Lê isso aí, ô! - Ricardo Polinesio


Fotos do Lançamento

Aqui as fotos do lançamento.

Obrigado a quem foi e a quem torceu para que fosse o sucesso que foi. Obrigado mesmo.

Você foi lá? Então salva essa foto no seu computador e abra em tamanho grande. Quero ver você se achar.



Escrito por Ricardo Polinesio às 21h01
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O livro

E não é que o blog virou livro? E o melhor: com lançamento e tudo.

Esteja convidado. Compareça, o coquetel é por minha conta, mesmo. Saca só o convitinho ai.

Conseguiu ler direitinho? Não? Então anota aí:

Data: 18/11

Horário: a partir das 20h00

Local: Bar Martins (R. Henrique Martins, 483)



Escrito por Ricardo Polinesio às 16h06
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Vida

A gente acordava e bebia cerveja barata. De vez em quando vodka nacional, só pra não cair na rotina. Trocava o dia pela noite e as poucas horas de sono eram longe de uma cama com lençol, cobertor e travesseiro. Isso era artigo de luxo. Qualquer canto para cair deitado era ótimo, mesmo porque, a gente só deitava quando não tinha mais forças pra ficar de pé.

Nosso carro era um ônibus. As vezes, quando sobravam uns trocados, um táxi. Nossos amigos eram alcoólatras, irresponsáveis, imaturos e indecentes. Só nos davam apoio quando era pra gente inventar uma desculpa e faltar no trabalho. Éramos fortes, saudáveis e imortais. E apesar disso, uma gripe ainda mais forte  e poderosa que a gente insistia em atacar sempre às segundas ou às sextas.

Já acordamos na sarjeta, já acordamos no ponto final do ônibus, já acordamos sem saber onde estávamos. Já não acordamos, justamente por não termos dormido.

A gente vivia com olheiras enormes e a ressaca era pior que o inferno. A luz do dia fazia com que nos sentíssemos verdadeiros vampiros. Doía os olhos, doía a cabeça, doía o corpo. Só não doía a consciência porque isso a gente não tinha mesmo. Era merda atrás de merda. Tivemos amigos que foram presos, amigos que apanharam, amigos que bateram o carro e amigos que perderam o emprego. Tivemos até amigos que não se lembram de porra nenhuma disso. A gente só se fodia.

Mas chegou um dia que finalmente a gente cresceu. A gente começou a levar o trabalho a sério, começou a ganhar dinheiro, a comprar cerveja da melhor qualidade, vodka importada e até uma cama nova. A gente começou a se dar bem na vida. A gente finalmente criou responsabilidade, nunca mais foi preso e agora chega em casa em horários de gente, não falta no trabalho, não arruma confusão e se beber, não dirige. É, a gente finalmente amadureceu. Que merda!



Escrito por Ricardo Polinesio às 14h15
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Medo

Medo de morrer todo mundo tem. Mas com o Almeida era diferente. Ele tinha é pavor. Não podia passar em frente a um cemitério que ficava tremendo feito vara verde. Coroa de flores, loja de caixão, mulheres vestidas de preto. Tudo isso era tremedeira na certa. O negócio do Almeida era evitar a morte. A sua morte. Talvez por isso desde pequeno tenha sonhado ser médico.

- O que você quer ser quando crescer, Almeidinha? – perguntou a professora.

- Médico.

- Que lindo...quer salvar vidas?

- Vidas não. Vida. E a minha.

O tempo passou e, apavorado com a hipótese de algum dia contrair uma doença sem cura, Almeida se dedicou a estudar. Queria saber tudo o que poderia acontecer em seu corpo, as causas, os efeitos. Entrou na faculdade e levou a medicina a sério. Tão a sério que em 6 anos se formou como melhor aluno da classe.

Não reclamava de dar plantões intermináveis. Pelo contrário, adorava.  Dizia que era a melhor forma de estar protegido. Caso acontecesse alguma coisa, já estaria ali, no melhor hospital da cidade.

Não bebia. Apesar da possibilidade do álcool esterilizar seus órgãos, a possibilidade de sofrer um acidente causado pela bebedeira era muito maior. Não fazia esportes, que apesar de ser uma forma de se manter saudável, também era uma forma de quebrar uma perna, um braço ou até sofrer uma parada cardíaca. Obviamente nao fumava. Drogas então, nem pensar. Só uma macoinha vez ou outra, é verdade, mas nesse caso ele dizia ser por motivos médicos.

Atravessar a rua, só na faixa de pedestres. Comida, só a feita por ele mesmo. Bicicleta, nem pensar. Televisão, só numa distância segura. Sexo, só com camisinha e olhe lá. Sol, só das 7h00 as 9h30 e das 16h00 as 18h00. Banho de mar, só em sonho. De piscina, só com bóia. Água, só fervida.

O Almeida passava mais tempo cuidando da vida do que vivendo, o que, no mínimo já era um contra-senso. Mas o Almeida era assim, fazer o que?

Mas o que ele gostava mesmo era de ficar no hospital. Era ali que o Almeida se sentia bem, se sentia em casa. Era no hospital que estavam seus amigos. Era onde ele conhecia todo mundo, do porteiro ao médico principal. O Almeida passava tanto tempo no hospital, que acabou contraindo uma infecção hospitalar.

Logo ele que sempre se cuidou, sempre se preocupou com a sua saúde, sempre olhou para os dois lados antes de atravessar a rua. Como essa vida era injusta.

A notícia correu os corredores do hospital, pegou de surpresa todos os enfermeiros e num piscar de olhos o médico principal já estava sabendo. Mais do que isso, estava comovido. Decidiu cuidar do Almeida, sem cobrar nada.

- Ô Almeida, como é que isso foi acontecer com você?

- São as ironias da vida, né doutor!

- Eu vou te livrar dessa, Almeida...confia em mim.

- Ô doutor...

- Você vai ver, Almeida...logo mais você já vai estar por ai, bebendo com os amigos...

- Eu não bebo, doutor.

- Nem uma gota?

- Nem uma gota.

- Então daqui a pouco você tá ai, correndo, jogando bola...

- ...

- Não joga bola, né?

- Não...

- Não tem problema...nada como uma bela feijoada!

- Não sou muito fã de feijoada, doutor...

- Já entendi, já entendi... você não vê a hora de levantar dessa cama, dar aquela transada com a sua esposa...

- Eu não sou casado...

- Ô Almeida, então vai comer uma puta, sei lá...

- Só faço sexo seguro, doutor...e olhe lá...

- Mas que merda de vida, hein Almeida!

- Doutor...doutor!! Onde você vai, dout....

