Um Brinde
A mesa estava posta como há muitos anos não se via naquela casa. Desde a última comemoração do casal em Agosto de 86 (ou seria 87?), aqueles castiçais não ocupavam espaço na mesa de jantar. Muito menos as taças de cristal, os talheres de prata e até os guardanapos de linho.
Dessa vez não seria uma comemoração surpresa, como havia sido há 22 anos (ou seriam 21?). Alice havia levado meses planejando aquele jantar até finalmente conseguir escolher o cardápio, o vinho e até a trilha sonora.
Depois de passar horas no cabeleireiro se preparando para o tão aguardado momento, Alice estava deslumbrante. Até vestido novo ela tinha comprado. E graças aos inúmeros pedidos da esposa, Olavo não havia deixado por menos. Depois de um belo banho, com direito a loção pós barba e tudo, escolheu o seu melhor terno para a ocasião.
- E então Alice, qual o motivo desta comemoração?
- Hoje é uma noite especial, Olavo…
- Isso você já me falou…quero saber o motivo…
- Deixa de perguntas, querido…vamos comemorar!
- Bom, se é assim que você quer…
- O som está bom para você?
- Perfeito!
- A altura está boa?
- Pra ser sincero, eu aumentaria um pouquinho…
- Deixa comigo…
- Huuum…o cheiro da comida está uma delícia…
- Filé ao molho madeira, seu prato predileto!
- Bem que eu desconfiei…
- Você vai adorar!
- Espero que desta vez você tenha acertado…
- Dessa vez eu caprichei, querido…
- Já estou com água na boca.
- Falando nisso, aceita um gole de vinho?
- Ah, pode deixar que eu sirvo.
- Não se mexa, meu amor…hoje você é o meu convidado…
- Tudo bem…
- Ai…sua gravata!!…derrubei na sua gravata…é nova?
- Na verdade era nova sim…
- Vem cá, eu passo uma água…
- Não precisa…
- Eu faço questão…aproveito e roubo um beijo…
- Fazia anos que você não me beijava assim, Alice…
- Vamos fazer um brinde!
- Um brinde a que?
- Ao nosso casamento, querido!
- Esqueci…hoje é nosso aniversário de casamento…é isso, Alice?
- Não…nosso aniversário é só em Outubro…
- Mas então?
- Deixa de perguntas, querido…vamos comemorar!
- Bom, então, um brinde ao nosso casamento…
Depois do tilintar das taças, o casal teve um jantar dos deuses. Tudo correu muito bem. O ambiente estava perfeito, o vinho estava excelente, a comida parecia ter sido preparada por um dos melhores chefes franceses e até o papo rendeu como nunca. Eles nem pareciam mais aquele casal que mal se falava desde 86 (ou seria 87?).
Alice chegou a se entusiasmar com a possibilidade de recuperar o casamento, mas ao esboçar o primeiro sorriso percebeu que já era tarde demais. Agora, enquanto Olavo suava frio e se debatia no chão da sala de jantar, Alice chorava copiosamente. Maldita hora em que ela resolveu incluir arsênico em sua receita.
Escrito por Ricardo Polinesio às 18h27
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Elogios
Naquela manhã quando ela voltou das férias no spa, com um corpo de fazer inveja a qualquer miss ou dançarina de axé, Paulo Roberto foi curto e grosso.
- Quanto tempo, Maria Emília.
- Saudade de mim?
- Você sabe que eu não aguento ficar longe dessa sua barriguinha de chope.
- Barriga de chope é a puta que te pariu, seu saco de bosta!!!
Cheia de raiva do marido, Maria Emília não teve dúvidas: pegou o carro e foi direto para o cabeleireiro. Ao voltar para casa, toda cheia de si com o novo visual, Paulo Roberto não deixou por menos.
- Cortou o cabelo, é?
- Não acredito, você resparou!!!
- O que aconteceu, o cabeleireiro tava bêbado?
- Seu viado imbecil…vá se foder!
Já era tarde, quase noite e ela foi se arrumar. Resolveu deixar os insultos de lado e se produziu toda, afinal, estavam comemorando o primeiro aniversário de casamento. Mas ao botar os pés para fora do quarto com o vestido novo, Paulo Roberto a olhou dos pés à cabeça e não titubeou.
- Huuum…
- Que foi, Paulo Roberto?
- Esse vestido…
- É novo, gostou?
- O vestido é até bonitinho…o conteúdo é que não ajuda.
- Vai tomar no olho do seu cu, corno filho da puta.
Voltaram para casa e foram para a cama. Paulo Roberto se deitou e antes de ligar a TV, olhou para a esposa. A imagem que viu foi a de sua amada com um baby-doll vermelho semi transparente. Ele então respirou fundo e soltou o verbo.
- Que roupa é essa?
- É pra você, amor.
- Ficaria mais sexy no botijão de gás.
- Seu merda. Viado. Filho da puta. Cuzão. Pau no cu do caralho!! Vá se foder, porra!!!
A partir daí, foi sexo a noite inteira. Com direito a cama quebrada, reclamação dos vizinhos e lençol lambuzado de mel e creme de chantilly. Paulo Roberto era assim mesmo: adorava palavrão em boca de mulher.
Escrito por Ricardo Polinesio às 15h04
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SPORT
Esse texto é só pra lembrar que o Corinthians se fodeu mais uma vez. CHUPA GALINHADA!!!!
Escrito por Ricardo Polinesio às 00h20
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Crise de Consciência
Nessa vida todo mundo tem um tipo diferente de tara. É normal. É natural. Chega a ser saudável. E é assim desde que o mundo se conhece por mundo. Desde o tempo em que se amarrava cachorro com linguiça. Desde quando o Durval ainda sonhava em namorar com a Ritinha e o tio Ernesto ainda era um garotinho traquinas.
E tem tara para todos os gostos. O Alberto, por exemplo, só de ver uma moça descalçando os sapatos, ficava louco, parecia um cachorro quando sente o cheiro de uma cadela no cio. Já o Henrique, não resistia a uma mulher de vestido vermelho e o ponto fraco do André eram os cotovelos femininos. Bastava uma moçoila arregaçar levemente as mangas da camisa, que o rapaz precisava sair correndo para o banheiro.
Mas o caso do Evandro era diferente. Evandro tinha tara por mulheres casadas. Ele não podia ver uma aliança na mão esquerda de uma mulher, que já começava a preparar suas melhores cantadas. Galanteador que era, invariavelmente levava uma delas para cama.
O problema era que quando tudo parecia dar certo, o coitado tinha crises de consciência, começava a pensar no infeliz do marido chifrudo e não conseguia finalizar os trabalhos. A emoção diminuia e só restava a ele assistir as despedidas decepcionadas de todas as suas conquistas.
