Vida
A gente acordava e bebia cerveja barata. De vez em quando vodka nacional, só pra não cair na rotina. Trocava o dia pela noite e as poucas horas de sono eram longe de uma cama com lençol, cobertor e travesseiro. Isso era artigo de luxo. Qualquer canto para cair deitado era ótimo, mesmo porque, a gente só deitava quando não tinha mais forças pra ficar de pé.
Nosso carro era um ônibus. As vezes, quando sobravam uns trocados, um táxi. Nossos amigos eram alcoólatras, irresponsáveis, imaturos e indecentes. Só nos davam apoio quando era pra gente inventar uma desculpa e faltar no trabalho. Éramos fortes, saudáveis e imortais. E apesar disso, uma gripe ainda mais forte e poderosa que a gente insistia em atacar sempre às segundas ou às sextas.
Já acordamos na sarjeta, já acordamos no ponto final do ônibus, já acordamos sem saber onde estávamos. Já não acordamos, justamente por não termos dormido.
A gente vivia com olheiras enormes e a ressaca era pior que o inferno. A luz do dia fazia com que nos sentíssemos verdadeiros vampiros. Doía os olhos, doía a cabeça, doía o corpo. Só não doía a consciência porque isso a gente não tinha mesmo. Era merda atrás de merda. Tivemos amigos que foram presos, amigos que apanharam, amigos que bateram o carro e amigos que perderam o emprego. Tivemos até amigos que não se lembram de porra nenhuma disso. A gente só se fodia.
Mas chegou um dia que finalmente a gente cresceu. A gente começou a levar o trabalho a sério, começou a ganhar dinheiro, a comprar cerveja da melhor qualidade, vodka importada e até uma cama nova. A gente começou a se dar bem na vida. A gente finalmente criou responsabilidade, nunca mais foi preso e agora chega em casa em horários de gente, não falta no trabalho, não arruma confusão e se beber, não dirige. É, a gente finalmente amadureceu. Que merda!
Escrito por Ricardo Polinesio às 14h15
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Medo
Medo de morrer todo mundo tem. Mas com o Almeida era diferente. Ele tinha é pavor. Não podia passar em frente a um cemitério que ficava tremendo feito vara verde. Coroa de flores, loja de caixão, mulheres vestidas de preto. Tudo isso era tremedeira na certa. O negócio do Almeida era evitar a morte. A sua morte. Talvez por isso desde pequeno tenha sonhado ser médico.
- O que você quer ser quando crescer, Almeidinha? – perguntou a professora.
- Médico.
- Que lindo...quer salvar vidas?
- Vidas não. Vida. E a minha.
O tempo passou e, apavorado com a hipótese de algum dia contrair uma doença sem cura, Almeida se dedicou a estudar. Queria saber tudo o que poderia acontecer em seu corpo, as causas, os efeitos. Entrou na faculdade e levou a medicina a sério. Tão a sério que em 6 anos se formou como melhor aluno da classe.
Não reclamava de dar plantões intermináveis. Pelo contrário, adorava. Dizia que era a melhor forma de estar protegido. Caso acontecesse alguma coisa, já estaria ali, no melhor hospital da cidade.
Não bebia. Apesar da possibilidade do álcool esterilizar seus órgãos, a possibilidade de sofrer um acidente causado pela bebedeira era muito maior. Não fazia esportes, que apesar de ser uma forma de se manter saudável, também era uma forma de quebrar uma perna, um braço ou até sofrer uma parada cardíaca. Obviamente nao fumava. Drogas então, nem pensar. Só uma macoinha vez ou outra, é verdade, mas nesse caso ele dizia ser por motivos médicos.
Atravessar a rua, só na faixa de pedestres. Comida, só a feita por ele mesmo. Bicicleta, nem pensar. Televisão, só numa distância segura. Sexo, só com camisinha e olhe lá. Sol, só das 7h00 as 9h30 e das 16h00 as 18h00. Banho de mar, só em sonho. De piscina, só com bóia. Água, só fervida.
O Almeida passava mais tempo cuidando da vida do que vivendo, o que, no mínimo já era um contra-senso. Mas o Almeida era assim, fazer o que?
Mas o que ele gostava mesmo era de ficar no hospital. Era ali que o Almeida se sentia bem, se sentia em casa. Era no hospital que estavam seus amigos. Era onde ele conhecia todo mundo, do porteiro ao médico principal. O Almeida passava tanto tempo no hospital, que acabou contraindo uma infecção hospitalar.
Logo ele que sempre se cuidou, sempre se preocupou com a sua saúde, sempre olhou para os dois lados antes de atravessar a rua. Como essa vida era injusta.
A notícia correu os corredores do hospital, pegou de surpresa todos os enfermeiros e num piscar de olhos o médico principal já estava sabendo. Mais do que isso, estava comovido. Decidiu cuidar do Almeida, sem cobrar nada.
- Ô Almeida, como é que isso foi acontecer com você?
- São as ironias da vida, né doutor!
- Eu vou te livrar dessa, Almeida...confia em mim.
- Ô doutor...
- Você vai ver, Almeida...logo mais você já vai estar por ai, bebendo com os amigos...
- Eu não bebo, doutor.
- Nem uma gota?
- Nem uma gota.
- Então daqui a pouco você tá ai, correndo, jogando bola...
- ...
- Não joga bola, né?
- Não...
- Não tem problema...nada como uma bela feijoada!
- Não sou muito fã de feijoada, doutor...
- Já entendi, já entendi... você não vê a hora de levantar dessa cama, dar aquela transada com a sua esposa...
- Eu não sou casado...
- Ô Almeida, então vai comer uma puta, sei lá...
- Só faço sexo seguro, doutor...e olhe lá...
- Mas que merda de vida, hein Almeida!
- Doutor...doutor!! Onde você vai, dout....
Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
Escrito por Ricardo Polinesio às 11h57
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