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii



Escrito por Ricardo Polinesio às 11h57
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Fim do Mundo

Presa dentro de um carro sem rádio, sem ar-condicionado e atrasada para a reunião. O congestionamento, o calor e o barulho das buzinas eram tanto, que acreditava ser o fim do mundo. Tudo estava fora da ordem. O trânsito não fluía, o telefone não dava linha e os segundos corriam cada vez mais depressa. Definitivamente, a casa caia.

Decidiu ir a pé, que caminhando chegaria mais rápido ao final desta tormenta. O chão, que parecia abrir sob seus pés, fez o favor de quebrar seu salto, enquanto a forte ventania que atingia a cidade levantava sua saia para delírio da multidão. Buzinas soavam como trombetas do inferno. O forte calor, que ajudava a dar um clima infernal para a situação, foi interrompido por uma chuva daquelas que só o verão pode proporcionar.

Era mesmo o fim do mundo. A reunião já era. O projeto de meses de trabalho ia para o lixo. Daquele dia ela não passaria. Sua demissão não era mais uma hipótese. Descalça e ensopada, pensou na vida. Pensou em tudo o que tinha e não tinha realizado nos seus 35 anos e percebeu a falta de emoção que existia em sua história.

Ao seu redor, a situação só piorava. A chuva apertava, as ruas alagavam. O dia virava noite. A certeza de um fim iminente era tanta, que mudou os planos. Foda-se a reunião. Ligou para o chefe e usou todos os palavrões que conhecia. Um por um. Jogou a aliança para um lado e as chaves do carro para o outro. Bebeu whisky no gargalo. Começou a fumar. Brigou na rua. Bicou o cachorro. Correu pelada.

Cansada, decidiu dar para o primeiro que passasse. Deu para um, para dois, para três. Voltou para casa e ligou para a sogra. Com gosto, mandou a velha pastar. Deixou o marido para fora de casa, bebeu mais whisky no gargalo e, realizada, deitou-se esperando a morte. Morreria, mas morreria feliz.

Acordou sangrando. O mundo não acabou. Mas pelo menos a TPM passou.



Escrito por Ricardo Polinesio às 17h31
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Na Cozinha

Carlos andava preocupado. Depois de passar a vida toda exercendo o papel de homem-macho-dominante e escolhendo ele mesmo quem seria a cozinheira da família, sua esposa havia decidido botar ordem na casa. E a primeira providência a ser tomada seria a demissão da Dona Ana, uma crioula linda, de corpo perfeito e sorriso maroto.

O velho ainda tentou argumentar, dizendo que a moça cozinhava como ninguém, que era de confiança, mas a desculpa não colou. Nem ele mesmo conseguia comer as receitas preparadas pela Dona Ana.

- Cansei, Carlos, cansei!

- Que foi, Rosana, endoidou?

- Não aguento mais essa cozinheira aqui!

- Essa cozinheira tem nome. É Ana.

- Não importa se tem nome ou não. O fato é que chega! Basta!

- Mas eu não to entendendo...

- Não se faça de sonso...eu aguentei essa palhaçada por anos, mas agora chega!

- Mas...

- Não tem mais, nem menos...essa gororoba eu não como mais!

- Não fale assim, Rosana! Você está ofendendo a Ana!

- Não tem conversa...amanhã ela está fora! E tem mais: a partir de agora, quem contrata cozinheira nessa casa, sou eu!

- Mas a Ana...

- Carlos! Ou ela, ou eu!

Carlos ficou desconcertado. Não sabia se a esposa tinha descoberto as puladas de cerca que ele havia dado durante todos esses anos ou se o problema era só a comida mesmo. Ele não sabia o que fazer. Não queria perder sua boquinha de tantos anos, mas também não aceitava a idéia de perder a esposa que tanto amava. Engoliu aquelas palavras e foi para o escritório. Disse que precisava trabalhar. Ele que se orgulhava de ter as melhores cozinheiras do bairro – não que cozinhassem bem, é verdade – agora estaria sujeito a conviver com qualquer uma que a Rosana contratasse.

Duas semanas se passaram e os dois não tocaram mais no assunto. Aquela conversa parecia ter virado tabu, até o dia em que a mulher chegou com a notícia de que finalmente havia contratado uma nova cozinheira.

- Mariana!

- Que foi, Rosana?

- A nova cozinheira. Chama Mariana! Começa amanhã! E olha só: cozinheira de mão cheia, viu.

- Mariana?

- É, Mariana.

O velho escutou aquelas palavras e ficou quieto novamente. Mariana era um belo nome. Se ele tivesse sorte, seria uma moça de meia-idade, charmosa e discreta ao mesmo tempo. Um pitelzinho. Não conseguiu dormir. Parecia uma criança na véspera de uma viagem.

Na manhã seguinte, Carlos se levantou mais cedo que o habitual, preparou o café e ficou ali na cozinha, só esperando a campainha. Ao abrir a porta, o velho ficou em estado de choque. Seus olhos não podiam acreditar no que estava vendo. Uma morena de 35 anos, 1,75m de altura, coxas torneadas, seios fartos e ar pueril.

Ele não conseguiu dizer uma palavra sequer. Deixou a moça entrar e foi para o escritório. Estava radiante. Além da esposa não ter descoberto suas aventuras passadas, ainda tinha contratado a melhor cozinheira que ele já havia visto.

O tempo passou e a moça mostrava-se uma excelente cozinheira. Temperava a carne como ninguém, deixava o arroz soltinho, o frango sequinho e até o chuchu saboroso. O casal comia como nunca havia comido antes.

Tudo perfeito, não fosse o velho, num surto inexplicável, ter tentado se engraçar com a cozinheira numa tarde de quarta-feira. Entrou na cozinha sorrateiramente, chegou perto da moça e encheu as mãos. A surpresa com a descoberta de que Mariana, a cozinheira, era na verdade o cozinheiro, assim mesmo, com “o” no final, foi tão grande que Carlos bateu as botas. Seu coração não aguentou. Morreu.

Rosana não esboçou reação. Depois de anos e anos, finalmente estava livre das traições do marido, e principalmente, satisfeita.



Escrito por Ricardo Polinesio às 17h00
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Arsênico

Teresa andava desconfiada do marido. Depois de muitos anos casados, era a primeira vez que Miguel não procurava por sexo durante um período tão longo. A dúvida da traição e, principalmente, a abstinência pela qual a moça vinha passando estavam acabando com a sua vida.

Depois de muito conversar com as amigas mais próximas, Teresa finalmente tomou coragem e resolveu investigar a vida do maridão. Aprendeu técnicas de espionagem e, sem que o sacana desconfiasse, passou a segui-lo para cima e para baixo.