Essa tara já estava virando um trauma na vida de Evandro quando depois de mais uma triste noite de amor, ele caminhava lentamente pelo submundo paulistano e uma luz iluminou o seu caminho. O que parecia ser o farol de um caminhão vindo em sua direção era na verdade o surgimento de uma grande idéia.
Evandro então tratou de se animar e, sem nem mesmo tomar um banho, entrou no bar mais próximo. Tomou um trago enquanto observava todas as mulheres do local até se deparar com uma reluzente aliança. Aquele brilho mexeu com os seus sentidos e o rapaz não resistiu. Usou sua melhor cantada e não demorou muito para convencer a moça a sair dali.
Já na cama, quando começou a pensar em pensar no coitado do marido chifrudo, Evandro arrumou um jeito de dar um basta naquilo.
- Pára tudo!
- O que?
- Pára tudo, ué. Não entendeu? Falei grego?
- Mas logo agora? O que aconteceu?
- Tira a aliança.
- Que?
- Isso mesmo, tira essa aliança…
- Mas…
- Não tem mais nem menos…tira a aliança, eu não consigo me concentrar com esse brilho no meu olho…
Consumida por um tesão indescritível a moça acabou a discussão ali mesmo e tratou de tirar, o mais rápido possível, aquela pequena argola de ouro do seu dedo para poder continuar com aquela safadeza.
Com isso, Evandro finalmente conseguiu manter a cabeça erguida e mandar para longe aquela crise de consciência que já ameaçava aparecer para atrapalhar mais uma de suas noites de amor.
E teria sido mesmo uma noite perfeita, não fosse o fato de, entre mordidas, tapinhas e gemidos, Evandro ter tido a infeliz idéia de abrir os olhos para gravar aquele momento histórico. Porque ao olhar para a mão esquerda da mulher, não viu nem sinal daquele brilho reluzente que o tinha enfeitiçado ainda no bar. O tesão sumiu instantaneamente e Evandro brochou na hora. Antes tivesse ficado com o prazeroso peso na consciência de sempre.
Escrito por Ricardo Polinesio às 15h45
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Solução
Depois de um tropicão na porta da escola, Edgar mordeu sua língua com tamanha violência que o sangue sujou sua camisa novinha e os detalhes em branco acabaram ganhando tons avermelhados. Mas apesar da dor, do sofrimento e, principalmente, da vergonha do pobre coitado, o que mais chamou atenção de seus coleguinhas depois do mísero acidente foi o fato de Edgar, ainda aos 12 anos de idade, ter começado a soluçar sem parar.
Quando uma preocupada Dona Rosália levou seu filho ao médico depois de três dias de intermináveis soluços que não deixavam ninguém em casa dormir, o menino descobriu que o problema era mais grave do que parecia. Aparentemente, uma complicação no diafragma ocorrida logo após ao tropicão que o deixou vermelho de vergonha e de sangue, era a causa daquele soluço dos diabos.
Insatisfeita com a resposta do doutor, Dona Rosália não teve dúvidas: ligou para as vizinhas. E foram anos e mais anos de um tal de beber água de cabeça para baixo, dar três golinhos de água sem respirar, dormir com palitos de fósforos atrás da orelha, forçar arrotos cada vez mais demorados, pular e cantar ao mesmo tempo “O Dia em que a Terra Parou”, de Raul Seixas, e até passar dias inteiros tapando os ouvidos com as mãos. Mas no fim das contas, os anos passaram e nenhuma dessas simpatias milagrosas funcionou.
O menino virou homem e ainda na faculdade os amigos preparavam armadilhas incríveis para dar um susto em Edgar. Mas, valente que era, o rapaz não se assustava com nada e o soluço insitia em continuar. Já mais velho, no trabalho, foram tantas as tramóias que seus colegas preparavam que chegaram até a inventar uma demissão para ver se finalmente davam um susto no infeliz. Obviamente, Edgar não deu a menor bola. Nem a morte de sua mãe, depois de um atropelamento traumático para a família toda fez com que o soluço sumisse.
O tempo passou, Edgar se casou, teve filhos, netos e, às vésperas de completar 80 anos de idade, o soluço insistia em sair de sua garganta. A data importante fez com que sua senhora preparasse uma festa surpresa para ele.
Como surpresa pouca era bobagem, a velha chamou até o pessoal do Guiness para homologar o novo recorde mundial que Edgar estava prestes a roubar do americano Charles Osborne, que chegou a passar 68 anos de sua vida ingrata sem parar de soluçar. Até a imprensa local foi chamada para cobrir o evento tão importante. A vizinhança ficou em polvorosa.
No data da tão esperada surpresa, Edgar, como fazia todas as tardes, passou na padaria e tomou um trago com seus colegas. Deu seus inconfundíveis soluços a cada 45 segundos contados no relógio e foi para casa levando 6 pãezinhos ainda quentes.
Mas ao entrar em casa, o susto foi tão grande com a confusão que a imprensa e o pessoal do Guiness havia armado em seu lar doce lar, que Edgar parou de soluçar instantaneamente. Os aplausous da vizinhança viraram suspiros e Charles Osborne manteve o seu incrível recorde mundial.
Pior do que isso, só o infarte que atacou o coração do pobre Edgar. E já que o pessoal do Guiness estava lá pra homologar algum recorde, invetaram na hora uma nova categoria e lá se foi o senhor Edgar Cardoso de Almeida parar nas páginas do livro: infarte mais fulminante da história da humanidade.
Escrito por Ricardo Polinesio às 15h37
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Bagunça
Depois de quase 20 anos de casada e cansada daquela bagunça em que sua casa havia se transformado, decidiu arrumar as coisas do marido. Tirou o dia de folga no serviço, colocou um lenço na cabeça, um avental na cintura e teve o seu dia de princesa ao contrário.
Mais tarde, cansado do dia estafante de trabalho, o marido chegou em casa e se deparou com a esposa ainda com trajes de doméstica e uma fisionomia nada excitante.
- Que porra é essa, Camila? O que você tá fazendo vestida assim?
- Tô terminando de arrumar a casa, Danilo…
- Que eu me lembre, é pra isso que a gente paga aquela faxineira…
- Você gostaria que ela mexesse nas suas coisas do quartinho?
- Não…peraí, você não mexeu no quartinho…
- Claro que mexi…aquilo lá tava uma zona…limpei tudo!
- Camila, aquilo lá são as MINHAS coisas!
- As suas coisas na NOSSA casa, Danilo!
- Mas você nunca entrou ali…
- Claro, era tanta bagunça que eu não tinha espaço nem para pisar lá dentro…
- Você não tá querendo dizer que…
- Isso mesmo, joguei todo o lixo fora!
