piorava. A chuva apertava, as ruas alagavam. O dia virava noite. A certeza de um fim iminente era tanta, que mudou os planos. Foda-se a reunião. Ligou para o chefe e usou todos os palavrões que conhecia. Um por um. Jogou a aliança para um lado e as chaves do carro para o outro. Bebeu whisky no gargalo. Começou a fumar. Brigou na rua. Bicou o cachorro. Correu pelada.

Cansada, decidiu dar para o primeiro que passasse. Deu para um, para dois, para três. Voltou para casa e ligou para a sogra. Com gosto, mandou a velha pastar. Deixou o marido para fora de casa, bebeu mais whisky no gargalo e, realizada, deitou-se esperando a morte. Morreria, mas morreria feliz.

Acordou sangrando. O mundo não acabou. Mas pelo menos a TPM passou.



Escrito por Ricardo Polinesio às 17h31
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