Não demorou muito para Teresa chegar a conclusão de que ela era a mais nova corna da cidade. Aquela pulguinha atrás da orelha finalmente havia resolvido aparecer e se mostrava ser muito mais real do que ela mesma poderia imaginar. Ela tirou fotos do casal, registrou entradas e saídas em motéis, gravou ligações e guardou camisas manchadas de batom. Tudo como mandam as cartilhas dos melhores espiões.

Fria como poucas mulheres, a chifruda manteve a calma e decidiu pensar muito bem antes de agir. Ela queria vingança, é verdade, mas ainda não sabia o que fazer. Pensou em sair dando para qualquer homem que passasse em sua frente, mas ela não seria tão baixa assim. Pensou em pegar o marido no pulo, pedir o divorcio e arrancar todas as suas economias, mas o safado não tinha onde cair morto. Pensou em deixar tudo como estava, desde que Miguel acabasse com aquela abstinência sexual. Pensou em se matar, mas ela não daria esse gostinho para ele.

Teresa já não agüentava mais aquela situação quando finalmente teve uma idéia brilhante: arsênico. Ela envenenaria o safado e faria com que tudo parecesse um acidente. Radiante com a solução encontrada, foi até a farmácia comprar o produto.

- Boa tarde, eu queria um vidro de arsênico, por favor.

- Minha senhora, este é um produto muito perigoso...posso saber o motivo?

- Claro...é que vou matar meu marido.

- O que é isso???? Que absurdo!!! Eu não posso participar de um crime...vou chamar a polícia...

- Calma meu senhor...vou matar também a amante dele...

- Ah não, um duplo homicídio...eu não posso concordar com isso!!!

- Mas meu senhor...

- Não tem essa de meu senhor, não...ponha-se daqui pra fora, ou eu chamo a polícia, hein!!!

Muito envergonhada, Teresa tirou uma foto da bolsa e mostrou ao farmacêutico, que ficou espantado ao ver a imagem de sua esposa pelada na cama com um outro homem.

- Mas porque você não me falou antes que tinha receita? Vou buscar o vidro de arsênico agora mesmo, minha senhora.



Escrito por Ricardo Polinesio às 19h53
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Conversa Fiada

João passou a vida toda andando descalço, sem se preocupar muito com a sua saúde, que era de ferro. Ainda menino, raramente pegava uma gripe. Alguma doença mais séria então, nem pensar. Mas idade chegou para ele.

Criado na praia, com jeito de bicho do mato, inteligência definitivamente não era o seu forte. E quando precisou enfrentar uma forte dor no peito, entrou em pânico. Não saia mais de casa e resolveu se esconder da vida. Cansada do marido o dia inteiro dentro de casa, a esposa tanto fez, que convenceu o caboclo a procurar um médico.

No dia da consulta João acordou apreensivo. E pela cara que o bicho voltou para casa, toda aquela apreensão tinha mesmo razão de ser. A mulher ainda tentou perguntar o que houve, mas nada nesse mundo fazia o cidadão abrir a boca e contar o diagnóstico.

João estava inconsolável. Sua cara estava péssima há dias. Até a vontade de comer o homem havia perdido. Preocupada com a situação do maridão, a esposa criou coragem e falou com o patrão de João, que aceitou dar uma força e conversar com o jagunço. Seria uma conversa de homem para homem.

- Ô João, que cara é essa?

- Nada não, dotô.

- Deixa disso, João…eu sei que você não tá legal…

- Ô patrão, não é nada não…só uns probleminhas lá em casa…

- João, João…antes de ser o seu patrão, sou seu amigo…

- Não se preocupa não, dotô…é só problema de pobre…

- Assim você me ofende…

- Ah, sabe como é, né…

- Olha, sua mulher conversou comigo…sei que você foi ao médico e depois ficou assim…o que aconteceu?

- Aquela viada falou com o sinhô???

- Ela quer o seu bem, João…

- Eu ainda mato aquela rapariga…

- Diz João, o que o médico falou?

- Ah dotô…é complicado…

- Complicado?

- Tô muito doente…mas na verdade, eu prefiro morrer…

- Ô rapaz, não fala assim não…

- Ah dotô, se fosse com o sinhô, o sinhô ia querer o mesmo viu…

- Anda João, desembucha!

- Tá bom, patrão, eu vou falar…é o seguinte, tive uma dores aqui no peito e já não sabia mais o que fazer…deu um medo danado…

- Sei…

- Ai a Cileide falou pra eu ir procurar um médico…a bichinha tanto me encheu a paciência, que eu fui…e agora tô assim, arrasado!

- Mas o que o médico disse, João? O que foi essa dor no peito?

- Ah, a dor no peito não era nada não…era gases…dei uns peidinhos e tudo se resolveu…

- Mas então?

- O problema foi depois, dotô…o sacana do médico disse que eu tava ficando velho, que eu tinha que fazer uns exames…

- Que exames?

- Tem uns que não tem problema não, dotô, mas tem um lá, que chama exame de próstata! Sabia que o médico quer enfiar o dedo no meu cu? E ainda disse que se não fizer isso, eu posso até morrer!!!

- É João, um dia essa hora chega para todos os homens… e é muito importante fazer esse exame.

- Aaaaahhh dotô…o sinhô sabe que eu não tenho frescura, não sou medroso nem nada, mas dedo no meu cu homem nenhum enfia não!!

- Deixa disso, João…esse exame todo homem tem que fazer…eu mesmo já fiz…

- O sinhô???

- É João…é normal…e super importante…isso pode salvar a vida de qualquer homem…

- Ah dotô, não sei não hein…não gosto dessas coisas…

- Você prefere correr o risco de deixar sua esposa ai, sozinha no mundo?

- Isso nunca, dotô!

- Então João…

- Tá bom dotô…o sinhô me convenceu…eu vou lá!

- Vai sem medo, João…todo homem faz isso um dia…

João agradeceu a conversa com o patrão, a preocupação e colocou na sua cabeça que fazer o exame seria mesmo fundamental para sua vida. Desistiu dos seus preconceitos e estava realmente decidido a procurar o médico para fazer o tal exame.

- Obrigado mesmo, viu dotô…não sei nem como agradecer…

- Que isso, João…ah, mas tem uma coisa, viu?

- Que foi, dotô?

- Só não pode gostar, hein!

João não foi visitar médico nenhum. Morreu de câncer na próstata seis meses depois daquela conversa.



Escrito por Ricardo Polinesio às 12h00
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Frio e Calculista

Sebastião era o rei dos assassinos. Um mestre na arte de matar. O demônio encarnado na figura humana. Um serial killer frio e calculista. Para ele, não tinha tempo ruim na hora de tirar a vida de alguém. Aquilo era uma necessidade física. Assim como respirar era necessário para os pobres mortais.