Sem ouvir mais nada do que a esposa tinha para dizer, Danilo foi correndo até o quartinho onde ele guardava todas as suas recordações. Durante os poucos passos que separavam a sala do quartinho, sua vida inteira passou pela cabeça. Ao abrir a porta, Danilo se deparou com uma cena jamais imaginada: o quartinho estava em perfeita organização. Nada no chão, tudo limpo e todas as portas dos armários fechadas.
- Eu não tô acreditando no que eu tô vendo…
- Não ficou o máximo, amor?
- O máximo?? Cadê minha coleção de tampinhas, Camila?
- Coleção? Você chamava aquilo de coleção?
- Como assim, “chamava”?
- Era ferrugem pura, amor…imagina se você se corta com aquilo!
- Aquilo era a minha história! Era uma parte da minha vida, que você fez o favor de destruir…
- Não fala assim…fiz isso pensando no seu bem…
- Peraí…não tô vendo minhas revistas de carro…não vai me dizer que você também…
- Doei para aquele mendigo que passa aqui recolhendo o jornal!
- Não pode ser! Minha juventude toda estava ali!
- Você nem lia aquele monte de notícia velha…e o mendigo ainda vai ganhar uma boa grana com aquele monte de papel…
- Você não entende, Camila…
- Não mesmo…aliás, aquela bagunça que era isso aqui realmente não dá pra entender…
- Não é possível…
- Eu tive um trabalhão, viu! Até lavei suas camisas de futebol…sabia que tinha uma toda rabiscada?
- Não! A camisa com o autógrafo da seleção de 70, não!!
- Que?
- Cadê, Camila? Cadê minha camisa?
- Aqui nesse armário, ó! Novinha em folha!
- Os autógrafos sumiram…
- Não ficou linda, amor? Sente o cheirinho do alvejante…
- Eu suei tanto para conseguir esses autógrafos…
- Ah, deve ter suado mesmo, porque ela tava com um cheiro horrível…
- Não é possivel…não é possível!
- Pára com isso, amor…parece até vitrola quebrada…
- Falando nisso, não tô vendo os meus discos…
- E nem vai ver mesmo…joguei tudo fora pra você…
- Eram as minhas músicas, Camila!
- Eu gravo um CD pra você, com as músicas que você quiser…escrevo uma dedicatória e tudo!
- E meus carrinhos?
- Doei tudo pro orfanato! Você precisava ver o sorriso daquelas crianças…
- Você jogou minha vida no lixo, Camila!
- Não, não, não…eu arrumei e limpei tudo, é bem diferente.
- Não é possível…
- Ah, fala a verdade, vai…o quartinho não ficou um brinco? Peraí amor…onde você vai?
- Preciso de uma cerveja.
- Mas você não bebe, Danilo!
- Vou começar agora!
A porta bateu e lá foi ele em direção ao boteco. Sem entender direito aquela reação, Camila preparou o jantar, colocou a mesa e até acendeu velas para tentar animar um pouco o que sobrava do marido. Mas apesar de todo aquele cuidado, a mulher ficou a ver navios. Danilo nunca mais voltou. Tinha saído para recomeçar a sua vida.
Escrito por Ricardo Polinesio às 16h40
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Inseparáveis
Desde pequenas as duas estavam sempre juntas. Onde a Marcela ia, lá estava a Mariana. No carrossel dava briga para saber quem ia sentar no cavalinho rosa e quem ficaria com o azul. No escorregador, a briga era pra saber quem descia na frente. E no jogo das argolas, pra saber quem lançaria a argola primeiro. Mas apesar das brigas, as duas eram inseparáveis.
- Marcela, vai pro banho!
Lá iam as duas pro banheiro.
- Mariana, arruma sua cama, menina!
E lá estava a Marcela ajudando com o trabalho pesado. Não havia o que separasse as duas. Eram como unha e carne.
Na escola a professora tinha dificuldades para não deixar as duas colarem. Na fila da cantina sempre tinha alguém reclamando que uma das duas estavam furando fila. E nas aulas de educação física, o time delas sempre jogava com uma atleta a mais.
O tempo passou, Marcela e Mariana cresceram e veio a primeira menstruação. Claro, no mesmo dia. Começaram a crescer os peitinhos e o corpo das meninas começava a ganhar formas do corpo de uma mulher. E que mulher.
Como todos os alunos do colégio, as duas também fizeram cursinho para entrar na faculdade. Escolheram o mesmo curso e estudaram muito, sempre juntas. Quando saíram as primeiras listas de aprovados, os gritos vindo da casa delas eram muito mais altos. Afinal, de tanto estudar as mesmas matérias incansavelmente, as duas fizeram a mesma pontuação na prova do vestibular. Foram aprovadas com louvor, em primeiro lugar.
Dona Adriana, a mãe das meninas, quase teve um treco quando ficou sabendo que a faculdade era em outra cidade. Refeita do susto, não teve dúvidas: alugou um apartamento perto do campus para que as filhas dividissem.
Passada a fase dos trotes, veio a primeira festa universitária que elas participariam. Seria na casa do Albertinho, aquele veterano que as duas morriam de amores. Marcela e Mariana se produziram, passaram batom, fizeram maquiagem, colocaram um vestido provocante e foram para a festa.
Experiente, o rapaz aproveitou o descuido de Mariana, que dormia no sofá ao lado da irmã depois de beber mais que o devido, e deu logo um beijo na outra. No meio de todo aquele romantismo, mão aqui, mão ali, a menina que parecia desmaiada acordou. Aquilo não poderia ser verdade. A irmã não poderia ser tão insensível com o seu pobre coração apaixonada. Mariana então não teve dúvidas: partiu para a ignorância.
Aí foi soco, chute, tapa e pontapé para tudo quanto é lado. Puxa cabelo daqui, morde dali e quando se viu, as duas estavam praticamente nuas. O Albertinho até tentou separar, mas viu que seria impossível. E depois de tanto apanhar no meio daquela terrível briga das duas irmãs, ele teve a certeza de que nunca mais tentaria namorar uma gêmea siamesa.
Escrito por Ricardo Polinesio às 16h54
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Karaokê
O trabalho aqui na agência tá grande e tô meio sem tempo de parar e pensar em algum texto novo. Pra isso aqui não ficar totalmente morto, vou republicar um texto antigo. Se você ja leu, deixa de ser preguiçoso e releia. Se ainda não leu, divirta-se. Espero que na semana que vem possa ter novidades por aqui. Lá vai.
Ele era um cara estranho. E como todo cara estranho, ninguém entendia muito bem o que ele queria da vida. Fazia faculdade, natação e corria no parque. Até alguns amigos ele tinha. Ninguém muito próximo, mas alguns colegas de sala, que faziam trabalhos em grupo. Sempre negava os convites para as festas da faculdade, mas para os pais, dizia que era o cara mais popular da sala. Por isso vivia saindo, todas as noites.
Ela era uma japonesinha típica. Pequenina, tímida, discreta e de poucas palavras. Chegava até a ser estranha, de tão pouco que falava. Morava com os pais, os irmãos e os avós em uma casa que fazia fundos para uma loja de bugigangas, o ganha pão da família. Seu pai, muito rígido, não gostava que ela saísse a noite. Mas ela, sorrateiramente, conseguia escapar todas as noites, sem deixar vestígios.
Mesmo sem se conhecer, os dois tinham uma paixão em comum: a música. Mais do que isso, os dois sonhavam em ser cantores. E, estranhos que eram, frequentavam todos os karaokês da Liberdade. Um a cada noite. Mas ficavam ali, observando, aplaudindo e criando coragem para um dia, quem sabe, soltar a voz. Mas apesar dessa coincidência de gostos (e claro, devido à grande quantidade de karaokês na Liberdade), eles nunca haviam se encontrado.
Até que uma noite ambos entraram no mesmo karaokê. Ele inteiro de preto, com uma mochila nas costas e, como sempre, apreensivo. Ela de calça jeans e uma blusa larga, bolsa debaixo do braço e cara de assustada, por ter mais uma vez saído fugida de casa. Sentaram em mesas distantes, uma de cada lado do palco.
Ele nem reparou, mas ela não conseguia tirar os olhos daquele cara misterioso e sozinho, que cantava todas as músicas como se fosse o compositor de cada uma delas. Ela decidiu que precisaria chamar atenção do rapaz, mas não sabia como. Resolveu cantar, mas não tinha coragem de enfrentar os olhares do público e, principalmente, do rapaz misterioso. Chamou o garçom, pediu uma caipirinha. Com um pouco de bebida na cabeça, talvez criasse coragem. Pediu mais uma caipirinha. E mais outra.
Já no final da noite, escolheu a música, criou coragem e foi até o palco. Sem medo de nada, ofereceu a música ao rapaz de preto e começou a cantar. Até que começou bem, mas aos poucos foi esquecendo a letra, errando as notas e começando a gaguejar. As poucas pessoas que acompanhavam o espetaculo, começaram então, a vaiar. Quando ela já estava morrendo de vergonha, as vaias foram interrompidas pelo barulho de um tiro, que acertou em cheio a cabeça da moça.
Antes de ser levado ao camburão, ainda escutaram ele dizer: “Se o grande Tim Maia era obrigado a ouvir aqulio se revirando no túmulo, ela também era obrigada a ir até ele e pedir desculpas”.
Escrito por Ricardo Polinesio às 10h49
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Notícia
É com grande orgulho que escrevo esta notícia. Acabo de saber que os contos "Muito Prazer" e "Pé de Coelho, Saravá, Bate na Madeira 3 Vezes" foram selecionados no XXIV Concurso Internacional Literário e serão publicados no livro "Horizonte Noturno".
Se vc quer mais informações sobre este concurso, acesse o site www.giraldo.org e leia. Se você está boiando em relação a esta notícia, faça uma busca aqui no blog e leia os contos vencedores. E se você é o Chang ou o Juan, chupa.
Escrito por Ricardo Polinesio às 18h29
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Amante
Quando ele mais uma vez resolveu ir ao banheiro, a namorada começou a desconfiar. De duas, uma: ou seu namorado estava com a bexiga solta ou tinha outra garota na jogada. Aquilo não era possível. Eles estavam na festa a menos de duas horas e esta era a sexta vez que o Jorge precisava se dirigir ao toilette.
- De novo, Jorge?
- Estou apertado, Márcia!
- Mas já é a sexta vez!
- Agora você vai ficar controlando até quantas vezes eu vou ao banheiro?
- É que…
- Não perturba, Márcia…dá licença!
- Mas Jorge, meu amor…
E lá foi ele, resolver o seu problema. A namorada, espantada com tamanha grosseria, mais parecia uma estátua. Mas quando seus lábios começaram a tremer, prevendo um choro cada vez mais iminente, ela ouviu uma voz.
- Não deixa isso ficar assim, Márcia…vai atrás dele.
Atordoada com a situação e sem saber se aquilo era coisa da sua cabeça ou a se era a voz da sua melhor amiga dando mais um conselho estúpido, Márcia voltou a se mover e foi em direção da escadaria que levava ao banheiro localizado no piso superior daquela casa.
Ao chegar lá em cima, foi logo colando o ouvido na porta do banheiro. E depois de alguns minutos de silência absoluto, ela escutou uma movimentação ali dentro. Mais um período de silêncio veio seguido do barulho de três chutes no vaso sanitário. Em seguida, ainda ouviu a descarga sendo puxada por três vezes.
Márcia deu risada, imaginando a situação. O namorado com uma tremenda dor de barriga e nervoso com a privada que resolveu entupir bem nesta situação. Até com remorso por ter desconfiado do namorado ela ficou.
Mas quando Márcia voltou a colar o ouvido na porta, reconheceu a voz do namorado vindo lá de dentro. Ele parecia conversar com uma garota. Novamente tomada pelo ciúme, ela arrombou a porta com um só chute e deu de cara com Jorge aos beijos com uma mulher.
Márcia gritou e assustou o casal. O beijo foi interrompido. Jorge ainda teve tempo de rezar para que aquilo não fosse verdade, mas era tarde demais. As duas já haviam trocado os olhares fatais.
Depois de ter visto aqueles algodões no nariz daquela loira lindíssima, Márcia, pálida como um fantasma, ainda tentou sair correndo. Ela, que nunca levou a sério nenhum tipo de lenda urbana, só conseguiu dar três passos antes de ter a cabeça arrancada do próprio corpo e cair dura no chão.
Bobinha, não sabia que não se deve tentar fugir da loira do banheiro.
Escrito por Ricardo Polinesio às 12h02
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Carnificina
O sangue não parava de jorrar quando ele entrou naquela sala sem janelas. As paredes, antes completamente brancas, agora estavam pintadas de vermelho. Gritos ensurdecedores vinham de todos os lados. Tentou correr, mas a porta, fechada pela força do vento, estava trancada.
Aurélio ficou ali, imobilizado, observando aquela cena brutal. Nunca tinha visto tamanha crueldade. Tentou desviar o olhar, mas só conseguia focar naquele imenso corte na jugular. Tentou gritar, mas a voz não vinha. E a única coisa que conseguiu ao abrir a boca na tentativa desesperada de conseguir ajuda foi sentir o gosto daquele sangue que continuava jorrando para todos os lados.
Sentiu a roupa pesada. Uma mistura de sangue com suor. O cheiro havia se tornado insuportável. Os gritos ensurdecedores continuavam. Aurélio não sabia mais o que fazer quando fechou os olhos e tentou se lembrar de coisas boas da sua vida. Foi nesse momento que mais um jato de sangue foi de encontro ao seu rosto. Ele não aguentou e vomitou ali mesmo.