Ele não tinha dó nem piedade. Chegava para matar mesmo. Não queria nem saber quem era a vítima. Só importava saber onde deixaria o presunto.

Foi assim quando, a pauladas muito bem dadas, matou o Padre da cidade justificando que desta forma o velho pregador poderia ouvir mais de perto a palavra do Senhor. Ou então quando em uma noite chuvosa de verão resolveu acabar com uma família inteira sem nenhum motivo aparente. Matou o pai, a mãe e os dois filhos do casal, com requintes de crueldade nunca vistos antes.

Mas certa vez, em uma de suas carnificinas, Sebastião vacilou. Não matou como deveria. Pisou na bola e deixou provas. O vacilo custou caro e o psicopata acabou atrás da grades. Foi parar no xilindró.

E foi ali, ao lado de uma porção de malandros e bandidos das piores espécies, num lugar onde a sua índole assassina poderia piorar ainda mais, que Sebastião se encontrou na vida. Depois de algumas semanas de reclusão o safado participou do intercelas, um campeonato de futebol interno. E não só foi campeão, como também foi artilheiro e eleito o craque do torneio.

Depois do show de bola, a vida de Sebastião resolveu dar uma volta dessas que só ela sabe dar. Por obra do acaso o técnico do time da cidade esteve prestigiando a final do campeonato e ficou impressionado com a habilidade do serial killer. E através de muita conversa e táticas de suborno que todo policial rodoviário conhece, o sujeito conseguiu a liberação do craque para defender a equipe da cidade no torneio regional.

Em uma solenidade cheia de pompas no coreto de Santa Cruz do Oeste, Sebastião foi convocado para a seleção da cidade. Ganhou a camisa 10 e a faixa de capitão. Ele seria o técnico em campo.

A população se revoltou com a notícia do assassino solto por aí. Mas Sebastião logo tratou de calar a massa ao realizar, jogo após jogo, jogadas espetaculares, dribles desconcertantes, marcar golaços atrás de golaços e levar o time até a final do campeonato.

Para a alegria de Sebastião, o dia da redenção finalmente havia chegado. Aquele jogo era a chance do rei dos assassinos pagar todos os seus pecados. Mais do que isso, era a oportunidade de colocar Santa Cruz do Oeste no cenário estadual e, quem sabe, até no nacional.

Naquela tarde o estádio estava abarrotado. A cidade inteira estava ali só para ver Sebastião jogar. Até os coroinhas, ainda revoltados com a morte do Padre, torciam pelo craque. A torcida feminina exibia faixas com pedidos de casamento. A euforia de poder ver Santa Cruz do Oeste disputando o principal torneio de futebol do estado no ano seguinte era enorme.

Mas Sebastião sabia que não seria fácil. O time de São Bento das Araucárias era extremamente experiente. A equipe jogava pelo empate e os jogadores jogavam com o regulamento embaixo do braço. Sabiam o que fazer com a bola e, principalmente, sabiam que o 0x0 era um excelente resultado.

Sebastião dava tudo de si, mas o gol teimava em não sair. E quando o árbitro da partida se preparava para dar o sopro final em seu apito prateado, o ex-rei dos assassinos dominou a bola na entrada da área com a frieza que só um assassino pode ter. Com muita calma, ele driblou dois zagueiros e chutou encobrindo o goleiro. O tempo parecia andar em câmera lenta. A torcida prendeu a respiração. O grito de gol teimava em sair da garganta. Era o gol do título. O gol do acesso à divisão principal. Alguns torcedores choravam e já começavam a se abraçar.

Mas o futebol tem os seus caprichos e a bola explodiu no travessão. O árbitro imediatamente apitou o final de jogo. Ninguém acreditava no que estava vendo. Em segundos a euforia se transformou em tristeza. Na arquibancada, três torcedores morreram de infartos fulminantes. Um quarto não aguentou e também morreu, ainda na ambulância.

Sebastião, sozinho, dava um sorrisinho de canto de boca. Porque quem foi rei, nunca perde a majestade.


Escrito por Ricardo Polinesio às 16h35
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O bom e velho Andrade

Depois de muitos anos, encontraram-se no Bar de Irineu, lá no Júlio César. Foram amigos de infância, cresceram juntos, pularam muros, subiram em árvores e o escambau, mas a vida tinha tratado de separá-los por este tempo todo. E, não fossem as técnicas de reconhecimento facial aprendidas durante a passagem do Andrade pela polícia militar de Salvador, talvez esse reencontro nunca tivesse acontecido.

- Desculpa…

- Pois não?

- Eu tô te reconhecendo…Gerson?

- Sim, mas…

- Caceta, Gersão, quanto tempo…

- Desculpa…

- Ô Gersão…colé…não tá lembrado de mim?

- Andrade?

- Porra…pensei que você tinha esquecido…

- E eu ia me esquecer do velho Andrade Orelha de Abano?

- Velho?

- Ô Andrade…o tempo castigou você, hein…

- Que isso, tô inteirão…

- Inteiro careca, você quis dizer, né…

- Careca nada…ainda tem bastante cabelo por aqui…

- Só se for no sovaco.

- Não precisava dessa…

- Mas me diz, o que você tem feito? Por onde tem andado?

- Ah Gersão…depois que me casei com a Marieta…

- Peraí, você casou mesmo com a Marieta Bola de Meia?

- Claro que casei, até mandei o convite pra você…

- Pensei que era sacanagem…ninguém poderia casar com aquela sacana…

- Sacana?

- Deixa pra lá, Andrade…mas você ia dizendo…e depois do casamento? Teve filhos?

- Uma filha…uma gracinha, tem 18 anos já…olha só a foto dela…

- Uma graça mesmo…tem alguma de biquíni?

- Tô vendo que o seu senso de humor continua o mesmo, hein Gersão!

- Eu eu tô vendo que o seu senso estético também continua o mesmo…você tá uma gracinha com essa camisa rosa…

- Foi a Marieta que me deu…

- E se ela te desse um vibrador, você ia usar?

- Não gostou?

- Ô Andrade, o pessoal tá até olhando de lado…

- Desce mais uma aqui, Irineu!

- Boa Andrade…essa é por sua conta, hein!

- Como assim?

- Pelos velhos tempos, ué!

- Tá certo…

- Ô Irineu, então manda uma rodada pro pessoal na conta do Andrade!

- Que isso, Gersão?

- Ah, Andrade…são só 13 clientes…e você não vai me contrariar aqui na frente do Irineu, né?

- Tá certo…

- Andrade, Andrade…o mesmo mão de vaca de sempre

- Mas eu tô pagando!