Nunca tinha visto tamanha carnificina. Seis corpos pendurados, um ao lado do outro, todos com o mesmo corte na jugular. E o sangue continuava jorrando sem cessar. Ele não conseguiu mais resistir e, mais pálido que um fantasma de desenho animado, caiu ali mesmo.
Foi retirado quase sem vida quando os donos do local chegaram para acompanhar o andamento dos trabalhos. Ainda no hospital, Aurélio, agora um vegetariano convicto, falou para si mesmo: “visita ao matadouro da cidade, nunca mais”.
Escrito por Ricardo Polinesio às 11h41
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João e Maria
Maria acordava cedo, tomava um belo banho, se arrumava inteira, devorava o café da manhã reforçado com ovos e bacon e ia trabalhar. João acordava tarde, engolia rapidamente uma xícara de café, tomava uma ducha rápida, se arrumava inteiro e ia trabalhar.
Maria era vaiodosa e recalcada. Tinha jeito de moça de família, não falava palavrões e nem fazia cara feia. Usava um vestido longo e gostava de deixar seus cabelos bem compridos e soltos. Trabalhava como faxineira na residência da Dona Lurdes. João era desleixado. Metaleiro e mal encarado, gostava de exibir suas longas madeixas e soltava palavrões a torto e à direita. Mas para trabalhar como segurança na residência da Dona Lurdes, escondia os cabelos embaixo do boné. Exigência da patroa.
Nos finais de semana, Maria gostava de acordar cedo para lavar a roupa, arrumar a casa e assistir os meninos jogando bola no campinho de terra. Ela dizia para quem quisesse ouvir, que ainda seria a técnica daquele time. Já João, acordava tarde, comia qualquer coisa nos botecos da região, tomava um trago com os amigos e aproveitava as festas mais animadas do bairro.
Os dois moravam juntos. Não eram casados, namorados e muito menos um casal. Eram apenas colegas de quarto. Ou de barraco, como gostavam de deixar claro para a patroa e os vizinhos. O relacionamento deles era ótimo, apesar de se encontrarem apenas na parte da tarde, enquanto João se arrumava na frente do espelho. Invariavelmente, costumavam se cumprimentar de forma simples e metódica.
- Boa tarde, João.
- Bom dia, Maria.
E era assim há anos. Vinte e três, para ser mais exato. Vez ou outra, trocavam algumas palavras a mais.
- Boa tarde, João.
- Bom dia, Maria.
- Se apressa aí, que a mulher tá uma fera hoje.
- Pode deixar comigo.
- Bom trabalho, João.
- Boa noite, Maria.
E lá ia João pegar no batente enquanto Maria descansava em paz depois de uma dura manhã de trabalho na casa da Dona Lurdes.
Certa vez, numa tarde chuvosa, uma tragédia aconteceu. Depois de um temporal típico de verão, com chuva de granizo e tudo, o barraco de Maria e João desabou. Os dois nunca mais apareceram para trabalhar na casa da Dona Lurdes.
Os corpos nunca foram encontrados. Mesmo assim, os vizinhos organizaram um velório simbólico para homenagear os amigos de longa data. Mas o que tinha tudo para ser uma cerimônia triste e cheia de lágrimas, terminou em uma grande festa. Todo mundo de mãos dadas, formando um círculo, rodando e cantando.
“Maria sapatão, sapatão, sapatão.
De dia é Maria, de noite é João”.
Escrito por Ricardo Polinesio às 11h24
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Velório
Morreu o Aníbal. A família, em prantos, aos poucos foi chegando para o velório. Um tio do interior de São Paulo, um primo do norte do Paraná, as filhas do Rio de Janeiro e até aquele sobrinho de Brasília. Todo mundo apareceu. Nem no Natal a família estivera tão reunida.
Alguns não sabiam direito nem o porque estavam ali. O fato é que a notícia da morte repentina do Aníbal se espalhou e todos os parentes resolveram aparecer para prestar as condolências. Tinha gente que não se encotrava há anos.
- Quanto tempo, Juvenal!
- Pois é…acho que já faz uns 7 anos.
- Tudo isso?
- Opa! Daí pra mais…
- Não é possível…
- Faça as contas, Alberto…quando morreu o Elias, o Lula ainda não era o presidente…
- Ah, o Elias…que sujeito, hein!
- Um homem bom…não merecia uma morte como aquela…
- Não queria dizer isso, mas só não foi pior que a do Aníbal…
- Não brinca…
- Vai dizer que você não…
- Não faço a menor idéia…morreu de que o Aníbal, hein?
- Assassinato. Parece que a amante encontrou o Aníbal nos braços da esposa, bem no dia do aniversário dela…
- Da esposa?
- Não, da amante.
- Xiiii
- Pois é…
- Com amante não se brinca, Alberto!
- Pobre Aníbal…não merecia morrer assim…
- Foi feio o negócio então?
- Ô! Dá uma olhada lá…caixão fechado e tudo!
- Pobre Aníbal!
- Mas me diga, Juvenal, como estão as coisas lá no Paraná?
- Você soube que eu me separei da Gilda, né?
- Tá brincando!?!?
- Com coisa dessas não se brinca, Alberto!
- E as crianças?
- Ficaram com a mãe…estão morando nos Estados Unidos!
- Não é possível…
- Pois é…já não vejo eles há 3 anos…
- Isso é um crime!
- Nem me fala…mas e você, Alberto, o que conta?
- Soube que me casei novamente?
- Não brinca!
- Verdade…te mandei um convite até…
- Deve ter ficado na casa da mãe da Gilda…
- Pena você não ter ido…foi um festão!
- A parentada toda foi?
- Pra falar a verdade, só os mais íntimos…
- Casamento é assim mesmo…
- É por isso que eu prefiro velório…vêm sempre a família toda!
- Você viu que até a tia Ermenengarda tá aí?
- Vi…ela e a tia Ruth…
- Bons tempos aqueles na casa da tia Ruth…
- Bota bom nisso, Juvenal!
- Aquela sobrinha dela…
- Era sua meia-prima, Juvenal!
- Vai dizer que você não olhava pra ela?
- Olhava, né…ninguém é de ferro…
- Até o pobre Aníbal se aproveitou da Juju…
- Pobre Aníbal!
- Morreu cedo!
- Não merecia isso…
- É, mas se não fosse a morte do Aníbal, a gente não se encontrava…
- Grande Aníbal!
- Pô, Alberto, muito bom te ver…quando será que a gente se encontra novamente?
- Pelo jeito, só no próximo velório…
- Então será logo mais…o tio Alaor já está com 97!
- Aquele safado…
- Deixa disso, Juvenal…quem sabe no velório dele não vem até a sobrinha da Dona Lurdes…
- Grande tio Alaor!
Escrito por Ricardo Polinesio às 12h49
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Lanterninha
Amante do cinema. Era assim que os amigos descreviam o Wanderley. Apreciador fanático da sétima arte, Wandeco, como era conhecido, tinha na memória a sinopse de todos os filmes que já tinha assistido. Mais do que isso, o rapaz sabia exatamente quem eram os atores, os diretores e em que país foi produzida cada obra tanto do cinema hollywoodiano, como do cinema europeu, brasileiro e até do asiático.
Quando entrava em uma sala de cinema, parecia que o rapaz entrava também em uma espécie de transe. Wandeco não desgrudava os olhos da tela, prestava atenção em cada detalhe, se irritava se ouvia alguma conversa paralela, e detestava o barulho das pessoas comendo pipoca. Celular tocando então, era um crime. Dizia-se na cidade, inclusive, que certa vez Wandeco havia chegado às vias de fato com uma mulher que insistia em deixar o aparelho ligado.
Bem apessoado, Wanderley era o sonho das menininhas da cidade. Seus namoricos até que começavam bem, mas nunca engatavam. Bastava a garota tentar uma aproximação durante a primeira sessão de cinema que iam juntos, que Wandeco já soltava os cachorros. Para ele, ir ao cinema significava entrar na sala, acomodar-se na poltrona, apreciar toda aquela magia, prestar atenção em todos os detalhes do filme e claro, aplaudir no final. Abraços, carícias e beijos na boca estavam fora de cogitação. E cada vez que ele percebia um casal mais assanhado dentro da sala, tratava logo de chamar o lanterninha.
Mas apesar de sua paixão cinematográfica estar a todo vapor, Wandeco estava cansado de conquistar as mocinhas da cidade e colocar tudo a perder na primeira vez que iam ao cinema. Tratou então de procurar ajuda profissional e começou uma análise com um psicólogo que dizia ter a solução para os seus problemas.
Algumas sessões depois, Wanderley sentia-se muito mais confiante. Foi liberado pelo doutor para ir ao cinema. Entrou na sala, acomodou-se na poltrona, apreciou toda aquela magia, prestou atenção em todos os detalhes do filme e, claro, aplaudiu no final. Mas dessa vez, Wandeco não se importou com o barulho das pessoas comendo pipoca, não reclamou de conversas paralelas, ignorou o telefone que insistia em tocar e, principalmente, não chamou o lanterninha quando os casais apaixonados começaram a se beijar. Ele parecia estar curado.
O segundo passo do tratamento consistia em levar alguma namoradinha ao cinema. Wandeco cumpriu sua meta com louvor. Até beijo na boca ele deu. De olhos fechados e tudo. Finalmente uma relação do rapaz passava do primeiro estágio. E ele estava animadíssimo com isso. Aos 33 anos, sentia-se como um adolescente.
Empolgado com o namoro que estava indo pra frente, e pelos problemas solucionados, Wandeco passou em uma locadora de vídeo e alugou um filme. Escolheu um que já havia assistido, para não ter erro. Pela primeira vez, ele iria assistir um filme fora do cinema. Mas o rapaz estava feliz. Era também a primeira vez que ele levava a mulher que amava para sua própria casa.
Wadeco deixou tudo preparado. Escolheu um vinho, acendeu as velas, ajeitou as caixas acústicas e até mandou lavar o sofá. Vestiu sua roupa mais bonita, passou perfume e lá foi ele, buscar a sua amada. Chegando em casa, o casal trocou alguns beijos, bebericaram o delicioso vinho escolhido por Wanderley e conversaram um pouco até chegar o momento mais aguardado: a sessão particular de cinema.
Sentaram no sofá juntinhos. Lá pela metade do filme que o rapaz já havia assistido umas 6 ou 7 vezes, Wandeco começou a se engraçar para o lado da namorada.
- Ô amor…até que assistir filme em casa é bom, né…
- Te falei Wanderley, é uma delícia…
- É que no cinema tem aquela magia…
- Isso é verdade…
- Mas aqui também tem…
- Tem mesmo…
- Aqui a gente pode tomar este vinho delicioso, pode ficar juntinho, abraçadinho…
- É…
- Aqui não tem ninguém pra atrapalhar…a gente pode se beijar à vontade, pode se agarrar…
- Calma, Wandeco…
- Aqui a gente pode fazer o que quiser, meu amor…vem pra cá, chega mais perto de mim…
- Olha o filme, Wandeco…
- Eu adoro essa cena…só me dá mais vontade de te agarrar…
- Sossega, meu amor…
- Vem aqui…eu esperei tanto por esse momento…
- Sai pra lá, Wanderley…vou chamar o lanterninha, hein!
Escrito por Ricardo Polinesio às 10h28
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Depois dos 90
Encontraram-se na saída de emergência. Tudo planejado para que nenhum enfermeiro sentisse falta de um dos dois no asilo. Pareciam dois adolescentes apaixonados.
- Eu não sabia que isso era tão bom.
- O que? Você também nunca tinha feito isso antes?
- Nunca.
- E porque?
- Não sei…simplesmente ainda nunca tinha acontecido…e você?
- Eu nunca fui de chamar muito a atenção dos rapazes…
- Mas chamou a minha.
- São seus olhos…
- Você também vai acabar tendo catarata, Edna.
- Acho que 8 graus de miopia já são suficientes.
- Você também não enxerga direito?
- Nem um palmo à minha frente.
- Então foi por isso…
- O que?
- Por isso que você teve coragem de me dar esse beijo…
- Não estou entendendo, Artur.
- O que?
- O que, o que?
- Não entendi o que você falou…
- Surdez?
- Parcial…meu ouvido esquerdo ainda funciona relativamente bem.
- Desculpe.
- Não tem problema, mas fala desse lado aqui.
- Tudo bem…mas continuo sem entender.
- Sem entender o que?
- Qual o problema de eu te dar um beijo?
- É que minha boca…meus dentes…
- O que que tem?
- Ai que tá…não tem…é dentadura!
- Você também usa dentadura?
- Há 13 anos, e você?
- Há 11…mas essa é novinha, troquei faz 6 meses.
- A minha já está amarelada.
- Não se preocupe, eu não consigo notar a diferença…
- Me dá mais um beijo?
- Vamos tentar sem dentaduras?
- Vamos…
- Que mão boba é essa aí, Artur?
- Gozado, pensei que toda mulher tivesse dois seios.
- E tem!
- Mas…
- Precisei tirar há 2 anos…
- Desculpe…
- Não tem problema…já estou recuperada…
- Nossa, Artur, mas que braço gelado…
- É titânio!
- Você não tem um braço?
- Tenho sim…e de titânio, muito mais resistente…
- Nunca tinha visto um assim…
- Gostou?
- Gostei…é tão…duro!
- Pelo menos alguma parte do corpo…
- Não vai me dizer que…
- Pois é…
- Faz tempo?
- Uns 15 anos, no mínimo.