- É, mas não queria, né…

- Não, mas…

- Porra, Andrade, a gente precisa se encontrar mais vezes, relembrar os velhos tempos…

- É só combinar…

- Lembra quando a gente ia na Fonte Nova ver o Bahia jogar?

- Ô se lembro…bons tempos aqueles! Que saudade!

- Bobô, Charles, Zé Carlos, Marquinhos, Paulo Rodrigues, Ronaldo…

- Era uma festa mesmo…estádio sempre lotado…era difícil alguém ganhar da gente lá…

- Porra, Andrade, tava pensando…porque a gente não combina de ir lá pra Feira, assistir o próximo jogo do Bahia, hein?

- Irineu, tá aqui a grana da conta. Pode ficar com o troco.

No mesmo instante Andrade levantou-se e foi embora sem nem mesmo falar tchau ou deixar pistas. Ele aturava de tudo. Menos piada de mau gosto.



P.S.: TEXTO PUBLICADO NO BLOG DO TORCEDOR DO BAHIA, DO GLOBOESPORTE.COM (http://colunas.globoesporte.com/josericardo/)


Escrito por Ricardo Polinesio às 10h04
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Amor de Mãe

Queria porque queria ser mãe. Pensava nisso o dia todo. Não conseguia dormir a noite. E quando conseguia, acordava de madrugada. Tinha desejos. E nem grávida estava. Aliás, nunca havia estado.

Mês sim, mês não, resolvia reformar o quarto do bebê. Na rua, tinha inveja daquelas mulheres que desfilavam com seus barrigões. E raiva das mães que passeavam com seus bebês. Aquele sonho de menina tinha virado obsessão.

Espantava namorados. Homem nenhum queria saber dela. A não ser os vasectomizados. Mas desses aí, era ela que não queria chegar perto. Sua vida girava em torno do bebê que não existia.

Resolveu dar para o primeiro que aparecesse. E para o segundo. E para o terceiro. E nada de engravidar. Pensou em adotar, mas não seria sangue do seu sangue. E deu para o quarto, para o quinto e para o sexto. E nenhum óvulo fecundado. Deu para o sétimo, para o oitavo, para o nono, para o décimo terceiro, para o vigésimo, para o vigésimo oitavo. E nada da barriga crescer. Pelo contrário. O exercício era tanto, que ela só emagrecia.

Catarina pegou gosto pela coisa. Passou a dar para qualquer um. Não importava se o cara era branco, negro, mulato, alto, baixo, anão, perneta ou banguela. Se era gordo, magro, vesgo, cego, surdo ou mudo. O que importava era dar.

Ser mãe deixou de ser uma obsessão. Catarina finalmente tinha descoberto que ser filha da mãe dava muito mais prazer.


Escrito por Ricardo Polinesio às 15h42
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PAUSA

- Isto é uma pausa.

- Estamos em reforma.

- Blog em manutenção.

- Estamos trabalhando para melhor atendê-lo.

- Bateu uma preguiça, sabe.

- Fui almoçar, volto logo.

- Fechado para balanço.

- Favor não atrapalhar.

- Silêncio. Homens trabalhando.

- Ao sair, apague a luz.

- Espaço reservado para o seu anúncio.

- O último a sair, tranque a porta.

- Aguarde. Dono do blog gozando seu período de férias.

- Mentira.

- Em breve, novidades.

- Quem anda, pensa.

- Sou feliz por ser pedestre.

- Hoje vou demorar um pouco mais no almoço.

- Tenho médico, vou me atrasar.

- Fica quieto que tem gente dormindo aqui.

- Engole já esse choro, menino.

- Vai pro seu quarto, pensar no que você fez.

- Me dá um copo d'água.

- Passa o sal.

- Eu não vou falar de novo, hein.

- Já mandei engolir esse choro, porra.

- Com você é só na porrada mesmo.

- Fui.

- Tranque o velho e mate.

Escrito por Ricardo Polinesio às 15h31
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Um Brinde

A mesa estava posta como há muitos anos não se via naquela casa. Desde a última comemoração do casal em Agosto de 86 (ou seria 87?), aqueles castiçais não ocupavam espaço na mesa de jantar. Muito menos as taças de cristal, os talheres de prata e até os guardanapos de linho.

Dessa vez não seria uma comemoração surpresa, como havia sido há 22 anos (ou seriam 21?). Alice havia levado meses planejando aquele jantar até finalmente conseguir escolher o cardápio, o vinho e até a trilha sonora.

Depois de passar horas no cabeleireiro se preparando para o tão aguardado momento, Alice estava deslumbrante. Até vestido novo ela tinha comprado. E graças aos inúmeros pedidos da esposa, Olavo não havia deixado por menos. Depois de um belo banho, com direito a loção pós barba e tudo, escolheu o seu melhor terno para a ocasião.

- E então Alice, qual o motivo desta comemoração?

- Hoje é uma noite especial, Olavo…

- Isso você já me falou…quero saber o motivo…

- Deixa de perguntas, querido…vamos comemorar!

- Bom, se é assim que você quer…

- O som está bom para você?

- Perfeito!

- A altura está boa?

- Pra ser sincero, eu aumentaria um pouquinho…

- Deixa comigo…

- Huuum…o cheiro da comida está uma delícia…

- Filé ao molho madeira, seu prato predileto!

- Bem que eu desconfiei…

- Você vai adorar!

- Espero que desta vez você tenha acertado…

- Dessa vez eu caprichei, querido…

- Já estou com água na boca.

- Falando nisso, aceita um gole de vinho?

- Ah, pode deixar que eu sirvo.

- Não se mexa, meu amor…hoje você é o meu convidado…

- Tudo bem…

- Ai…sua gravata!!…derrubei na sua gravata…é nova?

- Na verdade era nova sim…

- Vem cá, eu passo uma água…

- Não precisa…

- Eu faço questão…aproveito e roubo um beijo…

- Fazia anos que você não me beijava assim, Alice…

- Vamos fazer um brinde!

- Um brinde a que?

- Ao nosso casamento, querido!

- Esqueci…hoje é nosso aniversário de casamento…é isso, Alice?

- Não…nosso aniversário é só em Outubro…

- Mas então?

- Deixa de perguntas, querido…vamos comemorar!

- Bom, então, um brinde ao nosso casamento…

Depois do tilintar das taças, o casal teve um jantar dos deuses. Tudo correu muito bem. O ambiente estava perfeito, o vinho estava excelente, a comida parecia ter sido preparada por um dos melhores chefes franceses e até o papo rendeu como nunca. Eles nem pareciam mais aquele casal que mal se falava desde 86 (ou seria 87?).

Alice chegou a se entusiasmar com a possibilidade de recuperar o casamento, mas ao esboçar o primeiro sorriso percebeu que já era tarde demais. Agora, enquanto Olavo suava frio e se debatia no chão da sala de jantar, Alice chorava copiosamente. Maldita hora em que ela resolveu incluir arsênico em sua receita.


Escrito por Ricardo Polinesio às 18h27
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Elogios

Naquela manhã quando ela voltou das férias no spa, com um corpo de fazer inveja a qualquer miss ou dançarina de axé, Paulo Roberto foi curto e grosso.

- Quanto tempo, Maria Emília.

- Saudade de mim?

- Você sabe que eu não aguento ficar longe dessa sua barriguinha de chope.

- Barriga de chope é a puta que te pariu, seu saco de bosta!!!

Cheia de raiva do marido, Maria Emília não teve dúvidas: pegou o carro e foi direto para o cabeleireiro. Ao voltar para casa, toda cheia de si com o novo visual, Paulo Roberto não deixou por menos.

- Cortou o cabelo, é?

- Não acredito, você resparou!!!

- O que aconteceu, o cabeleireiro tava bêbado?

- Seu viado imbecil…vá se foder!

Já era tarde, quase noite e ela foi se arrumar. Resolveu deixar os insultos de lado e se produziu toda, afinal, estavam comemorando o primeiro aniversário de casamento. Mas ao botar os pés para fora do quarto com o vestido novo, Paulo Roberto a olhou dos pés à cabeça e não titubeou.

- Huuum…

- Que foi, Paulo Roberto?

- Esse vestido…

- É novo, gostou?

- O vestido é até bonitinho…o conteúdo é que não ajuda.

- Vai tomar no olho do seu cu, corno filho da puta.

Voltaram para casa e foram para a cama. Paulo Roberto se deitou e antes de ligar a TV, olhou para a esposa. A imagem que viu foi a de sua amada com um baby-doll vermelho semi transparente. Ele então respirou fundo e soltou o verbo.

- Que roupa é essa?

- É pra você, amor.

- Ficaria mais sexy no botijão de gás.

- Seu merda. Viado. Filho da puta. Cuzão. Pau no cu do caralho!! Vá se foder, porra!!!

A partir daí, foi sexo a noite inteira. Com direito a cama quebrada, reclamação dos vizinhos e lençol lambuzado de mel e creme de chantilly. Paulo Roberto era assim mesmo: adorava palavrão em boca de mulher.


Escrito por Ricardo Polinesio às 15h04
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SPORT

Esse texto é só pra lembrar que o Corinthians se fodeu mais uma vez. CHUPA GALINHADA!!!!

Escrito por Ricardo Polinesio às 00h20
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Crise de Consciência

Nessa vida todo mundo tem um tipo diferente de tara. É normal. É natural. Chega a ser saudável. E é assim desde que o mundo se conhece por mundo. Desde o tempo em que se amarrava cachorro com linguiça. Desde quando o Durval ainda sonhava em namorar com a Ritinha e o tio Ernesto ainda era um garotinho traquinas.

E tem tara para todos os gostos. O Alberto, por exemplo, só de ver uma moça descalçando os sapatos, ficava louco, parecia um cachorro quando sente o cheiro de uma cadela no cio. Já o Henrique, não resistia a uma mulher de vestido vermelho e o ponto fraco do André eram os cotovelos femininos. Bastava uma moçoila arregaçar levemente as mangas da camisa, que o rapaz precisava sair correndo para o banheiro.

Mas o caso do Evandro era diferente. Evandro tinha tara por mulheres casadas. Ele não podia ver uma aliança na mão esquerda de uma mulher, que já começava a preparar suas melhores cantadas. Galanteador que era, invariavelmente levava uma delas para cama.

O problema era que quando tudo parecia dar certo, o coitado tinha crises de consciência, começava a pensar no infeliz do marido chifrudo e não conseguia finalizar os trabalhos. A emoção diminuia e só restava a ele assistir as despedidas decepcionadas de todas as suas conquistas.

Essa tara já estava virando um trauma na vida de Evandro quando depois de mais uma triste noite de amor, ele caminhava lentamente pelo submundo paulistano e uma luz iluminou o seu caminho. O que parecia ser o farol de um caminhão vindo em sua direção era na verdade o surgimento de uma grande idéia.

Evandro então tratou de se animar e, sem nem mesmo tomar um banho, entrou no bar mais próximo. Tomou um trago enquanto observava todas as mulheres do local até se deparar com uma reluzente aliança. Aquele brilho mexeu com os seus sentidos e o rapaz não resistiu. Usou sua melhor cantada e não demorou muito para convencer a moça a sair dali.

Já na cama, quando começou a pensar em pensar no coitado do marido chifrudo, Evandro arrumou um jeito de dar um basta naquilo.

- Pára tudo!

- O que?

- Pára tudo, ué. Não entendeu? Falei grego?

- Mas logo agora? O que aconteceu?

- Tira a aliança.

- Que?

- Isso mesmo, tira essa aliança…

- Mas…

- Não tem mais nem menos…tira a aliança, eu não consigo me concentrar com esse brilho no meu olho…

Consumida por um tesão indescritível a moça acabou a discussão ali mesmo e tratou de tirar, o mais rápido possível, aquela pequena argola de ouro do seu dedo para poder continuar com aquela safadeza.

Com isso, Evandro finalmente conseguiu manter a cabeça erguida e mandar para longe aquela crise de consciência que já ameaçava aparecer para atrapalhar mais uma de suas noites de amor.

E teria sido mesmo uma noite perfeita, não fosse o fato de, entre mordidas, tapinhas e gemidos, Evandro ter tido a infeliz idéia de abrir os olhos para gravar aquele momento histórico. Porque ao olhar para a mão esquerda da mulher, não viu nem sinal daquele brilho reluzente que o tinha enfeitiçado ainda no bar. O tesão sumiu instantaneamente e Evandro brochou na hora. Antes tivesse ficado com o prazeroso peso na consciência de sempre.


Escrito por Ricardo Polinesio às 15h45
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Solução

Depois de um tropicão na porta da escola, Edgar mordeu sua língua com tamanha violência que o sangue sujou sua camisa novinha e os detalhes em branco acabaram ganhando tons avermelhados. Mas apesar da dor, do sofrimento e, principalmente, da vergonha do pobre coitado, o que mais chamou atenção de seus coleguinhas depois do mísero acidente foi o fato de Edgar, ainda aos 12 anos de idade, ter começado a soluçar sem parar.

Quando uma preocupada Dona Rosália levou seu filho ao médico depois de três dias de intermináveis soluços que não deixavam ninguém em casa dormir, o menino descobriu que o problema era mais grave do que parecia. Aparentemente, uma complicação no diafragma ocorrida logo após ao tropicão que o deixou vermelho de vergonha e de sangue, era a causa daquele soluço dos diabos.