- Tem remédio para isso…
- No meu caso não.
- Não?
- Não.
- Como não? Ouvi falar de um remédio chamado Viagra…
- Isso é para quem ainda tem…
- Você tá querendo dizer que não tem nada ai?
- Nadinha. Nem as bolas…
- Desculpa…deve ser difícil para você…
- Na verdade, foi culpa minha…
- Próstata?
- É…eu dizia que no meu cu, médico nenhum enfia o dedo!
- Dizia?
- Eu estava sedado, não tinha como me defender.
- Ah, se tivesse sido comigo…
- Você nunca teve um orgasmo?
- Nunca.
- Desculpa não poder te ajduar…
- Você ainda tem seus dedos…
- Artrite.
- Me deu um aperto no coração agora, Artur…
- É o amor, eu já tive isso uma vez…
- Não sei…
- Edna, você está bem?
A velha caiu ali mesmo. Quando os enfermeiros chegaram, já não havia mais o que fazer. Paixão depois dos noventa é mesmo um perigo.
Escrito por Ricardo Polinesio às 16h11
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Amor Eterno?
Namoravam há 3 meses. Formavam um casal tão apaixonado, que faria inveja até nos casais mais apaixonados de Hollywood. Pareciam ter sido feitos um para o outro. Mas havia um porém: ele ainda não havia sido apresentado aos pais da sua amada.
Não que tivesse faltado oportunidades, mas a Clarinha morria de medo de apresentar o Eduardo para sua mãe e, principalmente, para o seu pai. Como é que aquele ex-general do exército, que havia sido peça importante do governo durante a ditadura militar iria reagir ao conhecer o genro, um sujeito que apesar de ser um ótimo ser humano, andava para cima e para baixo com roupas rasgadas e cheio de piercings e tatuagens?
- Clarinha, eu te amo tanto…acho que já está na hora de conhecer seus pais!
- Deixa disso, Edu…um dia você acaba conhecendo…
- O problema é que esse dia nunca chega, né…
- Relaxa, meu amor…não se preocupe com isso…
- Você acha que seu pai não vai me aceitar, é isso?
- Larga de bobeira, vai…
- Eu posso tirar esses piercings…
- Nem pense nisso, eu gosto de você assim!
- E sua mãe? Quero saber como é a minha sogra!
- Ela é tranquila…meio antiquada, mas boazinha…
- Já sei, são as tatuagens, né? Eu escondo as tatuagens só para conhecer seus pais!
- Ai, mas que insistência a sua, Edu!
- É que você já conhece meus pais, minha irmã….minha família toda…
- Eu adoro eles, por sinal!
- Tá vendo, também quero ter essa possibilidade…
- No momento certo você vai ter…
- Fala a verdade, Clarinha, você acha que seus pais não vão gostar de mim!
- Edu, pára com isso, vai!
- Isso é importante para mim…
- Importante é a gente estar bem!
- Importante é eu conhecer seus pais…
- Tá bom, Edu, é isso mesmo…não te apresentei para eles ainda, porque eles não vão te aceitar! Eles são muito antiquados!
- Agora que eu faço questão de conhecê-los.
- Não vai dar certo…é melhor não!
- Por favor, Clarinha…pelo nosso amor!
- Sei não…
- Por favor…
- Acho arrisacado, Edu…
- Não vai ter problema nenhum, eu prometo!
- Tá bom…sexta-feira então…você janta em casa?
- Está mais do que combinado…você vai ver, minha sogra vai me adorar!
Jantar marcado, o rapaz ficou empolgadíssimo com aquele evento. Pensou mesmo em tirar todos os piercings do corpo, esconder as tatuagens, mas achou melhor não. Ele deveria se apresentar do jeito que sempre foi.
No grande dia, Edu tomou um banho demorado, colocou sua camiseta menos rasgada, penteou o cabelo e até passou perfume. Naquela noite, ele deveria estar impecável. Nada poderia dar errado. Ele queria impressionar a todos.
O jantar foi uma delícia. Todos comeram muito bem, beberam vinho, conversaram bastante e o Edu até conseguiu lembrar de todas as regras de etiqueta que sua mãe o ensinara na noite anterior por conta deste evento.
O sogro, general aposentado, não foi muito simpático, é verdade. Não gostou das tatuagens e achou um tanto quanto estranho aquele monte de metal pendurado nas orelhas, sombrancelhas, nariz, língua e até no mamilo esquerdo do rapaz, mas do seu jeito, acabou aprovando o relacionamento da filha.
Como o Edu havia previsto, a sogra realmente adorou o novo genro. E adorou tanto que, 3 dias depois daquele jantar, acabou fugindo com o rapaz sem nem mesmo deixar pistas. Deixou o chato de galochas do marido resmungando naquela velha poltrona marrom e o pobre do cachorro sem ter o que comer.
Já a Clarinha, bem, essa aí, depois de chorar por 3 dias e 3 noites sem parar, tentar cortar os pulsos sem sucesso, acabar com todos os chocolates do armário e destruir a academia que ela mesma havia montado em casa, descobriu que mãe gostosa deveria continuar mesmo sendo só coisa de novela.
Escrito por Ricardo Polinesio às 16h48
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Separados no Nascimento
Tá, isso não é um texto. Aliás, está longe de ser. Mas é foda, eles são muito parecidos. Um é o João, dono do ZG. O outro é o Riberpeixe. Só resta mesmo é saber quem é quem.

Escrito por Ricardo Polinesio às 15h26
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O Terror das Empregadas
Sempre foi o terror das empregadas. Desde que entrou na puberdade, Alessandro vivia atormentando as domésticas da sua casa. Não deixava nenhuma passar em branco. Era assobio pra cá, beliscão na bunda pra lá e, invariavelmente, um tabefe na cara como resposta de tais galanteios. Mas isso estava longe de ser um problema para o menino. Alessandro era tarado pelos tabefes bem dados em sua face.
- Alessaaaandro
- Que foi, Natinha?
- O que você vai querer comer no almoço?
- Quero comer você, ué.
- Cataplaft! – Mais um tapa na cara para a coleção do garoto.
Não tinha empregada que aguentasse 2 meses na casa de Alessandro. E não adiantava sua mãe contratar senhoras de idade, desdentadas ou qualquer tipo diferente. Por mais caricata que a doméstica fosse, lá estava ele aprontando das suas.
Em pouco tempo a fama do menino se espalhou pela região. Sua mãe já não conseguia mais contratar ninguém para trabalhar em casa. Foi aí que o “Terror das Empregadas” começou a atacar até no meio da rua. As domésticas já não tinham mais sossego nem na hora de ir à feira.
Alessandro até conseguia levar algumas delas para a cama, é verdade, mas o fato é que o garoto tinha muito mais fama do que conquistas em sua curta carreira de terror das empregadas. Mesmo porque, ele gostava mesmo é de tapa na cara.