Insatisfeita com a resposta do doutor, Dona Rosália não teve dúvidas: ligou para as vizinhas. E foram anos e mais anos de um tal de beber água de cabeça para baixo, dar três golinhos de água sem respirar, dormir com palitos de fósforos atrás da orelha, forçar arrotos cada vez mais demorados, pular e cantar ao mesmo tempo “O Dia em que a Terra Parou”, de Raul Seixas, e até passar dias inteiros tapando os ouvidos com as mãos. Mas no fim das contas, os anos passaram e nenhuma dessas simpatias milagrosas funcionou.

O menino virou homem e ainda na faculdade os amigos preparavam armadilhas incríveis para dar um susto em Edgar. Mas, valente que era, o rapaz não se assustava com nada e o soluço insitia em continuar. Já mais velho, no trabalho, foram tantas as tramóias que seus colegas preparavam que chegaram até a inventar uma demissão para ver se finalmente davam um susto no infeliz. Obviamente, Edgar não deu a menor bola. Nem a morte de sua mãe, depois de um atropelamento traumático para a família toda fez com que o soluço sumisse.

O tempo passou, Edgar se casou, teve filhos, netos e, às vésperas de completar 80 anos de idade, o soluço insistia em sair de sua garganta. A data importante fez com que sua senhora preparasse uma festa surpresa para ele.

Como surpresa pouca era bobagem, a velha chamou até o pessoal do Guiness para homologar o novo recorde mundial que Edgar estava prestes a roubar do americano Charles Osborne, que chegou a passar 68 anos de sua vida ingrata sem parar de soluçar. Até a imprensa local foi chamada para cobrir o evento tão importante. A vizinhança ficou em polvorosa.

No data da tão esperada surpresa, Edgar, como fazia todas as tardes, passou na padaria e tomou um trago com seus colegas. Deu seus inconfundíveis soluços a cada 45 segundos contados no relógio e foi para casa levando 6 pãezinhos ainda quentes.

Mas ao entrar em casa, o susto foi tão grande com a confusão que a imprensa e o pessoal do Guiness havia armado em seu lar doce lar, que Edgar parou de soluçar instantaneamente. Os aplausous da vizinhança viraram suspiros e Charles Osborne manteve o seu incrível recorde mundial.

Pior do que isso, só o infarte que atacou o coração do pobre Edgar. E já que o pessoal do Guiness estava lá pra homologar algum recorde, invetaram na hora uma nova categoria e lá se foi o senhor Edgar Cardoso de Almeida parar nas páginas do livro: infarte mais fulminante da história da humanidade.


Escrito por Ricardo Polinesio às 15h37
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Bagunça

Depois de quase 20 anos de casada e cansada daquela bagunça em que sua casa havia se transformado, decidiu arrumar as coisas do marido. Tirou o dia de folga no serviço, colocou um lenço na cabeça, um avental na cintura e teve o seu dia de princesa ao contrário.

Mais tarde, cansado do dia estafante de trabalho, o marido chegou em casa e se deparou com a esposa ainda com trajes de doméstica e uma fisionomia nada excitante.

- Que porra é essa, Camila? O que você tá fazendo vestida assim?

- Tô terminando de arrumar a casa, Danilo…

- Que eu me lembre, é pra isso que a gente paga aquela faxineira…

- Você gostaria que ela mexesse nas suas coisas do quartinho?

- Não…peraí, você não mexeu no quartinho…

- Claro que mexi…aquilo lá tava uma zona…limpei tudo!

- Camila, aquilo lá são as MINHAS coisas!

- As suas coisas na NOSSA casa, Danilo!

- Mas você nunca entrou ali…

- Claro, era tanta bagunça que eu não tinha espaço nem para pisar lá dentro…

- Você não tá querendo dizer que…

- Isso mesmo, joguei todo o lixo fora!

Sem ouvir mais nada do que a esposa tinha para dizer, Danilo foi correndo até o quartinho onde ele guardava todas as suas recordações. Durante os poucos passos que separavam a sala do quartinho, sua vida inteira passou pela cabeça. Ao abrir a porta, Danilo se deparou com uma cena jamais imaginada: o quartinho estava em perfeita organização. Nada no chão, tudo limpo e todas as portas dos armários fechadas.

- Eu não tô acreditando no que eu tô vendo…

- Não ficou o máximo, amor?

- O máximo?? Cadê minha coleção de tampinhas, Camila?

- Coleção? Você chamava aquilo de coleção?

- Como assim, “chamava”?

- Era ferrugem pura, amor…imagina se você se corta com aquilo!

- Aquilo era a minha história! Era uma parte da minha vida, que você fez o favor de destruir…

- Não fala assim…fiz isso pensando no seu bem…

- Peraí…não tô vendo minhas revistas de carro…não vai me dizer que você também…

- Doei para aquele mendigo que passa aqui recolhendo o jornal!

- Não pode ser! Minha juventude toda estava ali!

- Você nem lia aquele monte de notícia velha…e o mendigo ainda vai ganhar uma boa grana com aquele monte de papel…

- Você não entende, Camila…

- Não mesmo…aliás, aquela bagunça que era isso aqui realmente não dá pra entender…

- Não é possível…

- Eu tive um trabalhão, viu! Até lavei suas camisas de futebol…sabia que tinha uma toda rabiscada?

- Não! A camisa com o autógrafo da seleção de 70, não!!

- Que?

- Cadê, Camila? Cadê minha camisa?

- Aqui nesse armário, ó! Novinha em folha!

- Os autógrafos sumiram…

- Não ficou linda, amor? Sente o cheirinho do alvejante…

- Eu suei tanto para conseguir esses autógrafos…

- Ah, deve ter suado mesmo, porque ela tava com um cheiro horrível…

- Não é possivel…não é possível!

- Pára com isso, amor…parece até vitrola quebrada…

- Falando nisso, não tô vendo os meus discos…

- E nem vai ver mesmo…joguei tudo fora pra você…

- Eram as minhas músicas, Camila!

- Eu gravo um CD pra você, com as músicas que você quiser…escrevo uma dedicatória e tudo!

- E meus carrinhos?

- Doei tudo pro orfanato! Você precisava ver o sorriso daquelas crianças…

- Você jogou minha vida no lixo, Camila!

- Não, não, não…eu arrumei e limpei tudo, é bem diferente.

- Não é possível…

- Ah, fala a verdade, vai…o quartinho não ficou um brinco? Peraí amor…onde você vai?

- Preciso de uma cerveja.

- Mas você não bebe, Danilo!

- Vou começar agora!

A porta bateu e lá foi ele em direção ao boteco. Sem entender direito aquela reação, Camila preparou o jantar, colocou a mesa e até acendeu velas para tentar animar um pouco o que sobrava do marido. Mas apesar de todo aquele cuidado, a mulher ficou a ver navios. Danilo nunca mais voltou. Tinha saído para recomeçar a sua vida.


Escrito por Ricardo Polinesio às 16h40
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Inseparáveis

Desde pequenas as duas estavam sempre juntas. Onde a Marcela ia, lá estava a Mariana. No carrossel dava briga para saber quem ia sentar no cavalinho rosa e quem ficaria com o azul. No escorregador, a briga era pra saber quem descia na frente. E no jogo das argolas, pra saber quem lançaria a argola primeiro. Mas apesar das brigas, as duas eram inseparáveis.

- Marcela, vai pro banho!

Lá iam as duas pro banheiro.

- Mariana, arruma sua cama, menina!

E lá estava a Marcela ajudando com o trabalho pesado. Não havia o que separasse as duas. Eram como unha e carne.

Na escola a professora tinha dificuldades para não deixar as duas colarem. Na fila da cantina sempre tinha alguém reclamando que uma das duas estavam furando fila. E nas aulas de educação física, o time delas sempre jogava com uma atleta a mais.

O tempo passou, Marcela e Mariana cresceram e veio a primeira menstruação. Claro, no mesmo dia. Começaram a crescer os peitinhos e o corpo das meninas começava a ganhar formas do corpo de uma mulher. E que mulher.

Como todos os alunos do colégio, as duas também fizeram cursinho para entrar na faculdade. Escolheram o mesmo curso e estudaram muito, sempre juntas. Quando saíram as primeiras listas de aprovados, os gritos vindo da casa delas eram muito mais altos. Afinal, de tanto estudar as mesmas matérias incansavelmente, as duas fizeram a mesma pontuação na prova do vestibular. Foram aprovadas com louvor, em primeiro lugar.

Dona Adriana, a mãe das meninas, quase teve um treco quando ficou sabendo que a faculdade era em outra cidade. Refeita do susto, não teve dúvidas: alugou um apartamento perto do campus para que as filhas dividissem.

Passada a fase dos trotes, veio a primeira festa universitária que elas participariam. Seria na casa do Albertinho, aquele veterano que as duas morriam de amores. Marcela e Mariana se produziram, passaram batom, fizeram maquiagem, colocaram um vestido provocante e foram para a festa.

Experiente, o rapaz aproveitou o descuido de Mariana, que dormia no sofá ao lado da irmã depois de beber mais que o devido, e deu logo um beijo na outra. No meio de todo aquele romantismo, mão aqui, mão ali, a menina que parecia desmaiada acordou. Aquilo não poderia ser verdade. A irmã não poderia ser tão insensível com o seu pobre coração apaixonada. Mariana então não teve dúvidas: partiu para a ignorância.

Aí foi soco, chute, tapa e pontapé para tudo quanto é lado. Puxa cabelo daqui, morde dali e quando se viu, as duas estavam praticamente nuas. O Albertinho até tentou separar, mas viu que seria impossível. E depois de tanto apanhar no meio daquela terrível briga das duas irmãs, ele teve a certeza de que nunca mais tentaria namorar uma gêmea siamesa.


Escrito por Ricardo Polinesio às 16h54
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Karaokê

O trabalho aqui na agência tá grande e tô meio sem tempo de parar e pensar em algum texto novo. Pra isso aqui não ficar totalmente morto, vou republicar um texto antigo. Se você ja leu, deixa de ser preguiçoso e releia. Se ainda não leu, divirta-se. Espero que na semana que vem possa ter novidades por aqui. Lá vai.




Ele era um cara estranho. E como todo cara estranho, ninguém entendia muito bem o que ele queria da vida. Fazia faculdade, natação e corria no parque. Até alguns amigos ele tinha. Ninguém muito próximo, mas alguns colegas de sala, que faziam trabalhos em grupo. Sempre negava os convites para as festas da faculdade, mas para os pais, dizia que era o cara mais popular da sala. Por isso vivia saindo, todas as noites.

Ela era uma japonesinha típica. Pequenina, tímida, discreta e de poucas palavras. Chegava até a ser estranha, de tão pouco que falava. Morava com os pais, os irmãos e os avós em uma casa que fazia fundos para uma loja de bugigangas, o ganha pão da família. Seu pai, muito rígido, não gostava que ela saísse a noite. Mas ela, sorrateiramente, conseguia escapar todas as noites, sem deixar vestígios.

Mesmo sem se conhecer, os dois tinham uma paixão em comum: a música. Mais do que isso, os dois sonhavam em ser cantores. E, estranhos que eram, frequentavam todos os karaokês da Liberdade. Um a cada noite. Mas ficavam ali, observando, aplaudindo e criando coragem para um dia, quem sabe, soltar a voz. Mas apesar dessa coincidência de gostos (e claro, devido à grande quantidade de karaokês na Liberdade), eles nunca haviam se encontrado.

Até que uma noite ambos entraram no mesmo karaokê. Ele inteiro de preto, com uma mochila nas costas e, como sempre, apreensivo. Ela de calça jeans e uma blusa larga, bolsa debaixo do braço e cara de assustada, por ter mais uma vez saído fugida de casa. Sentaram em mesas distantes, uma de cada lado do palco.

Ele nem reparou, mas ela não conseguia tirar os olhos daquele cara misterioso e sozinho, que cantava todas as músicas como se fosse o compositor de cada uma delas. Ela decidiu que precisaria chamar atenção do rapaz, mas não sabia como. Resolveu cantar, mas não tinha coragem de enfrentar os olhares do público e, principalmente, do rapaz misterioso. Chamou o garçom, pediu uma caipirinha. Com um pouco de bebida na cabeça, talvez criasse coragem. Pediu mais uma caipirinha. E mais outra.

Já no final da noite, escolheu a música, criou coragem e foi até o palco. Sem medo de nada, ofereceu a música ao rapaz de preto e começou a cantar. Até que começou bem, mas aos poucos foi esquecendo a letra, errando as notas e começando a gaguejar. As poucas pessoas que acompanhavam o espetaculo, começaram então, a vaiar. Quando ela já estava morrendo de vergonha, as vaias foram interrompidas pelo barulho de um tiro, que acertou em cheio a cabeça da moça.

Antes de ser levado ao camburão, ainda escutaram ele dizer: “Se o grande Tim Maia era obrigado a ouvir aqulio se revirando no túmulo, ela também era obrigada a ir até ele e pedir desculpas”.


Escrito por Ricardo Polinesio às 10h49
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