- Mas que bundinha, hein!
- Sai pra lá, menino!
- Vai…rebola assim, que eu gosto!
- Vou te dar um tapa, hein, moleque!
- Isso, bate na cara!!
- Cataplaft! – Pode colocar mais um tabefe na conta.
O “Terror das Empregadas” se deliciava com sua fama. Contava para os amigos, mostrava as marcas dos dedos que viviam estampados em sua cara e fazia até um ranking de quantos tabefes já tinha levado de cada doméstica que conhecia.
Cansado da rotina, Alessandro resolveu atacar de uma nova maneira. Diferentemente das outras vezes, quando abordava as domésticas pela frente e em plena luz do dia, decidiu que agora faria um ataque noturno, e pior, pelas costas. Na sua cabeça, se o susto da empregada fosse maior, a violência do tabefe também seria.
O garoto preparou a tocaia. Escondeu-se no beco mais escuro da região, e ficou ali, só preparando o bote. Até que lá pela meia-noite, uma desavisada passou pelo local. E o susto foi tão grande, que a moça teve um infarte fulminante e bateu as botas. Abotoou o paletó de madeira. Partiu dessa para a melhor. Caiu preta e dura no chão. Morreu.
Alessandro não conseguiu o super-tabefe que tanto queria. Mas o apelido de terror das empregadas, agora fazia mais sentido do que nunca.
Escrito por Ricardo Polinesio às 14h38
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Mundo Animal
Amigos há tempos, os dois se encontraram no mesmo bar de sempre. E, entre uma cerveja e outra, entraram em uma conversa um tanto quanto estranha sobre as mulheres que eles conheciam. Ou seria sobre o mundo animal?
- Cara, você lembra da Aninha?
- Qual, aquela que tinha pescoço de girafa?
- Não, sua mula, aquela que trabalhava comigo…
- Ah sim…aquela vaca que me chifrou!
- Te chifrou?? Eu bem que tava te achando com uma cara de touro mesmo…
- Se eu pego aquela égua, eu mato.
- Bom, nesse caso, eu faria o mesmo…mas mudando de assunto…é verdade que você saiu com a Teresa?
- Faça-me o favor, né, seu jumento….aquela lá, é mais gorda que uma porca.
- Você é um animal mesmo…
- Animal? Pô, você sairia com aquela elefoa?
- Eu namoro, cara.
- Verdade…e é com aquela galinha da Janaína, né?
- Que isso, rapaz? Virou rato agora?
- Brincadeira…
- Mas e a Joana?
- Aquilo lá é uma cobra!
- E a Judite?
- Já sentiu o bafo-de-onça dela?
- E a Fernanda?
- Com aquele nariz de tamanduá? Tô fora!
- Marcela?
- Aquela cachorra não quer nada comigo!
- Também, com essa barbicha de bode…
- É estilo!
- Sei…mas e a Mariana?
- Não curto macaca.
- Olha o preconceito…hoje em dia dá cadeia, hein!
- É jeito de dizer…
- Tatiana?
- Tem dente de esquilo.
- Jéssica?
- Parece uma pata quando anda, já reparou?
- E a Flávia?
- Com aquele cérebro de formiga dela?
- Tá certo….agora, da Juliana você não tem o que dizer…
- Tem bigode de foca.
- E a Heloísa?
- É tão corcunda, que mais parece um camelo!
- Andréia?
- Grita mais que uma cabrita, aquela porra!
- Já sei…a Sandrinha!
- Não é ela que tem olho de coruja?
- Escuta cara, tô achando que você é meio veado!
- Que nada rapaz, é que eu só tenho olhos para a Manuela….aquela sim é uma gata!
NOTA DO AUTOR: Como é que pode o gato, um animal escroto, interesseiro, arisco, sacana, imundo, mau caráter, nojento, filhote do demo, neto do cruz credo e bisneto do coisa ruim, ser o único bicho do mundo animal que sirva como um elogio???
Escrito por Ricardo Polinesio às 14h49
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Dia de Feira
Entre a barraca de peixes e a barraca do pastel, lá estava uma senhora, toda toda, de óculos escuros e tudo, se achando a dona do pedaço. Odete se aproximou, assim como quem não quer nada. Ficou um tempão só observando de canto de olho até concluir que, 30 anos depois, lá estavam as duas, frente a frente novamente.
- Você por aqui?
- Desculpa, eu te conheço?
- Eliane, não é?
- Acho que a senhora está me confundindo…
- Confundindo? Eu tenho memória fotográfica, Eliane!
- Meu nome não é Eliane!
- Mas que cara de pau….mudou de nome, é?
- Sai daqui…por favor!!
- Quem diria, hein, Eliane….30 anos depois…
- Eu já falei que não me chamo Eliane!
- Vai, tira esses óculos escuros, que eu quero ver!
- Eu não posso com o Sol.
- Que foi, tá com medo? Tira os óculos…
- Me larga!
- Eu esperei 30 anos por este encontro…
- Isso não é um encontro!
- Você continua com aquele traste?
- Não sei do que você está falando…
- Não se faça de sonsa, Eliane…
- Eliane é a puta que te pariu!
- Aposto que você aprendeu a falar assim com o seu marido…
- Mas eu nem sou casada…
- E essa aliança aí no dedo?
- Sou viúva…
- O Aguinaldo bateu as botas?
- Como é que eu vou saber??? Não sei quem é Aguinaldo….aliás, nem sei quem é você!
- Ora…não me venha com essa, Eliane…tira essa máscara antes que eu arranque…
- Já falei que eu não chamo Eliane!
- Me deixa ver sua identidade!
- Me larga, me larga!
- Só quero ver a foto…
- Vai pra lá!!! Me largaaaa!!!
Odete tinha certeza de que finalmente tinha encontrado Eliane e partiu para a briga com toda sua força. Ela só não sabia que de Eliane, aquela senhora não tinha nada.
Assustada, a mulher não sabia mais o que fazer. Pensou em pegar a peixeira do peixeiro e enfiar na jugular daquela doida varrida. Pensou em jogar Odete contra a frigideira de óleo quente do pasteleiro para desfigurar ainda mais aquela cara feia. Pensou até, vejam só, em aceitar aquela loucura e dizer que realmente era ela a tal Eliane.
Mas de tanto pensar, a mulher acabou caindo do cavalo. Quando a polícia chegou para colocar ordem na baderna em que a feira havia se transformado, ninguém quis saber quem começou a briga. Foi cacetete para tudo quanto é lado e as duas acabaram dentro do mesmo camburão, algemadas, rumo ao hospício mais próximo. E enquanto uma gritava “Meu nome é Teresa! Meu nome é Teresa!”, a outra retrucava “Impostora! Impostora!”.
Escrito por Ricardo Polinesio às 17h53
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